Sunday, November 19, 2006

Queridos amigos e leitores,

Aos que tiverem curiosidade em saber como essa história continua, a segunda fase do blog está no endereço cronicasmadrilenas.blig.ig.com.br

Besitos, Bianca

126 - E agora, José? José, para onde?

Querido Drummond que me ajude:

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Há 34 anos saí do Rio de Janeiro; há quase 20 saí de Brasília - com intervalos em Nova York; há cerca de 12 saí do Rio outra vez; há pouco mais de 2 saí de São Paulo; há pouco mais de 1 saí de Atlanta e, desde então, estou em Madri. Com 36 anos, no meu trigésimo primeiro endereço, até sabe-se lá quando.

Nesse caminho, conheci muita gente assim ou que até mudou mais. Não sei se foi coincidência ou uma maneira de me sentir mais normal. Talvez hoje seja normal, a tal da globalização está criando uma nova nacionalidade virtual de expatriados. Se é bom ou mau, como vou saber? Acho que um pouco dos dois, mas sei que não há volta. Não é que não haja volta para o país de origem, ou para qualquer outro, simplesmente não há volta para o que fui.

Portanto, o jeito é tentar levar com bom humor e viver nossas aventuras. Recorro a cara 11, aquela com que cheguei em Madri, a de faço-isso-todo-dia-sei-o-que-estou-fazendo-e-não-me-pergunte. Nesse caso, é a 11-b, quando no fundo não tenho a menor idéia para onde estou indo.

Que se há de fazer? Vou eu novamente pensando nas músicas. Dessa vez, canto minha escolhida para São Paulo. Lá preferia na voz do Cazuza, mas agora quero mesmo é na do Lobão: Vida louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve...

Sim, estou enrolando, até para uma especialista em mudanças, às vezes é muito difícil romper. Mas hoje preciso fechar esse ciclo porque essa fase acabou. Preciso começar outra.

Aos que chegaram até aqui, muito obrigada pela companhia. Não vou parar de escrever, só vou recomeçar. Tenho meus motivos, mas essa é uma outra história...

125 – O mural de fotos

Há bastante tempo, nem me lembro quando, mas ainda no Brasil, tínhamos um mural de fotos com amigos. Tentei ter fotos onde, pelo menos uma vez, todos os nossos amigos pudessem aparecer. Reuni também vários momentos especiais junto com Luiz, com nossas famílias e nossos gatos.

Era divertido ver as pessoas chegando e se procurando no mural, e sempre se achavam. Na minha cabeça era uma forma de dizer que eram bem vindas, que faziam parte da nossa história. E funcionava para mim também, era um conforto lembrar que alguma coisa deveria ter feito certo para conhecer pessoas assim. Esse mural nos acompanhou pelo mundo e era de grande ajuda nos momentos de angústia, funcionou como um amuleto.

Em Atlanta, onde fizemos muitos amigos, tiramos várias fotos com a intenção de completar o mural. Aqui em Madri, ocorreu o mesmo, outras fotos de mais amigos queridos, com lugar reservado na minha grande placa de cortiça.

Entretanto, nenhuma foto foi adicionada. Sempre havia um motivo. Não havia baixado as fotos para o computador ainda, não tinha papel fotográfico, a impressora pifou... Até o dia em que não havia nenhuma desculpa e fui encarar meu painel que há algum tempo me incomodava e não entendia. Engraçado como, sem perceber, fui mudando ele de lugar até ficar praticamente escondido em um corredor.

Busquei explicações racionais. Devia ser porque havia amigos que se separaram, amigos que adoeceram, familiares que morreram, como era grande a minha cozinha, como estava magrinha, como gostava desse restaurante, dessa casa, dessa piscina e por aí vai. Mas a verdade mesmo é que meu mural de lembranças se transformou em um enorme mural de saudades. Demorava muito para que alguém se encontrasse nele, e quando se encontravam, também já não eram mais os mesmos, como não sou mais a mesma.

Tive uma sensação quase indígena e primitiva, em que as fotos aprisionavam nossos espíritos e agora precisamos todos voar em outros patamares. Continuam queridos e continuam bem vindos, mas estavam fora de contexto.

Pensei que esperto era meu gato, fotos e imagens de espelhos nada significam para ele porque não possuem cheiro.

No meu ritual particular, desfiz o mural e guardei as fotos com o carinho do passado. Estamos agora todos livres para sermos o que quisermos. Talvez um dia construa um outro, com velhos e recentes amigos, mas com um significado diferente e fotos novas.

124 – A melhor carne de Madri

Há cerca de uma semana, abriu em Madri um Baby Beef Rubaiyat, próximo ao estádio Santiago Bernabeu. Fomos conferir. Juro que não ganho um centavo em promoção, divulgo por pura felicidade em comer bem! Não é um restaurante baratinho, mas vale cada centavo!

Havia me esquecido como éramos bem tratados nos restaurantes em São Paulo. De certa forma, fui me acostumando com o serviço europeu, que pode até surpreender e ser educado e amável, mas não tem comparação ao bom serviço brasileiro, principalmente em São Paulo.

Pois tivemos o típico serviço brasileiro, simpático e atencioso, sem ser servil ou arrogante. Simplesmente perfeito! Tudo pensado nos mínimos detalhes, a decoração, as mesas, os talheres, a cozinha limpíssima. Pãozinho de queijo, lingüicinhas, batatinha souflê, tudo de bom. E o principal, uma carne fabulosa! Porque se tudo fosse correto, mas a carne não comparecesse à altura, já não compensaria. Mas compareceu.

Tudo começa pela chegada, eles oferecem serviço de manobrista. Gente, manobrista em Madri é artigo de luxo! Ainda tivemos sorte, pois como o restaurante acaba de abrir, estão divulgando e oferecendo algumas cortesias. Por exemplo, ganhamos couvert, poção do melhor jamón, sobremesas e um copo para fazer caipirinhas. Adorei!

Bom, pode ter parecido estranho eu falar do manobrista. Mas é que, por puro acaso, foi um fim de semana em que alugamos um carro. É que precisava comprar uma série de coisas para casa e ficava complicado trazer tudo de taxi. Quase todo o tempo foi Luiz quem dirigiu, o que me proporcionou uma mordomia que aproveitei bastante. Entretanto, logo na saída do restaurante, me deu uma vontade irresistível de dirigir. Caramba, sou um poço de contradições, todo esse tempo elogiando a delícia que foi abrir mão do carro e, de repente, não mais que de repente, essa vontade absurda.

Havia quase um ano que não conduzia um automóvel e achei que fosse estranhar. Pois me foi assustadoramente natural e a facilidade com que achei o caminho de casa fez parecer que era algo que fazia todos os dias.

Mas agora não quero pensar nisso, não importa. O que interessa é que, por algumas horas, jantei em São Paulo e voltei para casa no Brasil. E agora vou dormir feliz.

123 – Confissão super secreta

Hoje, pela segunda vez esse mês e um ano após nossa chegada em Madri, tive vontade de dirigir, ou melhor, ter um carro. Merda, maldita hora que peguei aquele taxi e lembrei como era rápido e confortável... O canalha do motorista ainda pôs ar condicionado, só podia estar me sacaneando! Ai, meu Deus, deixa eu ficar bem quietinha esperando a vontade passar!

Preciso me concentrar: garagem, estacionamentos impossíveis, mecânicos, postos de gasolina self service, fazer prova de direção outra vez, perder dinheiro na venda do carro, engarrafamentos, ver o mundo através de um para-brisas... Ufa! Passou!

122 – Solidariedade no cardume

Sempre vou de metrô para a faculdade. Normalmente, os horários que ando são movimentados, mas não é hora do rush. Isso quer dizer que costumo ir confortavelmente, quase sempre sentada.

Ontem, o curso acabou mais cedo e precisei tomar o metrô em uma das horas mais requisitadas. Para complicar, havia um tipo de greve em que o número de trens foram diminuídos. Ou seja, o metrô estava um inferno de cheio! Se soubesse, até teria tentado pegar um taxi, mas só descobri sobre a tal greve dentro da estação.

Quando entrei no vagão, estava cheio, mas possível. Umas três estações depois foi se tornando mais e mais impraticável. Por sorte, estava encostada na parede do fundo do vagão, o que é menos sofrível. E, claro, como a lei de Murphy sempre funciona, justo nesse dia resolvi tomar uma linha diferente, ou seja, não sabia exatamente quantas paradas ficava da minha casa. Com o vagão cada vez mais cheio, não conseguia ler o nome das estações do lado de fora.

Acho que o resto dá para imaginar, quando chegamos na parada que devia saltar, não percebi. Mas tive a impressão de ler nos lábios de alguém o nome Manuel Becerra, minha estação. Virei correndo para a moça do meu lado e perguntei se ela sabia onde estávamos, e lógico que era onde precisava descer.

E aí? Como fazer? Tinha poucos segundos e nenhum espaço para passar. Não sabia se o pior era perder a parada ou andar mais tempo naquela claustrofobia e ainda ter que voltar outra vez naquele aperto. Foi quando fui salva pela solidariedade entre meus recentes amigos-sardinha. Também não sei se eles me ajudaram pela necessidade do espaço, mas acho que foi porque se colocaram em meu lugar. Foi um tal de “deixa ela passar”, “vai por ali”, “rápido”, “acho que não vai dar”... Até que vi uma brecha mínima de ar e mergulhei como um vocalista de banda punk mergulha no público. Chega senti a porta fechando arrastar no meu pé. Acho que saí do vagão como uma rolha de champanhe, meu corpo até fez o barulhinho da pressão “ploc”!

Aterrizei meio desequilibrada e rindo comigo mesma. Nunca achei que fosse passar por isso novamente e ainda achar graça. Fiquei lembrando de Brasília, o único lugar onde usava transporte público com regularidade, porque afinal de contas, tinha menos de dezoito anos e não podia dirigir.

A primeira vez que andei de ônibus sozinha tinha por volta dos treze anos, em Brasília. Lembro exatamente como foi assustador e libertador, ao mesmo tempo. Vivia enchendo o saco da minha mãe porque queria aprender a andar de ônibus, o que significava para mim ter a liberdade de me locomover na cidade, sem depender de ninguém. Um dia, ela simplesmente me deu dinheiro e disse: volta hoje de ônibus.

Como assim? Volta hoje de ônibus? Mas em qual ônibus? Quanto custa o ônibus? Por onde entro no ônibus? Como aviso que quero saltar? Perguntas que hoje me soam absolutamente óbvias, mas que o fato de fazer pela primeira vez sozinha me deixou apavorada! Claro que minha mãe não tinha a menor idéia das respostas, afinal de contas, ela também não andava de ônibus, portanto ela fez a cara de que aquilo era óbvio e eu que me virasse. Até hoje não sei se ela queria que eu acertasse ou desistisse e ligasse para ela ir me buscar. Também não importa mais, quando saí, achei que ela queria que eu desistisse, quando chequei achei que ela queria que eu acertasse.

Foi depois do curso de inglês, lembro perfeitamente de não prestar atenção em nada, só pensava, cassilda e como é que vou pegar o tal do ônibus? Para quem vou perguntar isso sem parecer uma jeca ou uma fresca?

Para minha sorte, saí do curso conversando com uma amiga mais velha, que costumava vir andando comigo boa parte do caminho e depois pegava seu ônibus. Contei meio sem graça da minha missão do dia. E ela achando muito engraçado, mas no fundo solidária, porque também havia passado por isso, se propôs a ir comigo para eu ver que não era nada demais. Ufa! Pois ela me salvou a pele, nem a porta da entrada eu sabia qual era!

Chegando em casa, minha mãe estava me esperando para eu contar o que tinha acontecido. Também fiz a mesma cara que ela fez antes, como se nem estivesse entendendo o que ela queria saber. Simplesmente, tinha pego o ônibus ora, que bobagem! No meu quarto sozinha, comemorei aquela grande vitória, havia dado o primeiro passo para minha independência, ou nisso acreditava naquele momento.

Depois de alguns anos tomando o maldito “Grande Circular” lotado, mudei de idéia. Bom mesmo era andar de carro! Precisava fazer dezoito anos rápido! A piada dos alunos era que dentro do ônibus se contradizia a lei da física onde dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. A gente não precisava se segurar, porque não havia onde cair! Entrar e sair era sempre uma missão quase impossível, que a gente nem sabia como podia dar certo no final. Nós, meninas, desenvolvíamos a técnica do cotovelo, para nenhum engraçadinho vir se esfregando. É verdade que também havia uma certa solidariedade, sempre quem estava sentado se oferecia para levar os cadernos ou a mochila de quem estava em pé. De qualquer maneira, enchi o saco e jurei que quando começasse a dirigir nunca mais encararia essa situação.

Hoje já não me parece tão ruim, provavelmente porque não preciso encarar o problema todos os dias. Quem sabe foi a experiência passada que me ajudou a saltar do vagão lotado com tamanha desenvoltura depois de adulta e acostumada a uma boa mordomia.

Quer saber, que se dane a poesia social, amanhã vou de taxi!

121 – O casal baixaria

Minha relação de amor com o apartamento precisava ter algum defeito, não é mesmo? Pois descobrimos qual é, somos vizinhos de andar do “casal baixaria”. Aliás, diga-se de passagem, acho que todo edifício aqui tem um casal com esse perfil. No antigo apartamento também tinha, mas pelo menos não eram nossos vizinhos tão próximos e se acalmavam no inverno. Vai entender.

Quando digo baixaria, não estou me referindo a barulho de sexo. Acho que isso seria divertido, quem sabe até estimulante, mas infelizmente é pancadaria mesmo. E, claro, baixaria que se preze, não começa antes das três da matina!

Logo no segundo ou terceiro dia que mudamos, ouvimos algo que parecia com briga e choro de homem. Vá lá, podia ser uma coincidência, alguém chegou borracho (bêbado) ou algo assim. Entretanto, a coisa vem se repetindo.

E o pior é que aparentemente eles gostam de público, porque sempre brigam com as janelas bem abertas, quando não gritando da varanda. Um barraco! E isso porque moramos em um bairro ótimo, para calar a boca dos preconceituosos que acreditam que essas coisas só acontecem nas camadas mais pobres e menos esclarecidas da população.

É mais ou menos assim, daqui de casa a gente escuta os berros de “eres un cobarde”, “hijo puta” etc. E na janela do edifício em frente, vemos o reflexo de um jogando coisas no outro, uma beleza! Além de rolar uma bateção de porta que parece que eles saem e entram do apartamento algumas vezes. Realmente, não entendo. Aliás, não entendo nada. Julgar as pessoas é complicado, mas acredito que algumas situações deveriam ser de bom senso mundial. Por que continuam na mesma casa?

Em doze anos de casada, nunca xinguei Luiz e nunca fui xingada. Não somos santos nem exemplos para ninguém, e é evidente que já tivemos nossa discussões, umas bobas e outras mais sérias, mas sempre com o limite do respeito. Posso em alguns momentos ter vontade de pular no seu pescoço, mas só de imaginar chamá-lo por um palavrão me dói a garganta. Vai muito além da minha natureza agressiva que venho domando ao longo dos anos.

Enfim, tinha a intenção de chamar esses vizinhos para a inauguração do apartamento. Felizmente, percebi antes que não são exatamente os amigos que queremos ter. Espero que se resolvam, ou que se separem, ou que, pelo menos, tenham a dignidade de se matar em silêncio e deixar o resto do edifício dormir em paz.

120 – A feijuca

No domingo, acordamos bem cansados, mas felizmente sem um pingo de ressaca. Acho que era de tanto que queria comer feijoada. Também não exageramos muito na bebida, o cansaço era por termos dançado mesmo. Além do mais, havíamos jantado bem e tomado bastante água, isso ajuda e muito!

Uma amiga nos chamou para almoçar na casa dela, seria sua primeira feijoada e ela estava meio tensa de errar a mão. Bobagem, acho que entre amigos, quando a comida não funciona a gente pede uma pizza, certo? Bom, mas confesso que, nesse caso, ficaria um pouco aguada, pois estava com um desejo de comer uma feijuca!

Resumo da ópera, deu tudo certo. Além do feijão, rolou pão-de-queijo, carne seca desfiada, couve, laranja... enfim, completa! E claro, a caipirinha. Ainda bem que havia queimado muitas calorias na noite anterior, porque chutei o baldinho.

Só teve um pequeno problema, se a gente já estava com um pouco de sono quando chegou, imagina depois de uma super feijoada? Estava difícil conversar, na verdade, estava difícil até piscar sem ceder a tentação de ficar mais tempo com os olhos fechados.

Em casa, fiz uma coisa que é rara, dormi à tarde. Dormi nada, desmaiei! E como foi bom.

119 – Baladeira que se preze...

Muito bem, disse que andava caseira, não que era caseira, certo? Porque baladeira que se preze cai na tentação na primeira oportunidade.

No mesmo sábado do granizo e da preguiça, fomos jantar com um casal de amigos brasileiros, o que em princípio seria um programinha light. Jantar super gostoso, vinhozinho que adoro, bom papo, boa música e tal. Por volta da meia noite nos despedimos e seguimos em direção à casa.

No taxi, recados no celular de Luiz para passarmos na casa de outro casal de amigos que moram perto da gente. Por que não? Partimos nós para a segunda etapa da noite. Chegamos lá, onde nossos amigos brasileiros recebiam outros amigos portugueses e chilenos. Nesse momento, todo o vinho já tinha sido devidamente evaporado e uma garrafa de whisky, que iniciou a noite cheia, agonizava seus últimos goles.

O papo foi empolgando, a música aumentando... e, aparentemente, um vizinho se irritando. Umas duas e meia da madrugada, bate na porta a polícia. Achei um certo exagero, realmente estávamos fazendo barulho, mas com certeza se alguém houvesse se manifestado ou pedido, baixaríamos o tom na mesma hora, foi distração mesmo. Enfim, os policiais foram educados e francamente, nem cheguei a ficar nervosa, quem gosta de uma boa farra e nunca vivenciou essa cena da polícia batendo na porta? Estou ficando experiente, ou em outras palavras, muito cara-de-pau.

A cena não deixou de ser um pouco engraçada. Toca a campanhia, minha amiga “lararilarará” atende o interfone e ninguém responde. Ela vira para mim e diz algo como, é esse pessoal tocando embaixo para deixar propaganda no correio. E eu, mas às duas da manhã? Na dúvida, resolvi olhar pelo olho mágico na porta. Eram dois homens do tamanho de um armário, com uniforme preto de faixa amarela no peito: ops! Voltei para ela e disse baixo, é a polícia, abre que vou avisar o povo. Ela achou que eu estivesse brincando, mas mesmo assim tentou parecer o mais careta possível e foi abrir a porta. Enquanto ia avisar os meninos para eles já irem baixando o som, só escutava minha amiga falando para os guardas: adelante! Eles não queriam entrar, só pedir para baixar o som. De qualquer maneira, a festa acabou.

Ou melhor, acabou essa etapa, pois como contei diversas vezes, a noite em Madri vai crescendo, uma coisa emenda na outra e quando nos damos conta estamos franzindo a testa com o sol batendo no rosto.

Bom, não chegamos a tanto, mas também não nos demos por vencidos e partimos todos para o “El Junco”, como já de costume. Três da matina e fila na porta, amo essa cidade! Até que a fila andou rápido, demos sorte porque, alguns minutos depois, a fila se multiplicou atrás da gente. Estávamos em um grupo de umas nove pessoas.

Nessa noite, comandavam a música, um DJ parecido com o Lobão na fase cabelo comprido e outro com a maior pinta de CDF. Ambos inspiradíssimos, me acabei de dançar. Estava sentindo falta da minha aeróbica semanal.

Por mim, acho que seria um dos dias que só sairia de lá varrida e com as luzes acesas, mas no domingão tínhamos uma feijoada na casa de uma amiga e aí a briga é feia. A feijoada ganhou é claro, e fomos embora por volta das quatro e meia. Até chegar em casa, tomar banho, encinerar a roupa fedida a cigarro e deitar, eram quase cinco e meia. Fiz as contas de quanto tempo me restava de sono e torci para não acordar de ressaca no dia seguinte, afinal de contas, uma feijuca animal me aguardava! Dormi bem.

118 – Dia da preguiça, do granizo e da janela

Sabadão de preguiça, parecia até domingo. Se já é complicado levantar quando tenho o que fazer, imagina sem nenhum compromisso e com aquele céu super nublado.

Nem era resquício da balada, que adiamos. Um casal veio jantar conosco na noite anterior, com a promessa de sairmos logo em seguida para encontrar outros amigos na Posada de las ánimas. Duas garrafas de um delicioso grand cru depois e um jantar meio improvisado, que modéstia às favas estava bem gostoso, claro que baixou a lombeira geral. A balada podia esperar a próxima noite livre.

No dia seguinte, recebi a mordomia do café na cama, o luxo que mais adoro no planeta! Daí é que não dava vontade de sair mesmo.

Ando caseira. Acho que estou curtindo o apartamento novo, sei lá, talvez sejam os dias chuvosos. Mas está sendo bom para descansar um pouco. Tomar um vinhozinho com Luiz ou com alguns amigos em casa, ou na casa deles, tem me parecido um programão.

Enfim, quando tomei coragem de por o nariz na tela do computador, comecei a escutar um barulho diferente de chuva, barulho de umas pedrinhas. Luiz falou do andar de cima, está chovendo granizo!

Fomos para a janela da sala por curiosidade e a chuva de granizos engrossou. Por alguns segundos, a rua ficou branquinha como se fosse neve. Fotografei, mas não aparece bem as pedrinhas de gelo.

Quando levantei a vista, percebi que tinha gente por praticamente todas as janelas. Meu impulso foi de me afastar um pouco do vidro, pois estava de pijamas. Depois notei que todos estavam de pijamas, iguais a mim. Ou seja, éramos um bando de preguiçosos, morgando em casa, curiosos na janela.

No prédio da frente, alguns andares abaixo, havia um casal de crianças, daquelas com olhar de moleque, que não sabiam se olhavam a chuva ou as janelas. Acenei para elas, que se acabaram de rir acenando para mim de volta. Por que criança acha tão divertido dar tchau para estranhos?

Em poucos minutos, a chuva acabou e o céu abriu com sol. Parecia outro dia. Saímos das janelas e da farra coletiva, e cada um voltou para sua própria preguiça.

117 – Meus amigos de Brasília

No fim de 2004, ainda morando em Atlanta, comecei a encontrar, pela internet, alguns amigos do passado. Navegando pelo orkut, encontrei o colégio onde estudei mais tempo, a Escola Paroquial Santo Antônio, em Brasília. É difícil acreditar, mas eu, uma ateísta convicta, estudei boa parte da minha vida em colégios ou faculdades católicas.

Nesse colégio, estudei da primeira à oitava série, de 1976 a 1983. Acredito que boa parte dos meus valores foram aprendidos ou fortalecidos ali, mas só agora posso ter a consciência de como estou tão igual em muitos pontos e tão diferente em outros.

Mas voltando à história, tudo começou achando uns dois ou três ex-alunos pelo orkut. A conversa e o interesse foram crescendo e um desses ex-alunos teve a brilhante idéia de fazer um grupo de discussão só nosso no yahoo. O que acontece é que sempre tem alguém que manteve contato com alguém, que por sua vez manteve contato com outros e assim por diante. Resultado, em um ano e pouco que esse reencontro iniciou, já somos um grupo de quase cinqüenta ex-alunos.

A grande maioria permanece em Brasília, mas muitos, como eu, se espalharam pelo Brasil ou pelo mundo. Não importa, para mim, são meus amigos de Brasília. É a memória e a referência que tenho. E só há muito pouco tempo entendi como é importante para mim ter essa memória e esses amigos.

Acho que devido a tantas mudanças, não tinha amigos de infância. Tenho muitos amigos queridos, mas tinha um pouco de vontade, meio dissimulada, de apresentar alguém como: “esse é fulano, a gente se conhece desde nem me lembro quando...estudamos juntos...”

Na verdade, não sei se a culpa é das mudanças, muita gente vive na mesma cidade a vida toda e também perde os contatos de infância. Mas enfim, essa é a minha desculpa.

De qualquer forma, para mim tem sido muito importante esse resgate do passado. É como uma prova arqueológica que existi, pois deixei alguma impressão. Ou melhor, existimos, pois todos eles também haviam me deixado impressões que, pouco a pouco, vão me voltando à memória.

A velocidade com que nos unimos me impressionou. É difícil explicar a cumplicidade que surgiu muito rapidamente entre boa parte desses ex-alunos. Alguns de nós já éramos amigos no colégio, mas entre outros, existia muito pouco contato e até mesmo algumas desavenças eventuais, que hoje o passado transformou em coisa de criança. Isso é muito louco, pois com a maior parte só falo via internet, e mesmo assim, fico feliz quando eles estão felizes, sofro quando eles tem problemas e tenho orgulho do que eles realizam. E tenho muita saudade de quem não tive saudade nenhuma por tantos anos.

No último fim de semana, 15 de abril de 2006, foi o encontro de 23 anos de formados, em Brasília. Não fui, mas fiquei babando daqui. Eles se encontraram no nosso antigo colégio, tiveram o privilégio de entrar nas salas e procurar as carteiras (mesas de estudantes) onde sentavam. Tentei me lembrar onde me sentava, mas nem sempre era no mesmo lugar. Depois eles seguiram para a chácara de uma das ex-alunas e fizeram uma festa, com direito a assistir o filme da nossa formatura.

Não pude estar presente, mas pensei nisso o dia todo. Fiquei imaginando quem ia, o que iria falar etc. E quando as fotos chegaram, quase podia me imaginar nelas. O encontro dos 25 anos já foi cogitado e nesse vou nem que vaca tussa!

Somos uma tribo. Temos o poder de voltar no tempo, resolver o passado. Seguimos um pacto não negociado, mas totalmente subentendido: decidimos que somos amigos, para o que der e vier, e pronto!

116 – A vida pós feriado

A volta às aulas foi mais tranquila do que imaginei. Acredito que a semana de férias recarregou minhas baterias e revi as prioridades. Muita água ainda vai rolar, mas é muito bom quando a gente consegue ir passo a passo, tentando não se atropelar.

O mundo ainda me parece difícil, mas não impossível. Acho que isso quer dizer que meu otimisto está tentando se recuperar. De qualquer maneira, quem é o louco que está sempre triste ou sempre feliz? Todos temos lados bons e maus e experimentamos altos e baixos, por tanto, no mínimo, posso me identificar com a raça humana e isso já é um começo.

Ainda é cedo para dizer, mas os novos professores me agradaram e comecei a sentir um interesse maior pelas aulas. Era a sensação que esperava ter no início do curso e não tive. Dessa vez, não precisei fazer tanta força para gostar. Começo a acreditar que continuo artista, mas me falta a resposta do porquê. É que esse porquê muda sempre e, às vezes, custo a entender que preciso perguntar outra vez. Ontem entendi, preciso de novas respostas: por que? Para que?

115 – Mantendo a tradição

Exatamente como no endereço anterior, uma semana após a nossa mudança, recebemos os primeiros hóspedes, um casal de amigos que mora na Inglaterra. Dessa vez, até que foi mais tranquilo, pois o apartamento já estava razoavelmente arrumado. Quer dizer, para mim, tanto faz, não me incomodo em receber as pessoas com a casa cheia de caixas de papelão, mas acredito que para os nossos hóspedes deva ser mais confortável chegar em uma casa arrumada.

O único problema, é que estávamos usando os colchões do sofá-cama como nossa cama de casal. Logo, tivemos que pedir emprestado dois colchonetes para eles dormirem. Se no apartamento passado, tivemos que carregar um sofá-cama na cabeça para ter onde dormir, dessa vez, apenas foi necessário que Luiz carregasse dois colchonetes pela rua para nossas visitas. No fim, acho que deu certo. Também foi bom que a gente fez logo o test drive dos hóspedes para ver o que precisávamos acertar. No início de maio chega o próximo casal visitante, do Brasil. Se eles tiverem sorte, terá chegado nossa cama, comprada na semana passada, e eles terão up grade na hospedagem.

Compramos uma cama de estilo japonês, ou seja, aquele tatami baixinho com o futon em cima. Nos deram um prazo de aproximadamente quinze dias para entregá-la, espero que se cumpra, pois estou doida para deixar o quarto arrumado também. Combina muito com o espaço, pois dormimos no mezanino que possui uma parte do teto rebaixada. Desse modo, a cama se encaixa quase como um ninho e fica muito aconchegante. Ainda por cima, tem uma janela no teto e adoro acordar olhando o céu.

Consegui instalar uma tela protetora bem discreta na varandinha, assim meu felino gordo pode tomar seu solzinho e fico tranquila. O gato mais mimado do mundo está adorando o apartamento novo, encontrou vários esconderijos e fica para cima e para baixo na escada.

Também consegui decorar o número novo de telefone e quase não me lembro mais do antigo. Eu mesma me surpreendo com a velocidade em que troco de canal.

Enfim, as coisas vão seguindo seu curso. Agora falta algumas festinhas para assegurar a boa energia e o alto astral do recinto. Estou doida para fazer a inauguração!

114 – As compras

Durante o feriado da semana santa estava em plena crise alérgica. É que minha resistência baixou e não sei se peguei gripe junto ou foi só alergia, sei lá, sei que passei mal para burro!

Mesmo assim, a idéia de arrumar a casa nova foi me animando e bem ou mal, levantava e fazia as coisas do mesmo jeito. Ao longo da semana fui melhorando.

Num desses dias, difíceis de levantar, me ligou uma amiga me chamando para dar uma volta e fazer umas compritas. Como estava meio enjoada, chamei ela para comer lá em casa mesmo e aproveitar para conhecer o apartamento novo. E ela veio.

Fomos conversando e fui melhorando. Cheguei a conclusão que um arzinho fresco me faria bem. A verdade é que achei que ela queria companhia para sair um pouco e tentei me animar. E acabou que foi bom para mim, acho que me faltava um pouco de consumismo na veia.

Não sou uma pessoa naturalmente consumista. Por isso, quando resolvo comprar alguma coisa também não me sinto culpada nem preciso ficar me controlando. Mas quando cheguei em Madri e quis sair para comprar algumas roupas senti uma coisa engraçada, me faltava aquela “amiga de compras”. Sabe aquela amiga que sai com você para bater perna, daí você vê alguma coisa que gostou e diz: puxa, queria experimentar essa blusa, mas estou com uma preguiça... E ela te responde: ah, mas você precisa experimentar, olha que linda... e o preço está ótimo!

Pois se me faltava a amiga de compras, não faltou mais. Meia dúzia de blusinhas lindas e de ótimo preço depois, estava com o humor e a saúde bem melhores. E os homens ainda dizem que é difícil fazer uma mulher feliz! Que bobagem, é tão fácil!

113 – Picnic no Retiro

No sábado, dois dias depois da mudança, ainda tínhamos algumas coisas pessoais no antigo apartamento para buscar. Para fazer tudo em uma única viagem, pedimos ajuda de um casal de amigos que mora perto e estamos sempre juntos.

Como já havia conseguido arrumar a cozinha, fizemos a inauguração extra-oficial com eles, abrindo uma garrafa de cava para comemorar. Claro, no meio de um monte de caixas de papelão!

Eles sugeriram que, no dia seguinte, domingão, a gente fizesse um picnic no parque do Retiro. Adorei, queria fazer isso antes, só estava esperando o tempo melhorar. E o tempo colaborou.

O bom de morar em um país estrangeiro é que a gente tem coragem de fazer algumas coisas que morreria de vergonha no nosso próprio país. Uma boa “farofa”, por exemplo. Se bem que, cá entre nós, foi uma farofa razoavelmente chic. Bem, quer dizer, meio chic, porque começou por chegarmos ao parque com um carrinho de feira para levar as coisas. Idéia do meu prático e desencanado marido. Imagina se a gente toparia pagar o mico de chegar no Brasil para um picnic, trazendo a comida e a bebida em um carrinho de feira? Nunca!

Escolhemos ficar perto do laguinho, segundo minha amiga, para termos uma vista do “mar”. Ela levou uma toalha enorme e umas cangas, onde nos sentamos e colocamos toda a comida. Sabe que ficou bonito? Levei vinho branco, mas por precaução coloquei em uma garrafa térmica para disfarçar. Depois de burra velha fico me preocupando com essas besteiras!

O dia estava simplesmente maravilhoso e agradável! Fazia muito tempo que não relaxava tanto e tenho certeza que foi o sentimento geral. Adorei ver as árvores verdes novamente e ouvir os tambores no ar. Sentia saudade desse som tribal.

Um pouco depois que estávamos lá, chegou um outro casal de amigos dos nossos amigos. E, logo em seguida, esses amigos dos amigos chamaram outro casal. No fim da história, estávamos em quatro casais largados na grama curtindo a primavera.

Muito bem, os dois últimos casais acabaram trazendo mais vinho, apesar da gente não ter certeza se era permitido álcool ou garrafas no parque. Em volta da gente foram se juntando outros grupos, alguns só para tomar sol, outros bebendo alguma coisa, jogando malabares, jogando capoeira, brincando com o cachorro ou simplesmente morgando na grama.

Um dos amigos viu um grupo de policiais chegando e, na dúvida, achou que era melhor escondermos as garrafas. Não deu outra, os policiais foram direto no grupo da frente porque tinham garrafas de cerveja. Foram educados com eles, mas pediram documentação e tudo. Era um grupo de brasileiros, vimos seus passaportes verdes. Tiveram que se desfazer da cerveja e das garrafas e ficou um clima um pouco tenso, mas não deu maiores problemas.

Daí ficamos nós, oito adultos caretas que não tinham feito absolutamente nada demais, tentando se comportar naturalmente para os policiais não virem checar nossa farofa. Para ser sincera, não fiquei preocupada, até achei meio divertido. A verdade é que havia três advogados entre nossos amigos com a consciência pesada porque podiam estar cometendo algo fora da lei. No fim das contas, os policiais nem nos deram bola. Claro, todo mundo com a maior cara de CDF, imagina!

Quando os policiais se foram, nos vangloriamos da nossa façanha meio ilegal. E como marginais perigosíssimos que somos, recolhemos todo lixo antes de ir embora, deixando o lugar impecável.

Repetiremos com certeza, dessa vez com o vinho em garrafas térmicas! Mas definitivamente, sem esquecer o carrinho de feira e quem sabe até leve meu tambor.

112 – A mudança para o apartamento da Calle Montesa

Com a cabeça e a casa viradas pelo avesso, um dia antes da mudança achei que ia surtar! Para complicar um pouco mais, ainda foi o dia de apresentar meu trabalho na pós-graduação, o que em outras palavras é o mesmo que me apresentar. Mais uma vez tendo que provar quem sou e esperar a aceitação, quando na verdade estava com vontade de mandar tudo às favas. Mais uma vez tendo que me reinventar e me reconstruir. Enfim, sobrevivi.

Em casa, Luiz me puxou para conversar e finalmente consegui desabafar um pouco e ver as coisas com mais clareza. Acho que meus problemas são reais, mas estavam mal dimensionados, precisei da ajuda dele para colocá-los no seu devido tamanho antes de começar a resolvê-los. Além do mais, é sempre muito bom saber que tenho um super parceiro ao meu lado.

No dia seguinte, tudo começou a mudar. Literalmente.

Contratamos uma empresa de mudanças que chegou pontual às 8:30 da matina. Eles sempre entram como furacões e encaixotam sua vida em minutos. Estou acostumada, isso não me incomoda, já sei tudo que preciso preparar com antecedência para me facilitar depois na arrumação. Aqui, normalmente são imigrantes que fazem o serviço, polacos, romenos, equatorianos... Um deles tinha cara de mafioso russo, dava medo, mas os outros todos eram simpáticos. O polaco estava doido para conversar sobre o Brasil, havia visto um programa na TV e tinha muita curiosidade sobre a cachaça. Aliás, horas mais tarde, quando a mudança terminou, demos a ele uma garrafa que foi retribuída com um sorriso nos indicando que valeu muito mais que a gorjeta. A propósito, gorjeta aqui chama propina.

Dessa vez, nossa mudança não foi tirada pela janela. Os móveis foram pelas escadas e as caixas pelos mínimos elevadores, ridiculamente pequenos. Mas o pior, ou melhor, é que eles fazem tudo rápido e sem reclamar, também estão acostumados.

Deixamos nossa cama de casal no apartamento antigo, era uma cama americana muito grande para os padrões europeus e aproveitamos a mudança como pretexto para comprar uma nova.

Com esse povo todo em casa, Luiz recebeu uma ligação com ótimas notícias do seu trabalho. A empresa onde trabalha foi comprada há alguns meses atrás e essa é sempre uma situação preocupante, pois a gente se sente meio vulnerável. Dessa vez, tanto ele quanto eu, tivemos a intuição que ele deveria ficar e ver o que aconteceria. Nesse dia da mudança ele soube que não só teria emprego, como estará responsável por outras regiões. Ele merece, trabalha para burro e é super competente. Claro que isso deu uma tremenda levantada no astral e ajudou a entrar com o pé direito na nova fase.

Aqui, as empresas de mudança reservam na prefeitura as vagas na frente do prédio para poderem realizar seu trabalho. Acontece que tem sempre um engraçadinho que resolve se fazer de desentendido e estacionar assim mesmo. Na outra mudança aconteceu isso e nessa não foi diferente. De manhã cedo, no primeiro apartamento, não houve nenhum problema, mas no meio do dia, trazendo os móveis para cá, algum esperto tirou a faixa de proteção das vagas e estavam todas ocupadas. Perdeu-se quase duas horas para chamar a polícia, rebocar os carros e estacionar o caminhão para começar a descarregar.

Nesse período, ligamos para meu irmão para desejar feliz aniversário. Dia 06 de abril, exatamente o dia em que chegamos na Espanha há um ano atrás. Mudamos no mesmíssimo dia.

Por volta de 19:00 horas, estávamos no nosso novo lar... com 98 caixas de papelão e outra vez sem cama! Voltamos ao antigo apartamento para buscar o Jack e, logo na entrada, ao ver tudo vazio, senti que não era mais minha casa. Mesmo tendo sido feliz ali, não mantenho nenhum laço às coisas, era só um lugar por um ano. Que venham os próximos e que sejam felizes!

Aqui, nosso felino gordo ficou perdidinho da Silva! Mudanças são difíceis para os animais. Mas como também temos prática nesse assunto, arrumamos rapidamente seus objetos de conforto e, aos poucos, ele foi cheirando tudo e se pondo mais à vontade. Ele gostou. No dia seguinte já passeava curioso pela casa.

Mudamos estratégicamente um pouco antes da semana santa. Tive uma semana inteirinha de feriado da faculdade e, consequentemente, mais tempo para arrumar a casa. Consegui arrumar quase tudo. Durante o dia abria e arrumava as caixas e, à noite, Luiz levava aquele monte de lixo e papelão para baixo.

Improvisei uma cama de casal no chão, usando os dois colchões do sofá cama de hóspedes. Ficou super aconchegante, com jeito japonês, o que acabou confirmando como seria nossa futura cama.

Adorei o apartamento novo! É um duplex pequeno, mas muito charmoso e com muita luz. Sol em casa aqui é um luxo que eu e Jack estamos desfrutando com muito prazer. No andar de baixo ficam a sala, a cozinha, o quarto de hóspedes/escritório e um banheiro. No andar de cima, um mezanino, fica nosso quarto com outro banheiro. Tem uma varandinha onde já coloquei umas plantas, mas preciso arrumar melhor. As coisas do atelier ficaram bem apertadas embaixo da escada e talvez tenha que usar a mesa de jantar para trabalhar, nem tudo é perfeito, mas também não dá para reclamar.

O chato é que a Internet está super improvisada, além de termos ficado sem ela alguns dias. E eu, uma super viciada na rede, tenho que escrever e checar minhas mensagens toda torta em um laptop na sala, o que ainda é melhor que buscar um lugar público. Os serviços aqui são uma bela bosta, tudo demora.

Foi uma semana trabalhosa, entretanto tranquila. Arrumar a casa me ajuda a organizar as idéias. Acho que sou mesmo pião de obra, viu?

111 – A crônica que deveria ter censurado

Nesse momento, se não escrevo, explodo. E nem me resta mais a feliz alternativa de fingir que nada posso fazer. É difícil sobreviver ao encontro com o real, e por isso já passei algumas vezes.

Há algum tempo atrás vi o filme “Matrix” e me pareceu bom, mas ao mesmo tempo comercial demais. Depois, pouco a pouco, você vai se abstraindo dos efeitos especiais e do romance que nada tem a ver com o conceito da obra, é uma mera distração. Quem sabe um disfarce para possibilitar o acesso à toda aquela informação. E digo isso porque cada vez mais tenho a sensação que me desconectaram ou desconectei a tomada da cabeça. E o que me pareceu um momento de lucidez e uma grande vantagem, tem se transformado em meu inferno! A realidade às vezes parece insuportável.

Meu refúgio quase seguro, a arte, tem se mostrado mais importante no discurso que na prática. Na realidade, se parece mais e mais ao mesmo mundo de negócios que conheço bem e que precisei renegar para prosseguir. E que ingenuidade a minha em crer que haveria um lugar diferente no mesmo espaço. O único espaço que posso idealizar é minha cabeça, mas aparentemente nem isso posso mais.

Como o poder vai se concentrando na mão de quem controla conceitos corretos, os conecta com um discurso coerente e nos impõe goela a baixo. Na maior parte das vezes, isso nem é percebido, pois o que analisamos são os fragmentos de verdade e não o resultado dessa conexão. Simplesmente acreditamos que várias pequenas verdades juntas se transformam naturalmente em uma verdade maior. Estamos perdendo a capacidade de ver a vida real de maneira ampla. O discurso é muito mais razoável e digerível.

É muito mais fácil viver entre o imaginário e o simbólico, na verdade, é necessário. Mas onde fazer o corte do que realmente sou e do que quero ser?

Cassilda! É essa crise de identidade que vira e mexe vem tirando meu chão. Lá vem minha próxima crise existencial. Estava demorando.

110 – Música boa outra vez, nem acredito!

Encontramos outro lugar para bater cartão na noite madrileña. Foi indicado por um casal de amigos brasileiros que gostamos muito.

É verdade que o nome nos foi dado como “el jungo”, “el jungle” ou algo assim, em frente à estação Alonso Martinez. Foi divertido ouvir o Luiz pronunciar esses nomes com vários sotaques diferentes para o motorista de taxi que o escutava como quem escutava grego. No fim chegamos e o nome é “El Junco”, pronunciado el runco.

É um bar com música ao vivo, normalmente jazz ou algo do gênero. Após o show, entra o DJ com repertório variado, que inclui músicas brasileiras, algumas que nunca ouvi antes, mas me soam familiares. O lugar tem um jeitão underground com o público meio alternativo, apesar de se encontrar quase todas as tribos. Como todos os bons lugares de madri é esfumaçadérrimo, mas isso não tem como fugir. O jeito é tomar um whiskão, soltar a franga e relaxar.

E o principal: a música é realmente ótima! Sei que parece exagero, mas encontrar boa música na noite aqui não é tarefa simples. Eu já abstraí, como já contei antes, danço e canto as tais músicas basura amarradona, porém não resta dúvida que o ouvido continua agradecendo algo de qualidade.

O DJ nem sempre é o mesmo, mas todos são bons, apesar de serem meio estranhos. Da última vez, juro que o cidadão tinha a maior cara de açougueiro! Passei a chamá-lo de “the butcher”. Nunca iria acreditar se o conhecesse durante o dia e ele me dissesse que era DJ, no máximo seria um padeiro portuga, com aquelas costeletas à moda antiga.

O importante é que quando vamos ao El Junco estamos acompanhados de amigos legais e acho que isso também influencia muito. Tem vezes que chego super cansada, achando que não vou dar conta, daí bebo um pouquinho, converso um pouquinho e quando percebo estou alucinada dançando até de manhã. Foi de lá que saímos uma vez famintos e desesperados por um hamburguer. Isso é uma realidade em Madri, os lugares para dançar nunca servem absolutamente nada para comer, só bebida.

Outra vantagem do lugar é que é razoavelmente perto de casa. Dá para caminhar na volta quando não achamos taxi ou o metrô ainda não voltou a funcionar. Acho até bom vir pelo caminho tomando um ar fresco. Quer dizer, eu e o casal de amigos que costuma voltar conosco, porque Luiz costuma reclamar que é longe.

No dia seguinte, sempre tenho um pouco de ressaca de cigarro alheio e tenho que por a roupa para lavar correndo. Mas quer saber, também sempre acho que valeu à pena.

109 – A burocracia espanhola

Aos que pensam que só no Brasil há essa “burrocracia” absurda, vou logo avisando, eles tiveram professores! Entre eles, seguramente os espanhóis!

A última que nos aprontaram é impagável! Em função da renovação da nossa documentação e por meu visto ser atrelado ao do Luiz, precisamos comprovar que somos casados. Até aí, tudo normal. Na primeira vez que entramos com o processo, entre os milhões de documentos exigidos, apresentamos a certidão de casamento, devidamente homologada pelo ministério das relações exteriores e o consulado espanhol no Brasil. Muito bem, agora além desse documento, precisamos apresentar uma declaração juramentada que afirme algo como “sim, sim, continuamos casados!”. A certidão de casamento não basta!

E claro que isso não chega assim tão explicado, não é mesmo? Primeiro nos pediram para solicitar esse documento no consulado brasileiro aqui em Madri. Depois de perder uma manhã na fila do consulado, eles me informaram que não dão esse certificado. Daí consultamos a advogada e perguntamos se não poderíamos fazer uma declaração no notario (cartório) e anexá-la à certidão de casamento. Ela confirmou e lá fomos nós catar o tal do notario que fez a declaração, mas levou três dias! Um dia fomos até lá solicitá-la, no outro dia voltamos para assinar os papéis e obviamente havia um erro de ortografia, e portanto nada nos foi entregue por causa de uma porcaria de um “n” a menos. Finalmente pudemos retirar o documento no terceiro dia.

E isso é só um dos documentos a serem apresentados. Acho que já deu para cansar só de ouvir e nem vou contar dos outros!

Mas essa da gente ter que apresentar uma certidão anexada a um certificado que confirme a mesma informação da certidão é o cúmulo, vai? Arrego!

108 – A super poderosa primavera

Dia 21 de março, oficialmente, iniciou a primavera. É verdade que o inverno está fazendo a maior força para permanecer um pouco mais, para a alegria do Luiz que adora o frio.

Na semana retrasada até deu para sair uns dois dias de camiseta e foi uma delícia sentir o vento fresco na pele e um calorzinho gostoso, que nem fazia suar. Mas logo depois entrou uma frente fria novamente que ainda se prolonga e que torço para acabar logo.

Tem também uma chuvinha fina meio chata, mas fundamental, pois ano passado foi muito seco e aprendi a valorizar mais a água. Infelizmente, meu cabelo não concorda com esse ponto de vista e sou obrigada a andar de casaco de capuz, já que não tenho paciência para carregar guarda-chuva. Bem feito para mim, que sempre digo que se uma pessoa tem mais de doze anos fica ridícula com casaco de capuz, mas convenhamos, na chuva é realmente muito prático.

O que importa é que a primavera está aí, é inegável! Pode até esfriar um pouco, mas a luz é outra, o astral é outro. O dias estão, pouco a pouco, se esticando e já anoitece mais tarde. Adoro esses dias compridos que espantam fantasmas!

Encontramos nosso novo apartamento e, se tudo der certo, mudaremos no dia 06 de abril. Olha as coincidências outra vez! Além de ser o dia do aniversário do meu irmão, o que me facilita para lembrar da data, foi exatamente o dia que chegamos em Madri. Mudaremos no dia que completaremos um ano de vida aqui. A propósito, será meu trigésimo primeiro endereço.

E o que o novo apartamento tem com a primavera? Ele tem uma varanda bem pequenininha, mas que posso encher de flores e plantas. E mal posso esperar para fazê-lo. Além de duas janelas com floreiras, sendo uma na cozinha, na qual quero plantar ervas para usar na comida. Isso sem falar no Jack que deve estar louco por uma brisa fresca e um solzinho ao ar livre.

Acho que vou gostar de lá, depois eu conto.

107 – Renovar a porcaria da identidade

Pelo título da crônica, acho que dá para perceber a irritação que isso me provoca!

Parece que foi ontem, mas já faz um ano que estamos aqui e isso quer dizer que é hora de renovar meu NIE, a carteira de identidade espanhola. Funciona da seguinte maneira, a primeira permissão de residência é válida por um ano, a segunda por mais dois anos, a terceira por mais dois anos também e, completando esses cinco anos, você já pode ter a carteira definitiva. Quer dizer, pelo menos em teoria, porque sempre descobrimos alguma novidade no caminho, mas em princípio é assim. Em cada uma dessas etapas, você passa por todo um processo super burocrático para ter seu visto de residência novamente aprovado e renovar seu NIE.

Passamos por um processo similar duas vezes nos EUA e agora estamos na segunda vez aqui na Espanha. Isso quer dizer que, em um prazo de dois anos, tive que provar que eu sou eu mesma quatro vezes! Pois que desculpem meu francês, mas é foda! E nessas horas só mesmo um bom palavrão para desabafar.

E como nada chega sozinho, veio junto com nossa próxima mudança de casa e com o início da pós-graduação em arte contemporânea. Muito bem, com a mudança, por mais que esteja acostumada e tenha atalhos muito convenientes, a verdade é que sempre me tira um pouco o chão e me força a uma certa reconstrução. O curso, além de estar me consumindo tempo e esforço, tem me feito questionar todos os dias se sou mesmo uma artista, se estou no caminho certo. Tudo isso aliado à troca de “identidade” e a necessidade de me provar o tempo todo é um prato cheio para loucura!

Não enlouqueci ainda, ou pelo menos não totalmente, mas ando com os nervos a flor da pele. E já caí umas duas vezes no choro por pura exaustão, nem consigo me lembrar exatamente o motivo. Daqueles choros que é por nada e por tudo ao mesmo tempo. Mas a verdade é que achei bom, porque a calma e a segurança que tenho levado os problemas ultimamente não é normal, mais parecia calmaria antes da tempestade. Melhor que saia em pequenos desabafos antes que pule no pescoço de alguém!

Por outro lado, também há algumas possibilidades positivas. Nessa minha primeira permissão de residência, não podia trabalhar no país, meu visto era atrelado totalmente ao do Luiz. Nos EUA era a mesma coisa, até pior porque não havia a chance de mudar essa situação. Aparentemente, porque certeza já não tenho de nada, essa nova permissão de residência para os próximos dois anos me dará o direito a trabalhar. E isso faz toda diferença do mundo. É uma linhazinha escrita no meu NIE permitindo uma atividade remunerada, nem sei se terei emprego, mas isso ajudaria muito a me sentir uma cidadã e não um apêndice.

Enfim, dias melhores virão! Não estou pessimista, só cansada mesmo. De qualquer forma, pelo menos chegou a primavera e já vejo os brotinhos verdes nas árvores que ainda parecem meio mortas. Pensando melhor, agora parecem meio vivas, e isso também faz muita diferença.

106 – Afinal, e como foi a festa?

Ótima festa de aniversário de casamento! Tudo bem que minha opinião é suspeita, mas me diverti muitíssimo e espero que nossos convidados também. Estávamos em dezoito pessoas e, como sempre, nossos animados amigos levantam o astral de qualquer reunião.

Dessa vez, não tivemos convidados espanhóis, pois aqui foi um fim de semana que imenda em feriado, e quase todos viajaram para as fallas, em Valência. Por isso, até ficamos na dúvida em fazer a tal festa com o medo que não houvesse ninguém na cidade. Mas no fim tudo deu certo.

Para os gulosos e curiosos em relação à comida, servimos uma série de canapés que Luiz e eu inventamos. Fizemos de camembert cremoso, ovo de codorna e caviar; emmental cremoso com geléia de frutas vermelhas e nozes; anchovas com cenoura; e queijo, ovo de codorna e anchovas. Além disso, fiz uns enroladinhos de salmão defumado com queijo camembert, amarradinhos com cebolinha; damascos recheados de creme de yogurt e amendoin; tâmaras recheadas com camembert cremoso e nozes; blinis de peixes defumados; salpicão de frango; e salada de cogumelos ao armagnac. Um casal de amigos trouxe umas empanadas de carne e de milho. Tudo iluminado com velas e regado a muita cava e vinho branco.

Eu já gosto de uma produção! Gasto um certo tempo planejando tudo e pensando nos detalhes. Assim, meu trabalho é todo antes, durante a festa me divirto como uma visita. E a verdade é que nem o trabalho que tenho antes me incomoda. Curto ficar imaginando quem gosta do que, como deixar a casa mais bonita e funcional, do que as pessoas vão precisar, que música combina com o clima etc. Dessa maneira, posso aproveitar a presença das pessoas e não ficar como uma louca de um lado para o outro apagando incêndios. E aproveitei!

Acho que incomodamos um pouco os vizinhos com o som, mas considerando que vamos mudar daqui mesmo, paciência! Além do mais era sábado e até agora ninguém reclamou. Deu até para dançarmos um pouco, ao som da Madonna e da Fernanda Abreu.

Enfim, acho que entramos com o pé direito na nossa adolescência matrimonial. E como tudo passou tão rápido! Mas, segundo a sabedoria popular, passa rápido quando a gente se diverte...

105 – O primeiro aniversário de casamento em Madri

Hoje é 18 de março de 2006, e fazemos aniversário de doze anos de casados. E sim, claro que tem festinha! Sempre comemoramos essa data, mas nos dois últimos anos foi meio complicado. Em um deles estávamos de mudança para Atlanta, dentro do avião acima do oceano, e no outro, em países diferentes, providenciando a mudança seguinte aqui para Madri.

Acredido que as pessoas devam se casar pelos motivos certos. Nós casamos porque eu ia trocar de carro. Juro! Muito simples, juntei dinheiro para vender meu carro e comprar um melhor. Daí, sabia que Luiz também tinha uma reserva, mas nenhum plano para ela. Pensei, quer saber, por que ao invés de comprar outro carro, não juntamos esse dinheiro e compramos um apartamento pequeno para a gente? Luiz adorou a idéia e passamos a buscar imóveis.

A verdade é que, mesmo juntando nossas economias, só dava para comprar uma kitinete porcaria, que atualmente se chama de maneira mais elegante: studio. Chegamos a conclusão que não nos adaptaríamos a nada tão pequeno e Luiz me perguntou se achava que meus pais poderiam nos ajudar. E eu, você acha que meu pai, conservador, iria ajudar a comprar um apartamento para a gente morar junto? Se ainda fosse para casar... E ele, muito prático, então por que a gente não casa?

... e assim, já se vão doze anos! Posso contar essa história agora, pois o tempo nos deu credibilidade e tornou tudo muito divertido. Mas, honestamente, nunca fui capaz de entender quem pediu a mão de quem em casamento.

O fato é que, desde muito cedo em nosso namoro, tínhamos essa sensação que ficaríamos juntos. Não era uma coisa conversada em palavras, era simplesmente uma consequência natural. Assim que, quando decidimos casar, achamos que era só ir até um cartório e formalizar.

Foi a vez da minha mãe saltar dois metros de altura: como assim casar no cartório? E a festa?

Sou a única filha mulher, tenho apenas um irmão mais novo. Casar sem uma comemoração era para eles a morte lenta e dolorosa, mas não entendia isso naquele momento.

Lembro quando o Luiz perguntou a minha mãe por que ela não usava o dinheiro da festa para colocar armários no apartamento novo. E ela respondeu: você acha que vou colocar o dinheiro da MINHA festa em armários? Ele veio me contar rindo, sua mãe disse que a festa é dela, eu é que não falo mais nada!

Bom, para apaziguar os ânimos, topamos fazer uma festinha íntima, só para a família, chamando a juíza para nos casar na casa dos pais do Luiz, em Teresópolis. Muito bem, quando se começou a fazer as contas de quem era “só a família”, chegaram a um número próximo aos cinqüenta. Minha mãe achou que era um número meio grande para fazer em Teresópolis e pensou em alugar um local. E aí, já que iria alugar um local, quem aluga para cinqüenta, aluga para cem...

Foi quando comecei a entender e perceber a agonia que era para meus pais, principalmente para minha mãe, o fato de nós não ligarmos para uma festa de casamento. Então, nesse momento, perguntei a ela se era tão importante assim que a gente fizesse uma festa maior. E ela me respondeu que sim. Daí eu disse que tudo bem, só tinha um problema, nessa época eu morava na ponte aérea, trabalhando em São Paulo e voltando para o Rio nos fins de semana. Não tinha a menor condição de organizar ou me preocupar com uma festa de casamento. Prometi a ela que eu e Luiz apareceríamos no dia, mas que ela precisaria decidir e contratar tudo! Pois acho que era exatamente o que ela queria ouvir.

No fim das contas, foram convidadas trezentas pessoas. Nos informaram que era normal uma falta de aproximadamente 20% dos convidados, o que não aconteceu. Foram a festa trezentos e trinta convidados, ou seja, não só não faltaram os 20%, como vieram 10% a mais!

Mas quer saber de uma coisa? A-do-rei! Se não tivesse feito a festa, não teria me arrependido, pois não conheceria a delícia que foi. A verdade é que se tornou um dos dias mais felizes da minha vida e essa memória me emociona até hoje. Aprendi a importância dos rituais de passagem e como uma felicidade se potencializa quando dividida com pessoas queridas.

A partir daí, sempre que possível, comemoramos o dia com uma festa.

Esse ano, por não gostar do número 12, resolvi contratacar a urucubaca com muita energia e pensamento positivo. O tema da festa é branco, inspirado no Ano Novo. Serviremos bebidas brancas, com destaque para a Cava, espumante espanhol. A maior parte das comidinhas incluem a cor branca e um toque afrodisíaco. O legal é que dessa vez Luiz me ajudou a fazer a comida da festa, o que acabou dando mais significado ainda.

E assim celebramos doze anos, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. O futuro, quem pode saber? Sei do que passou e já foi com dinheiro e sem dinheiro, com emprego e sem emprego, com casa e sem casa, sabe-se lá em que país, com amigos reais e virtuais, com um felino a tiracolo, discutindo nos caminhos, mas sempre chegando juntos aos lugares. Em todos esses dias, felizes ou não, dividimos a mesma cama. E o frio ou o calor da noite se encarregou em colocar a vida sob a real perspectiva e os problemas do seu devido tamanho.

Não tenho paciência para ver novelas e reclamo dos previsíveis filmes americanos, mas a verdade é que gosto de seus finais piegas e onde tudo dá certo. Gosto das novelas que terminam mostrando um casamento que será feliz para sempre, e ainda me arrepio no fácil final clássico de filme americano, quando o mocinho estende a mão e convida a protagonista para dançar. E que assim seja!

The End.

104 – Como é duro ser intelectual!

Quando era pequena e boa parte dos meus amiguinhos tinham medo de escuro, de lagartixas, de monstros e de fantasmas, eu tinha medo de ser burra.

Uma vez, quando me recusava a cortar o cabelo, minha mãe e minha avó vieram com uma história de que o cabelo grande pesava na cabeça e deixava a gente mais burra. Convenhamos, que sacanagem, né? Lembro de escutar aquela conversa com muita desconfiança que estavam me enganando, mas o pânico de ficar burra era maior e acabei fazendo papel de besta, pois cortei a porcaria do cabelo. Essa é minha primeira memória concreta de medo.

Fui criada em Brasília, uma perfeita fábrica de intelectuais. Não estou falando mal da cidade, que gosto muito, mas como qualquer lugar, tem seus pontos positivos e negativos. Acho até que de maneira geral as pessoas são muito injustas com Brasília, mas hoje precisarei ser crítica também. É um lugar frequentemente chamado de “Ilha da Fantasia”, que me soava um pouco absurdo quando morava lá, mas ficou muito claro quando vi de fora, com uma certa distância. A verdade é que Brasília, talvez por sua distância física e a forma como foi concebida, recebe o mundo através de filtros. É um “Castelo de Versailles” contemporâneo, situado uma montanha antes do “Castelo de Kafka”. Você até chega nele, mas não sem se macular e se emaranhar num sistema burocrático.

Além do mais, todo aquele planejamento, realmente facilita sua vida, é corfortável e você tem mais tempo. Com mais tempo você pode, por exemplo, pensar mais, ler mais, estudar outros idiomas... Posso afirmar que boa parte das pessoas mais cultas que conheci foi em Brasília. Adicionalmente, a possibilidade de viver em um mundo razoavelmente idealizado, dá um prato cheio para ser um teórico, um intelectual de verdade.

Passei minha adolescência buscando os livros e os filmes corretos, e me sentindo muito inteligente com isso. Nos meus sonhos mais secretos, queria ser uma intelectual.

Quando fui morar no Rio de Janeiro, com quase dezoito anos, tomei um banho frio de realidade. Meu mundo teórico foi para o saco! E achei que ser intelectual era um porre! Eu era, e sou, a burguesa que reneguei tanto. Como também não falava alemão, resolvi que essa história de filosofar não era para mim. Parti para vida, para o trabalho e para os prazeres.

Sem demagogia, tinha e tenho consciência da minha responsabilidade social e, na medida do possível, tento fazer ao menos o meu papel. Mas também tive que confrontar minha hipocrisia em achar muito cômodo ser a favor de um movimento de pessoas sem terra quando se tratava de uma fazenda no cu do judas, mas era assustadora a imagem dele batendo na minha porta. E uma hora bateu. Acusar policiais de massacres injustos me faz sentir redimida, mas a verdade é que se a arma estivesse na minha mão, será que não atiraria também? Conheci pobres indolentes e ricos trabalhadores, não digo que seja a regra, mas não houve como não redimensionar meus valores. Era fácil julgar um mundo do qual eu não fazia parte. Mas ao mesmo tempo, como poderíamos simplesmente nos conformar com o que existe?

Há muitos anos deixei uma parte dessas questões de lado e resolvi viver e pronto. Agora, por coincidência ou porque não há alternativa, isso me bate na cara novamente. A volta à vida acadêmica me fez confrontar velhos demônios.

Tenho uma professora que, a primeira vista, me parece uma mulher fabulosa, uma intelectual no melhor sentido da palavra. Daquelas que você escuta falando e pensa, queria ser assim quando crescesse. Para isso, só me falta ler uns 25 mil livros, 3 milhões de artigos, entendê-los, compará-los e buscar suas relações com fatos reais ao longo da história. Puta merda, como é difícil ser intelectual! Acho que não tenho competência nem paciência para todo esse trabalho! Mas como tapar os ouvidos e resistir a chance de tentar? E por que resisto tanto?

A verdade é que agora sinto muita falta do meu mundo filtrado, teórico e inteligente. Estar nele não fazia o mundo melhor, mas o fazia melhor para mim. Sinto uma saudade enorme do meu otimismo, de acreditar que faria diferença e que havia algo muito importante e um lugar muito especial me esperando. É egoísmo e não me importa, até porque é impossível, não será realizado. Invertendo meu passado, agora tenho muito medo de virar intelectual, talvez o bom mesmo seja ser burra.

103 – Um show quase bom e a língua sem palavras que queria dominar

Fomos ao show de um conhecidíssimo bailarino flamenco, que queria ver há algum tempo. Não quero dizer o nome dele, pois apesar de sua apresentação ter sido impecável, o som estava péssimo e houve uma série de problemas que prejudicaram o espetáculo como um todo. Uma pena! Fora o fato que seu ego subiu um pouco a cabeça e, como se diz aqui, estava um tanto creído.

Mas vamos lá, de tudo se tira algo de interessante e tirei duas coisas. A primeira foi seu domínio do corpo, a total consciência de cada músculo e de cada movimento, como se fosse uma máquina azeitada, uma engrenagem complexa onde tudo funciona. Impressionante! A segunda, foi em relação a qualidade dos músicos, a capacidade de um instrumento retorcer meu estômago. No fundo, essas duas coisas me falam de uma só, da possibilidade de expressão sem palavras.

Tinha muita vontade de dominar uma linguagem que não necessitasse palavras. De certa forma, faço isso com a arte, mas queria mais, ainda acho meu alcance muito pequeno. Acredito que com o corpo, como no caso da dança, e com a música, essa comunicação é mais direta e universal.

Quando vejo alguém que possui esse talento da expressão corporal, tenho vontade de chorar de tão forte que me bate. E não é incomum que eu veja cores ao escutar um instrumento que me emocione.

Queria muito ter esse poder.

Não é à toa que nosso amigo dançarino flamenco estava tão creído, ele conhece o poder que tem. Tudo bem que a arrogância canibaliza esse dom, mas que se dane, quando ele dança é poderoso e se acabou! Não há discussão.
102 – Começar de novo...

Eu e minha boca grande! A gente precisa ter muito cuidado com o que deseja! Porque acontece!

Não estava falando tanto sobre começar um ciclo novo, de novos olhares e tal? Pois é, então não seja por isso, lá vamos nós começar outra vez!

Alugamos esse nosso apartamento por um ano, acho que contei isso lá atrás. A verdade é que naquele momento um ano nos parecia uma vida, mas passou num piscar de olhos.

Havia a possibilidade da dona do apartamento precisar morar fora de Madri e, automaticamente, renovaríamos o contrato, bom para ela e para nós. Claro que isso não aconteceu, o quer dizer que lá vamos nós, os caracóis alucinados, com a casa nas costas de novo!

Enfim, recebemos a notícia com um certo desânimo. Dá cansaço só de imaginar a trabalheira. Olho para meu gato com aquela cara de Garfield e o imagino dizer “joder!”.
Mas como diz o ditado, o que não tem remédio...

Uma coisa está mais fácil, minha noção de espaço mudou e consegui me acostumar a lugares menores. Os apartamentos mais centrais na Europa são sempre muito pequenos e no início dava cabeçadas pela casa. Agora acho até grande. Engraçado que temos poucos armários e minhas coisas que pareciam poucas quando saímos do Brasil, ou melhor, o mínimo que poderia trazer, aqui me parecem um exagero. Chego ao absurdo de gostar quando quebra um copo porque rapidamente associo a mais espaço no armário ou menos coisa para carregar!

Iniciamos a busca, que não é nada fácil, mas temos um certo know-how e estamos tentando nos animar. Quem sabe ainda vamos para um lugar melhor, não? Um ano depois, estamos nós novamente caminhando pelas ruas e procurando placas de “alquiller” pelas portarias dos edifícios.

Hoje, voltando para casa, percebi o quanto a rua onde moramos se tornou familiar. Sei a ordem das lojas e os cheiros quando passo na frente delas; conheço boa parte dos cachorros que passeiam pelas calçadas; reconheço os dois pedintes cativos da rua, uma senhora que se veste sempre de preto e um senhor com uma deficiência em um dos pés que desaparece no inverno; sei em que parte o asfalto está quebrado e preciso me cuidar para não torcer o pé; passo sempre rindo na frente da loja onde compramos o sofá-cama, aquele que viemos carregando na cabeça até o apartamento; sei como a rua fica arborizada e também quando as folhas caem; sei qual o caixa eletrônico onde não pago taxa de administração; sei onde é melhor pegar taxi e para que lado devo ir; sei onde comprar flores e onde encontro o “champú en seco” mais barato; sei um monte de coisas. Talvez seja a hora de saber outro lugar.

101 – Espabila Favila que te come el oso!

Há uma expressão em espanhol que acho sensacional: espabila Favila que te come el oso! Explicando por partes, “espabilar” é algo como prestar atenção, ficar atento; “Favila” é um nome próprio; e “que te come el oso” é que te come o urso. Ou seja, fica esperto Favila senão o urso te come! Na versão tupiniquim, “dá mole que jacaré abraça”!

O mais engraçado dessa expressão é sua origem. Por volta do ano 600, houve um rei godo, o tal do Favila, assassinado em seu próprio castelo. A versão oficial é que um urso havia comido o rei (dentro do castelo!). Percebe-se que a cara-de-pau política não é nada atual.

Como às vezes a expressão fica um pouco grande, também se escuta a versão resumida “espabila Favila...”; ou com uma voz mais grave e um olhar de canto o “espabilate”, que soa como “espabilatêêê”. E com sotaque do sul, sai algo como “rpabilatê”.

Fico doida para falar isso para alguém, mas ainda não consegui encaixar em nenhuma frase com segurança. O jeito é quando encontro uma pessoa-rolha imaginar que estou falando para ela “espabilatêêê” e sonhar que ela vai dizer “perdón” e sair da minha frente. Bom, nunca acontece, mas pelo menos não fico de mau humor atrás das rolhas.

A primeira vez que escutei isso foi com um casal de amigos espanhóis muito legais. É que fizemos uma festinha aqui em casa e eles não puderam vir. Daí se ofereceram para, no fim de semana seguinte, nos levar a qualquer lugar que quiséssemos conhecer em um raio de 200km de Madri. Fomos até Almagro, parando um pouco pelo caminho. Lá em Almagro, alguém ficou de bobeira na frente dele com o carro e ele soltou o tal do “espabila Favila que te come el oso”. E eu, o que? Estava acostumada ao “me cago en la leche”, mas essa era novidade para mim!

Ele me explicou a historinha que achei genial e, desde então, tento falar também, mas nunca tenho uma chance. Então, só para matar a vontade, vai escrevendo mesmo:

¡Espabila Fabila que te come el oso!

100 – A número 100!

Caramba, e chegou a crônica número 100!

Se ainda não falei, deu para perceber que adoro símbolos e rituais. Minha vida é dividida em ciclos, mais longos ou mais curtos, que preciso terminar e começar outro novo.

Para alguns amigos já contei como iniciou essa história de escrever crônicas, mas agora com essa vida “pública”, conto para todos. Comecei escrevendo para mim mesma como um registro do que acontecia em Madri, que na realidade era pano de fundo para uma maneira de olhar as coisas. Era quase como um diário. Daí Luiz ficou curioso e pediu para ler. Deixei meio sem graça, apesar de não haver nenhum segredo. Ele gostou tanto que me incentivou a publicar um blog. Quase morri de vergonha, pois sempre foi muito difícil me expor, mas topei até porque era difícil. Na minha cabeça, como preciso de um limite, pensava, vou tentar chegar na número 100. E aqui estamos, nem acredito!

Achava que quando chegasse esse momento teria cumprido minha missão, mas a verdade é que estou totalmente viciada e não sei mais não escrever. O grau de constrangimento que sentia no início é proporcional à delícia de possuir um canal de expressão. Poder compartilhar experiências é tudo de bom.

Porém, preciso fechar um ciclo e iniciar outro, é a minha natureza. E por um acaso feliz, hoje inicio outro ciclo na minha vida.

Hoje foi o primeiro dia do meu master em arte contemporânea, equivale a uma pós-graduação no Brasil. Cerca de quinze anos após a Academia, volto para faculdade. Outra área, outro país e a mesma ansiedade. É como entrar na montanha-russa, naquela sensação de segundos antes de iniciar o trajeto. Estou lá porque quero, mas sempre nesse momento me pergunto se deveria estar ali.

Pois sim, deveria.

Estamos onde deveríamos e nos cabe a responsabilidade de fazer isso valer a pena.

Hoje muitas idéias contraditórias passaram pela minha cabeça. Por um lado, estava aliviada de finalmente me sentir começando algo, tendo um plano de gente normal. Por outro, me sentia presa, é difícil para mim pensar no prazo de um ano. Aprendi a sobreviver no caos e é nesse caos que me diferencio. Tive a alegria de perceber a oportunidade de concretizar projetos e ao mesmo tempo o medo de precisar confrontar minha própria incompetência. Por que ainda é tão difícil crescer?

Termino com meu mantra de cabeceira, que me resgata dos momentos de angústia não necessariamente maus. É meu grito de guerra, meu amuleto para recomeçar: “Se eu me demorar demais olhando Paysage aux oiseaux jaunes, de Klee, nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho. A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos. Então reconheço que a liberdade é só para muito poucos. De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Pois sei que minha coragem é possível. Começo então a pensar que entre os loucos há os que não são loucos. É que a possibilidade, que é verdadeiramente realizada, não é para ser entendida. E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo; Paysage aux oiseaux jaunes não pede. Pelo menos calculo o que seria a liberdade. E é isso que torna intolerável a segurança das grades; o conforto dessa prisão me bate na cara. Tudo que eu tenho aguentado – só para não ser livre…” (livro “Para não esquecer” de Clarice Lispector)

99 – O dia da forra

Após um carnaval aburrido e um bico de dois palmos e meio por uns três dias, no fim de semana seguinte veio a forra. A verdade é que nem foi tão mal assim, acho que é mais a questão psicológica de saber que era carnaval. Em qualquer outro fim de semana teria ficado super feliz, pois chegaram amigos do Brasil, tivemos gente em casa, encontramos amigos aqui... Enfim, mas quando imaginava que do outro lado do mundo pipocavam trios elétricos, só gastando toda minha energia para me satisfazer. E adianto, isso não é tarefa fácil!

Acabou que tive uma semana super cheia, encontrei com duas amigas do tempo de colégio, uma veio com o marido de férias e a outra fica por um ano e estudaremos juntas. Foi divertido e chegou na sexta-feira eu já estava de bom humor outra vez.

O curioso é que como agora minha vida é literalmente um livro aberto, todo mundo sabia que tinha ficado emburrada no fim de semana passado. Isso é engraçado porque as pessoas se procuram nas coisas que escrevo e ainda não sei lidar com isso. Para mim são dois mundos diferentes, mas um dia me acostumo.

E como ia dizendo, na sexta-feira, no pique madrileño, nos liga uma amiga chamando para sair, o irmão dela estava visitando. Fomos nós quatro para o Lateral, um bar modernoso, com tapas super criativas e um bom preço. Para variar, também fica perto de casa. Ali encontramos mais dois amigos e batemos papo até dar a hora de poder ir para uma boite. É que antes de uma da manhã estão todas vazias.

Fomos para a Posada de las Ánimas, onde já praticamente batemos cartãozinho na porta. Mas para falar a verdade, nesse dia impliquei com o DJ. Sei lá, para mim ele não estava acertando a mão. Os dois amigos que nos encontraram no Lateral foram para outra boite e nós quatro insistimos um pouco mais para ver se melhorava.

Por volta das duas da manhã, resolvemos tentar a próxima parada. Fomos para uma boite chamada El Junco, indicada por um casal de amigos brasileiros que nos encontraria lá mais tarde, com outros amigos. Entrei meio desconfiada, mas em pouco tempo já estava amarradona! Muito bom lugar, super despojado, informal e boa música.

Adoro essa coisa de Madri da noite ir acontecendo. Você não vai para um bar e ponto, esse é só o começo. Ali você encontra uns amigos, depois vai para outro lugar e encontra outros, às vezes os lugares são modernos, às vezes super tradicionais... e quando nos demos conta eram quase seis da manhã. Casa cheia e todo mundo dançando!

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas realmente bateu uma fome desesperadora! Daí nos deparamos com o seguinte problema, não há em Madri uma lanchonete que venda hamburguer às 6 da matina. O máximo que você consegue são churros com chocolate quente. Acontece que não queria churros, queria um super hamburguer gigante, com muito queijo e bacon! Aquele do Bloomings de São Paulo que a gente sempre comia depois de qualquer festa. Fazia parte do ritual.

Cheios de esperança e uma fome do cão, partimos nós e um casal de amigos em busca do hamburguer perdido! Por sorte, como já passavam das seis, o metrô havia aberto e tivemos condução para voltar para casa. No caminho, Luiz lembrou de uma possível padaria 24 horas que me soou muito estranho, mas o desejo carnívoro não me deixava pensar direito. Saltamos perto de casa e caminhamos nos arrastando mais umas cinco quadras atrás da tal padaria, que obviamente estava fechada.

E para achar um taxi para voltar? Porque andar ninguém aguentava mais. Sentamos em um ponto de ônibus para ver o que passava primeiro com rodas para nos levar, quando avistamos um mercadinho com as luzes acesas.

Nos dirigimos ao mercado salivando por haver algo quente para comer. Claro que não havia. Porém, a nossa salvação estava na geladeira. Eles vendiam sanduíches plastificados e havia cheeseburguer! Não tinha grandes expectativas quanto ao sabor do dito cujo, mas pelo menos tinha cara de hamburguer e já era alguma coisa.

Em casa, após tomar um banho rápido e incinerar a roupa que fedia a cigarro, fui para cozinha esquentar nossos hamburgueres. Nunca comi um hamburguer tão ruim com tanta vontade. O jeito foi encher de mostarda para ter gosto de alguma coisa. Mas a verdade é que quebrou o maior galho!

No dia seguinte, ou melhor, no mesmo dia, assim que acordamos fomos direto tomar nosso café da manhã... no Burguer King, é claro! Comi um cheesebacon duplo e Luiz comeu dois!
No comecinho da noite, fomos com o mesmo casal de amigos do hamburguer no La Daniela fazer um programinha light. Todos morrendo de sono. Voltamos para casa cedo e dessa vez sem a menor reclamação da minha parte. Estava acabada, mas feliz da vida.

98 – As tribos madrileñas

Desde que o mundo é mundo o homem se classifica. Essas classes sociais mudam de nomes, entretanto os conceitos se perpetuam e se alternam de lados, demonstrando uma necessidade de categorização que me perturba, mas parece inevitável.

Madri não poderia ser diferente, aqui também temos as divisões. Sei que é quase uma heresia uma brasileira falar das diferenças sociais na Europa, o Brasil é um rei em discrepâncias nesse sentido, sei olhar para meu umbigo, mas não uso uma bitola e, infelizmente, noto que isso também existe aqui. Talvez em um nível mais horizontal, não só em função de dinheiro, e não tão vertiginosamente vertical como o nosso, mas está presente.

Existe a burguesia, a população mais abastada, chamada coloquialmente de pijos. Os pijos usam roupas de marca e falam com muita freqüência o termo “o sea” (ou seja). Pelo menos, esse é o estereótipo do burguês, sua caricatura, que muitas vezes me parece uma bela dor-de-cotovelo de quem não chegou lá. Sabe essa deformação católica da impossibilidade do rico entrar no reino dos céus? Algo assim. Óbvio que também há os superficiais, mas de modo geral, não conheço ninguém que tenha dinheiro que não trabalhe muito por ele. Sei que existe, mas não convivo nem aqui nem no Brasil.

Tem os alternativos, que aqui não possuem uma nomenclatura específica, mas se dizem majos (descolados, gente legal). Também usam marcas da mesma forma, mas outros tipos de marca, lógico, as marcas majas. Passam horas se produzindo para parecerem informais e gastam uma enorme energia em desenvolver um estilo próprio para parecerem que não se preocupam com estilos. Existe uma obrigação de serem, ou ao menos parecerem, mais inteligentes, como se um tipo de óculos aumentasse o número de neurônios. É verdade que na noite, onde todos os gatos são pardos, eles são ou se parecem realmente majos.

Há os imigrantes, com subdivisões de categorias: os com dinheiro e os ferrados. Os com dinheiro, podem ser de qualquer cor e falar com sotaque, pois normalmente são bem tratados. Na pior das hipóteses, são confundidos com turistas. Podem inclusive ser majos ou pijos. Não digo que seja uma vida fácil, porque nunca é, mas definitivamente é muito melhor que o segundo grupo. Os ferrados costumam ser ilegais no país, ou foram em algum momento. Esses últimos possuem outra divisão: os negros, os do leste europeu, os sul americanos (os sudakas, essa terminação em “aka” é pejorativa aqui), os orientais (os chinos, não importa se são chineses, japoneses, vietnamitas... tem olho puxado é chino) e os que se misturam à população por seu tipo físico. A última categoria tem um pouco de sorte, o resto, como denominei duramente, se ferram, comem muita grama até possuírem uma qualidade de vida razoável, quando conseguem.

Ainda na categoria imigrante, há os marroquinos e os ciganos. Acho que são os que mais tem problemas, seguidos pelos negros africanos. Os ciganos, não sei se podemos considerar exatamente como imigrantes, mas assim são vistos. A verdade é que a cultura é muito diferente e há um choque horroroso para se acomodarem. Adicionando-se a isso o estado de pobreza, é muito comum se dedicarem a atividades ilegais, o que aumenta o preconceito, pois de uma maneira maluca acaba justificando a má fama. É um círculo vicioso.

Os sudakas, mesmo não sendo tão bem tratados, de certa forma, não são mal vistos. É considerada uma imigração positiva, pois exerce as funções que o espanhol não quer fazer. Os brasileiros, apesar de serem sul americanos, são vistos meio que em separado das outras nacionalidades, talvez pelo idioma. As mulheres brasileiras, assim como as do leste europeu, levam fama de prostitutas, mas no resto não vejo ainda um preconceito grande. As músicas são muito bem recebidas, as pessoas são consideradas animadas e amáveis e amam os jogadores de futebol.

Bom, também há os pobres espanhóis, que acabam se ferrando tanto quanto os imigrantes. Não é incomum observar depois de certa hora da noite, pessoas com boa aparência revirando as latas de lixo que ficam nas calçadas. Normalmente, são provenientes de algum pueblo (cidades pequenas do interior, povoados, vilarejos) e estão na capital tentando melhorar a vida.

Há os turistas, que aqui, por seu volume, acredito possuírem também um status de classe social. São espanhóis ou estrangeiros e normalmente se concentram pelo centro da cidade. Quase nenhum turista gosta de assumir que é turista, pois isso costuma ser sinônimo de trouxa em qualquer lugar do mundo. O centro da cidade também é freqüentado por madrileños, mas que detestam admitir, pois afinal de contas, não são turistas e, mesmo que os lugares sejam bons, isso não soaria muito majo.

Ainda há os mayores (pessoas mais velhas). As mulheres sempre vestem saias, normalmente negras e na canela e os homens vestem terno. São muito conservadores e tem o costume de passear de braços dados pela rua, sempre nos mesmos lugares.

Que tenha percebido até agora, esses são os principais grupos de gente que observo nas ruas madrileñas. Não tenho nenhuma base científica, é pura observação pessoal. Além do mais, dentro de cada tribo, sempre há gente boa ou não. Dou sorte em conhecer pessoas e costumo conhecer as legais.

Assim como no Brasil, gosto de navegar por diferentes tribos, apesar de não me sentir parte de nenhuma delas e não é que não queira, é que não sei mesmo. Não gosto da idéia de rótulos, até a palavra já se desgastou. Mas entendo e acho importante observar as diferenças. Diferenças sempre vão existir e o poder costuma estar exatamente nelas. Acho importante reconhecê-las, mas mais importante ainda respeitá-las.

Ainda dentro dessa temática de diferenças entre tribos, tive uma experiência bizarra quando mudei de vida profissional. Mantive meus amigos executivos e ganhei novos amigos artistas, boêmios, enfim, alternativos. Na minha opção pela mudança, me preparei para não ser compreendida por meus amigos “homens e mulheres de negócio”, mas a verdade é que isso nunca aconteceu. Todos estavam abertos e foram grandes incentivadores, talvez por serem meus amigos. Alguns podiam nem entender bem, mas aceitaram com curiosidade e boa vontade. Chamo isso de respeito. Por outro lado, sinto uma certa dificuldade em que meus amigos “alternativos” naveguem com facilidade em outros mundos. Claro que não estou falando de todos nem que sejam assim todo tempo, felizmente, mas sinto muitas vezes um preconceito maior e uma atitude defensiva em entenderem e desfrutarem outras formas de vida. Sinto constantemente um ar de deboche que não entendo bem se é sinal de visão ou de despeito, talvez um pouco dos dois. Acho triste imaginar cabeças que teoricamente tem por missão estar a frente dos tempos, tantas vezes estejam tão fechadas em seu próprio microcosmo. Minha esperança é o fato de ser comum precisarmos negar algo para entendê-lo com profundidade. Espero um dia chegar a certeza de que não somos tão diferentes e originais quanto pensávamos e conseguir aprender a simplificar a vida.

Sinceramente, não sei o que sou. Acho que sou um pouco pija porque posso e aproveito os prazeres da vida, gosto de ser feliz, de ver gente bonita, de comer bem, de degustar vinhos e de vestir as roupas que me valorizam. Sou um pouco alternativa, porque de todos esses prazeres sei diferenciar os que gosto dos que preciso. Depois de mudar tanto, serei sempre imigrante, dentro ou fora do meu país e hoje posso também dizer que sou um pouco madrileña, porque aprendi a respeitar as diferenças dessa cidade e, assim mesmo, continuar apaixonada por ela. E cada dia fico mayor, não quero usar as saias negras longas, mas quero passear pela rua de braços dados. Claro que também possuo os defeitos, mas isso eu é que não vou apontar, muito menos classificar.
...Oh, sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que não acredito mais em você... eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus, e não me importa, e não me importa não, oh, minha honey baby...

97 – O Reino Encantado de Andorra

Tiramos férias e fomos passar uma semana em Andorra, um micro país, de 468 Km2, encravado entre Espanha e França. A principal atividade é o turismo e possui excelentes estações de esqui, motivo pelo qual viajamos para lá.

Para dizer a verdade, assumindo minha ignorância, não me lembrava de haver ouvido nada sobre Andorra antes, mas o nome me soou como um mundo de contos de fadas, algo do tipo: o reino encantado de Andorra, onde a bruxa malvada mantinha a princesa encarcerada em uma torre de pedras.

Pois fui eu, a princesa guerreira sin ganas de esquiar, Luiz, meu príncipe encantado caçador de dragões de gelo, e Jack, nosso fiel e feroz leão escudeiro. Seguimos em nossa carruagem alugada, puxada por 120 cavalos, em 6 horas de viagem desde Madri.

É claro que logo no primeiro dia minha elegância magistral foi para o saco e, com aquela quantidade de roupa isolante em camadas, me transformei rapidamente em uma plebéia desengonçada.

Isso sem falar das botas de esqui. Francamente, aquilo é um instrumento de torturas criado pelo pior dos demônios da neve! E a gente usa de propósito, nenhum Highlander me pôs uma espada no pescoço me obrigando! Eu devo ser masoquista... Aquela porcaria faz a gente andar de um jeito esquisito. A primeira vista, todas aquelas pessoas, caminhando rígidas e em cadência, me parecem soldados de armaduras gordas e impermeáveis, marchando para a guerra do frio.

Mas as coisas mudam quando nos encaixamos nos esquis. A postura melhora, nos distraímos da dor e a adrenalina esquenta o corpo. Aí fica todo mundo com a maior pinta de marrento! Todos se achando e eu inclusive.

Engraçado como sou uma pessoa quando vou e outra quando volto da pista. Esquiar para mim é difícil começando na preparação para sair de casa. Detesto aquele monte de roupa! Sinto-me totalmente claustrofóbica e os sapatos de neve me machucam. Vou andando no maior mau humor até a estação para a subida do bondinho. Saio carregando o equipamento com aquele jeito de mulher fresca que não sabe carregar nem uma sacola, que dirá um par de esquis, botas etc. Na boa, pareço uma auxiliar de astronauta e das incompetentes!

Daí vou subindo naquele maldito bondinho que balança e é alto para cacete! Cassilda, tenho vertigem! Quando chego no alto da montanha estou completamente mareada. Mas é só o começo, porque logo em seguida preciso colocar as malfadadas botas, que só estão no ponto quando você as aperta tanto que para piscar os olhos precisa alternar com o movimento da respiração. Decide, ou pisca ou respira! Ninguém merece! E quando estou no topo da montanha, totalmente equipada, minha cabeça diz “desce” e minhas pernas dizem “nem fodendo marquinho”.

Ainda por cima, Luiz esquia muito melhor que eu, acho uma sacanagem! Ele podia pelo menos fingir que é um pouco difícil por uma questão de cavalherismo! Pior, só mesmo aquelas criancinhas de bochechas vermelhas que nem sabem caminhar direito, mas passam por você zunindo de tão rápido! É muita humilhação! Isso acorda meu lado escuro da força e tenho vontade de por meu pé na frente para elas tropeçarem. Talvez por isso que elas sejam tão velozes.

Mas uma hora minha vertigem começa a se acalmar, vou me aclimatando. Em um ato de fé, decido encarar a bruxa malvada de Andorra. Descubro que não é tão poderosa, apesar de ser prudente lhe ter respeito. E a verdade é que quando consigo relaxar, aproveitar as curvas e tomar um pouco de velocidade, finalmente, me liberto da torre de pedras e também sou capaz de encarar os dragões de gelo.

Na volta para o hotel, a mudança é óbvia. Não sinto mais a vertigem no bondinho e desfruto a paisagem. Ando com mais confiança e com pinta de atleta radical, quem vê até pensa! Os esquis já vão apoiados nos ombros e depois de produzir litros de endorfina nem sinto o peso da mochila. Dessa vez me atrevi a usar aqueles óculos espelhados de mosca espacial, afinal de contas, atitude é importante!

Chegando ao quarto, tudo que quero é um banho de banheira, o maior luxo do mundo. Aliás, se um dia alguém fizer um ranking dos maiores luxos do mundo, empatarão no primeiro lugar café da manhã na cama e banho de banheira. O resto é só exibição! Com isso, volto a me sentir princesa.

Bom, pelo menos até levantar da banheira e descobrir que todos meus músculos continuam doendo e tenho ematomas nos pés e canelas. Mas afinal de contas, uma princesa guerreira deve assumir que suas cicatrizes são troféus, certo?

96 – Menos um carnaval

Sempre fui louca por carnaval! Adoro as festas, a animação, as fantasias... tudo! Sei que muitas vezes também saem brigas e confusões, mas a verdade é que essa parte pior nunca chegou em mim.
Gosto da sua preparação, dos ensaios de blocos, da ilusão do pecado permitido, do clima que traz aos lugares que o celebram, das escolas de samba e da Portela que infelizmente não é mais a mesma.
Achava que celebraria todos os anos até ficar velhinha. Claro que sem o mesmo preparo físico teria que sambar como turista americana, levantando os dois indicadores para cima.
Luiz não gosta de carnaval, o que gera uma total insatisfação uma vez ao ano. No início, tínhamos um trato de comemorar um e descansar outro, mas isso nunca foi cumprido. De doze anos de casada, só tive um carnaval decente, mesmo assim, porque comprei as passagens “no susto” e fomos para Salvador.
Nos outros carnavais, sempre sofri acompanhando pela televisão a animação das pessoas nas festas por todo Brasil. Até que, desde o ano passado, desisti de saber o que acontece pelo mundo, não leio as reportagens na internet e foi um alívio não ter um canal de TV brasileiro.
Mesmo assim, descobri que na Espanha também se comemorava o carnaval, coisa que me animou um pouco e me fez pensar que, quem sabe, esse ano quebraria meu jejum.
Viajamos na semana anterior e fiz um esforço para chegar em Madri antes do sábado de carnaval, tudo bem que fosse um dia só, mas já valeria alguma coisa.
Começamos bem. Fizemos uma festa de aquecimento em casa para nos prepararmos para a noite que começou cedo. Até aí, por mim ia tudo as maravilhas, com amigos legais e tomando minha cachacinha envelhecida em barril de carvalho. De casa fomos para uma festa de carnaval brasileira, que não estava muito cheia nem tão animada, mas que por mim estava ótima! Infelizmente, nem todos pensavam assim. Meu carnaval que já havia se reduzido a um dia, se resumiu a uma hora, porque dali fomos para outro lugar.
Por mim, também sem problemas, não me importava onde estivesse e sim que era sábado de carnaval. Podia dançar música brasileira, espanhola, grega, do cafundó do judas... dane-se, queria meu dia de direito.
Pois com mais uma hora na outra boite, nada de ninguém se animar a ir para pista e Luiz com sua boa vontade peculiar de carnaval começou a dançar comigo bocejando. Francamente, isso me irritou!
Decidi voltar para casa e amargar mais um ano. Vai passar. Voltamos a pé na chuva e nos graus negativos. Me recusei a pegar taxi, não queria ser educada com ninguém. Nem me incomodou a água, não vi a neve, nem senti o frio, só lembrava que mais um carnaval decia pelo ralo.

Assim como minha Portela, também não sou mais a mesma.

95 – A Tal da Higiene

Sou completamente neurótica por limpeza! Não quero dizer que só sou limpinha, estou falando de neurose mesmo. Fico no limite dos obsessivos compulsivos, apesar de estar bem melhor agora do que quando era mais jovem. Em função dessa obsessão, preciso lavar minhas mãos mais vezes que uma pessoa normal, lavar toda a comida que entra na geladeira, desinfetar o chão com água sanitária, contar as coisas na rua até darem múltiplos de dez, apertar meus dedos ou beliscar a palma da minha mão... coisas assim, rotinas que trazem segurança. Mas não é tão ruim, porque como também tenho deficiência de atenção, podemos dizer que tenho loucuras complementares. Bom, não chego a um grau que me provoque problemas ou me dificulte a vida, na verdade, a consciência dessas tendências me ajudou a tirar proveito delas. E convenhamos, nem fui eu quem disse, mas concordo que “de perto ninguém é normal”. Porém vamos falar de uma loucura por vez e hoje vou contar da minha obsessão por limpeza e como Madri me tem feito melhorar.

Voltando um pouco no tempo, minha mãe conta uma história que meu irmão quando era pequeno vivia adoecendo e, por conta disso, cada vez mais ela o protegia, o que não adiantava. Até que um dia o pediatra informou que faltava a ele a famosa vitamina “S”, de sujeira! Faltava a ele anticorpos. A partir disso, ela passou a expô-lo mais. Claro que no início ele adoecia, mas foi recuperando sua resistência aos poucos.

Hoje em dia, cada vez que preciso me expor a uma situação, digamos menos higiênica, fico concentrada dizendo a mim mesma, é vitamina S, é vitamina S...

Minha primeira melhora significativa devo aos meus gatos e a arte. Nos dois casos, me fazia impossível lavar as mãos a todo momento, além de associar essa “sujeira” a coisas que gostava.

Agora, mudar para a Europa, desconfio que me curou!

Vamos começar pelo pão. Que raios de relação de amor e ódio é essa que o europeu tem com o pão? Acho que as mães batem nos seus filhos pequenos com pedaços de pão e depois os oferecem como refeição! Sei lá, algo como Pavlov. Foi a única explicação razoável que encontrei! O europeu precisa fazer o pão sofrer antes de comer, ele precisa arrastá-lo no chão, caminhar com ele embaixo do sovaco, deixar pegar poeira, manusear bastante, e só aí, o pão merece o direito de ser comido! Aqui ele ainda é vendido em sacolinhas, que deixam a metade do pão do lado de fora, mas pior mesmo é na França, onde vem com um pedacinho papel em volta que só cabem três dedos para segurá-lo.

Logo que mudei para cá, não conseguia comer pão. Era impossível não imaginar a tragetória do pobre antes de chegar a minha boca. Hoje, quando estou em restaurantes e não resisto ao cheiro do pão quente invadindo meu nariz, penso: bom, se está quente, os micróbios morreram queimados! Vitamina S... vitamina S...

Além disso, pensando bem, se depois eu tomar vinho, o álcool desinfeta o estômago, certo?

E andar de metrô? Aquele negócio de pegar nas barras de apoio que todo mundo põe a mão? Putz, no começo sofria! Luiz me deu a idéia de andar com lencinhos higiênicos na bolsa. Não posso dizer que não fiquei absolutamente tentada, mas já era paranóica o suficiente e resolvi lidar com a questão de maneira madura. Ou seja, maduramente aprendi a me equilibrar sem tocar em nada!

Mas só percebi mesmo que estava praticamente curada da última vez que fui comprar frios para lanchar. Primeiro porque o jamón que comprei estava pendurado sem nenhuma proteção de embalagem, segundo porque aquela historinha de cortar os frios com luvinhas aqui não existe! É na munheca mesmo. Era o indivíduo pegando com seus dedinhos cada uma das fatias do meu presunto e eu respirando fundo e pensando, vitamina S... vitamina S... conta os presuntos pendurados até darem múltiplos de dez...

Bom, não disse que estava assim totalmente curada, mas quer saber, em outros tempos, teria jogado tudo fora quando chegasse em casa. E acredite se quiser, comi e achei foi bom! A propósito, comi com pão. Vai ver os anticorpos também nos ajudem a diminuir o senso crítico e essa tal da higiene!

94 – Agridoce, ao meu avô

Meu avô está com 88 anos. A idade vem demonstrando sinais evidentes, mas ainda é um homem muito lúcido. Depois que minha avó faleceu, trocou seu apartamento por uma caderneta de poupança e seu carro por uma mala zero quilômetros. Passou a se revezar entre a casa do meu pai e da minha tia. Fica mais tempo na casa da minha tia. Hoje minha mãe me contou que estava um pouco anêmico e desanimado. Depois disso, foi impossível não pensar nele o dia todo.

Meu avô é um dos homens mais inteligentes que conheci, inteligência que herdou meu pai. A diferença é que meu avô teve pouca instrução formal e, mesmo assim, era capaz de discutir profundamente da troca de um pneu ao funcionamento de um submarino nuclear. Nunca encontrei um assunto do qual ele não soubesse conversar.

Entretanto, às vezes me parecia que era duas pessoas. Uma com a família, que incluía minha avó, seus filhos e nós, os netos; outra com todos os demais. Um homem acre e bravo com as pessoas em geral, mas um avô fabuloso! Nunca teve muitos nem grandes amigos. Sempre foi de um temperamento muito difícil para se relacionar e nunca se esforçou para modificar isso. Não conheço a fundo seu passado, mas posso imaginar que sua vida jovem foi dura e amarga e, talvez sua inteligência, o fez perder a fé nas pessoas. A sensação que tinha é que ele não confiava em quase ninguém e fazia questão de demonstrar que também não gostava de quase ninguém.

Acontece que sou neta e sempre fiz parte do seleto grupo a quem ele confiou e mostrou seu melhor lado. O homem que para os demais era emburrado e sério, era o mesmo homem que me buscava no aeroporto me fazendo cócegas e dizendo “pode morder, pode beijar, pode apertar”...

Nas férias na sua casa não achava tão ruim acordar de manhã, pois sabia que na mesa do cáfe encontraria me esperando cabaninhas de índio esculpidas na ponta do pão francês e brincadeiras que faziam minha imaginação navegar solta. Depois me levava na pracinha para andar de pônei, brincar no parque e tomar “chicabon”. E mais tarde, quando queria dar sua cochilada, me enfiava junto na cama e pedia que me contasse a história da cegonha mentirosa por tantas vezes que só um avô poderia contar. É claro que quem dormia ao fim da história era ele.

Também era ele quem nos levava ao Tivoli Parque da Lagoa e para andar no trenzinho de Cabo Frio, centenas de vezes! No parque, era quem tinha coragem e paciência de ir conosco na montanha-russa e no twist, brinquedos que adorava, mas não tinha idade para ir só.

Meu avô construía brinquedos e jogos muito melhores do que os vendidos nas lojas. Acho que eram melhores porque víamos como eram feitos e participávamos da execução. Tinha ferramentas para tudo e sabia consertar tudo. Também nos levava para pescar com ele na única idade em que pescar me parecia uma aventura. Ele tinha uma forma diferente de se comunicar conosco e a gente se entendia sem muitas palavras. E para quem conhece meu trabalho e é um pouco observador, hoje também conhece um dos meus mistérios.

O tempo passou e quase casei aos 19 anos, desisti na última hora. Foi a decisão mais difícil que tive que tomar até aquele dia e sofri muito. Minha família me apoiou e sei que foi quando resgatamos nosso passado, mas hoje estou falando do meu avô. E meu avô foi a única pessoa que nunca me perguntou o porquê, não me perguntou absolutamente nada, não me disse o que achava antes nem depois. Quando me recebeu, pegou minha mala e foi até o carro com a mão no meu ombro, me abrançando. Tive cinco anos outra vez, deixei para trás quilos de culpa e poucas vezes me lembro de ter sido tratada com tanto respeito. No silêncio da nossa língua de avô e neta talvez ele, que havia me contado tantas vezes a história da cegonha mentirosa, entendesse melhor que naquele momento eu não podia mentir. Acho que a única coisa que me disse foi que minha avó havia caprichado no almoço, preparado bife acebolado com uma mandioca frita crocante. Havia três dias que eu não conseguia comer, nada sólido passava pela minha garganta, mas naquele dia almocei.

Agora gostaria de animá-lo e estou longe para sentar muda do seu lado e colocar a mão no seu ombro. Ligar e falar coisas melosas não é nossa língua nem nosso estilo. Não sei se conseguirei receber sua visita novamente, é um pouco complicado agora mais velho. Quem deve fazer o caminho sou eu.

Fico um pouco curiosa para saber se com a idade ele recuperou sua fé nas pessoas ou se a perdeu de vez e, também por uma questão de respeito, nunca vou perguntar. Mas posso dizer que por seu exemplo quem ganhou fé nas pessoas fui eu. Aprender a reconhecer o lado bom e sincero do outro é muita coisa.

93 – ARCO 2006

Hoje fui na ARCO, uma feira internacional de arte contemporânea, realizada em Madri e que esse ano completa 25 anos de vida. Essa de 2006 foi composta por 280 galerias (191 estrangeiras e 89 espanholas), entre 33 países e contou com mais de 3 mil artistas. Ou seja, foi uma mostra mundial importante da arte de vanguarda. A propósito, incluiu galerias e artistas brasileiros.

Para mim, que sou artista plástica, absolutamente enlouquecida por arte contemporânea, foi um festival de estímulos. Muita informação e gente boa.

Sendo muito sincera, andava um pouco decepcionada com a arte na espanha. Não a arte clássica, que é muito rica, mas a arte contemporânea me pareceu muito conservadora e com uma tendência tão grande à pintura que me incomodou. Provavelmente, em Barcelona isso se altere um pouco, mas em Madri, esperava mais.

Na minha réles opinião, a arte contemporânea brasileira está anos luz na frente! Pelo menos em São Paulo, não necessariamente com artistas paulistas, mas é inegável que havia uma concentração de arte de excelente qualidade ali.

Entretanto, essa feira me reacendeu as esperanças. É verdade que incluía muitos outros países, mas também gostei bastante do que dizia respeito à Espanha. Boa notícia!

E porque não dizer que fiquei muito orgulhosa da representação dos meus conterrâneos. O Brasil estava muito bem representado por suas galerias, além de artistas brasileiros que também faziam parte do acervo de galerias de outras nacionalidades.

Caramba! Vai ser difícil dormir! Nem fome durante o dia eu tive. Muitas imagens e pensamentos gritando na minha cabeça! Mas é tão bom...

92 – A Festa Brasileira

Desde que saímos do Brasil, Luiz e eu adotamos uma política de não buscar exclusivamente amigos brasileiros. Isso não quer dizer que a gente não goste de encontrá-los, pelo contrário, mas conhecemos gente nos Estados Unidos, por exemplo, que nem falava inglês. Simplesmente, optou por se isolar da cultura local e fingir que continuava no Brasil. Como uma negação. Dessa postura não gosto, respeito, mas não quero. Acho muito mais interessante se integrar, ou pelo menos se esforçar para conhecer a cultura do lugar que a gente vive, não perco nada, só adiciono. Sempre parto do princípio que se procurarmos as qualidades encontraremos e se procurarmos os problemas, também encontraremos. Então, se um problema cair na minha cabeça, não posso fazer nada a não ser resolvê-lo, mas eu que não procuro!

Aqui em Madri, como em Atlanta, temos amigos brasileiros, espanhóis e de outras nacionalidades y así me gusta! Acho divertido uma festa onde se fala várias línguas, corretamente ou não, isso não importa, o importante é que a gente se comunique e que exista afinidade.

Agora, também é verdade que os estrangeiros aqui sentem vontade de conhecer melhor o Brasil. Aliás, o Brasil anda na maior moda! Por isso, as últimas festas que temos feito, temperamos com uma certa brasilidade. As caipirinhas fazem muito mais sucesso que os vinhos e as músicas são extremamente bem recebidas. E para os amigos brasileiros, é sempre bom se sentir um pouco em casa.

Nessa última sexta-feira, soubemos de uma festa brasileira na Sala Caracol. Quando escutamos falar de uma festa brasileira por aqui, infelizmente, há uma dose de suspeita, pois, não é sempre, mas muitas vezes é codinome para festa com prostitutas. No início, isso me envergonhava um pouco, não gosto dessa imagem da brasileira. Nada contra as meninas que fazem seu trabalho não muito fácil, mas acho muito desagradável essa generalização. E o pior de tudo é saber que a imagem do Brasil fica afetada, mas na minha opinião, a culpa mesmo é de quem paga e normalmente são estrangeiros. Acho que esses estrangeiros é que deveriam se envergonhar.

De uma maneira ou de outra, percebo que a imagem do Brasil melhorou bastante no cenário internacional nos últimos anos, principalmente em uma Europa, que apesar de tradicional, também é muito curiosa.

Mas voltando à festa da Sala Caracol, no ano passado Luiz e eu fomos a uma festa por ali para sentirmos o ambiente. Achamos animado e não vimos nada que depusesse contra nosso país. Portanto, nessa última festa, que era um pré-carnaval, fiz a maior propaganda e combinamos de ir com amigos de diferentes nacionalidades.

Fizemos uma festinha de aquecimento aqui em casa, onde rolaram caipirinhas, cachacinhas e comidinhas. A gente faz caipirinha de frutas diferentes, o que para os estrangeiros é algo exótico.

Daqui seguimos para a festa brazuca, onde rolava um show da banda Maracatu FM. Aliás, um show excelente! Aos meus ouvidos, soou como um Mangue Beat de primeira! Talvez outras fusões de ritmos também, mas estava mais interessada em dançar que entender. Esse show acabou por volta de 1:30 da manhã, o que é cedo para Madri, mas que dependendo da localização é o que a prefeitura autoriza.

Nosso grupo se dividiu porque algumas amigas brasileiras acharam que se tratava de música baiana e não se interessaram, foram para outra boite. Gosto de música baiana também, mas não tinha nada a ver e nós ficamos até o fim do show. Quando acabou, Luiz, eu e uma amiga koreana fomos catar aonde o povo tinha se metido. Descobrimos que a tal da boite era a Posada de Las Ánimas, bem perto da nossa casa. Ou seja, partimos para a terceira fase da noite!

As noites em Madri são assim, longas! É muito comum irmos a mais de um lugar ao longo da madrugada. Dependendo da hora, cada lugar tem seu ponto forte. Haja energia!

Óbvio que chegamos em casa quase de manhã e meus planos de visitar uma feira de arte no dia seguinte foram para as cucuias! Tudo bem, tinha o sábado para descansar e fui no domingo.
Bom, quer dizer, descansar de dia, né? Porque na noite de sábado em Madri, quem quer ficar em casa? Eu achando que ficaria na minha caminha quentinha, me recuperando da ressaca de sexta-feira, liga um casal de amigos brasileiros muito legais. Daí, fazer o que? Nos integrar a cultura local, tomar um bom rioja, comer umas tapas e papear com amigos. Pensando bem, o mundo não é tão grande nem tão diferente assim.

91 – A mudança de olhar

Há alguns anos atrás vi um filme francês que gostei muito, acho que se chamava “Uma Relação Pornográfica”, apesar de não haver absolutamente nada de pornográfico. Não pretendo contá-lo inteiro, mas apenas uma frase que me chamou atenção, o homem dizia em relação a sua parceira: “primeiro não vi nenhum defeito, depois vi seus defeitos e depois, novamente não os vi mais...”

Nesse caso, estava sendo descrita uma relação amorosa, onde ele se apaixonou. Acho que o amor funciona assim, primeiro a gente está tão empolgado que não vê os problemas, depois, pouco a pouco, a gente vai aprofundando o conhecimento e também vendo as características negativas. E chega um momento, onde esses defeitos não importam mais, pois se tornam pequenos dentro de todo o contexto da relação.

Mas nem é de relacionamento amoroso que gostaria de falar, é sobre olhar mesmo. Acredito que o funcionamento do nosso olhar é o mesmo para as coisas que nos cercam.

Foi assim que meu olhar se comportou aqui em Madri. Primeiro não vi defeitos, gostei de tudo, até as desvantagens me pareciam divertidas. Depois vi os defeitos, alguns me incomodavam, outros nem tanto. Agora, sinto que estou muito próxima a não me surpreender mais. A dúvida nesse momento é se isso é amor ou acomodação pela cidade.

Algumas pessoas, mais sábias que eu, conseguem viver em um mesmo lugar por toda sua vida e, no entanto, também conseguem ver as mesmas coisas de maneira diferente e se desenvolver com elas. Outras, são acomodadas mesmo, o que não deixa de ser uma opção. No meu caso, preciso da mudança. É meu estímulo para aprender. Mudar me dá um novo ângulo, um olhar fresco. Não preciso mudar de país a cada semana, não é a isso que me refiro. Mas necessito algum tipo de mudança, mesmo sabendo que há um preço por ela. Sempre há.

Entretanto, qual o preço para se conhecer profundamente a alma humana? E que no fundo significa conhecer a nós mesmos, a mim mesma. Qual o preço de chegarmos ao nosso limite? Qual o preço de se deixar um legado e como deixá-lo sem a experiência? E por que raios isso me importa tanto?

Outro dia li um trecho interessante de um livro do Calvino, que dizia o seguinte: “...conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos...deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos... Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá”.*

Acho que mudo para saber quem sou. O que gera um paradígma, pois ao mudar, sou outra pessoa novamente.

Não me prendo aos sapatos, nem aos móveis, nem às casas, nem às cidades... Há muitos nomes para isso, alguns chamam de desapego, outros de irresponsabilidade ou loucura e sabe-se lá de mais o que; chamo de liberdade. Quando não tenho nada, posso tudo. E me doeu abrir meu coração e minhas mãos no início, mas só assim entendi que as pessoas e as coisas não são minhas, apenas passam pela minha vida e me dão a oportunidade de conhecê-las. Quando posso aprender com elas, agradeço, pois meu apredizado é meu patrimônio. Com o tempo estou aprendendo também a compartilhá-lo e quem sabe esse será meu legado ou minha pretensão. De qualquer maneira, já sei que nada ou quase nada que não se possa compartilhar serve.

Sinto que tenho pouco tempo para admirar Madri com os olhos de novidade. Por um lado, não posso negar que isso me entristeça, mas, por outro, não quer dizer que não possa admirá-la, nem que será pior, simplesmente não será mais da mesma maneira. Talvez essa seja minha próxima mudança e meu próximo aprendizado.


* do livro “As cidades invisíveis” de Italo Calvino

90 – A Picanha

Sou carnívora! Os vegetarianos que me perdoem, mas uma bela carne é fundamental. Nasci com caninos, fazer o que?

É verdade que preciso comprar as carnes em supermercados, cortadinhas e limpinhas. Assim, posso esquecer que é um animal. Preciso acreditar que um bife nasce em algum tipo de árvore exótica.

A comida de Madri é muito boa, mas a carne deixa um pouco a desejar, como na maior parte da Europa. Além disso, os cortes são diferentes e ainda tenho um pouco de dificuldade em identificá-los.

Em Atlanta, encontrávamos churrascarias brasileiras muito boas. Mas em Madri é mais difícil. Existem, mas não são fantásticas. A melhor que já fui até o momento é a Mistura Fina, em Majadahonda, meio longe para irmos sem carro. E a melhor carne e a do Picanha, mas não é exatamente uma churrascaria.

Enfim, de qualquer forma, ainda tinha aquela vontade danada de fazer uma super picanha em casa, mas como explicar isso no açougue? Até que navegando pelo orkut, em uma comunidade de brasileiros em Madri que frequento, descobrimos que aqui também se faz esse corte e se chama tapilla ou tapa de cuadril. Não é um corte espanhol, mas os argentinos e brasileiros comem, portanto, alguns lugares o faziam.

Bom, o próximo passo era ir até o açougue e testar a informação. Fui junto com o Luiz, porque não queria pagar o mico sozinha do açougueiro me olhar com cara de ET sem ter a menor idéia do que era a tal da tapilla. Pois o rapaz não só conhecia o corte, como havia namorado uma brasileira.

Ele tinha um pedaço cortado, mas estava totalmente limpo, sem gordura. É que a carne aqui é muito cara e as pessoas não querem pagar o preço do kilo para levar gordura. Expliquei para ele que entendia sua boa vontade, mas precisava da gordura para temperar o churrasco, além disso, gostaria de uma peça um pouco maior. Ele me cortou um outro pedaço e me olhava com cara de espanto me perguntando se realmente eu queria levar com toda aquela gordura, que nem era tanta. Disse que sim, que não a comia, mas que nosso churrasco é temperado pela gordura da própria carne e sal grosso. Ele não se conformou e pediu para tirar só um pouquinho, daí pesou a carne mais limpa, me deu um desconto no peso e embalou a carne junto com o pedaço de gordura tirado. ¡Joder!

Mas a verdade é que ele foi tão gentil e simpático, que achei mais fácil sorrir, agradecer e sair com a carne embrulhada com um pedaço inútil de gordura solta por cima.
E o resultado? Huuuuummmmm... um belo churrascão caseiro!

89 – Os embalos de sábado à noite

Em pleno sábado, frio de menos 2 graus, Luiz e eu largados em casa vendo filme e comendo pipoca. Até que Luiz se animou e me chamou para sair. Normalmente, esse é o meu papel, mas ando meio marcha lenta e ele assumiu o comando. Ainda bem!

Enquanto me arrumava, ele ligou para uma amiga nossa que mora aqui perto e chamou ela e outro amigo. Acabou que só foi ela. Fomos para um bar quase na esquina, o Finos y Finas, tomar um vinhozinho e beliscar algumas comidinhas no balcão. Daí, nossa amiga que nos encontrou lá falou de um lugar bem próximo que ela havia conhecido e achou as músicas legais.

Músicas legais? Como assim? Esse tipo de argumento em Madri deve ser conferido imediatamente! E ainda por cima era perto! Eu que na rua me animo e já havia engatado a terceira, pulei logo para quinta marcha e acelerei: então, vamos!

O lugar se chama Posada de Las Animas e, no que depender de mim, serei cliente! A decoração é meio teatral, assim, dramática. Talvez um barroco modernista, com anjos pendurados, enormes candelabros e longas cortinas vermelhas. Muitos espelhos e iluminação bem planejada, como deve ser. As prateleiras dos bares são montagens com antigas cadeiras de cinema, adornadas por milhares de garrafas de bebidas e vídeos em tela de cristal líquido. A bebida é cara, mas não se paga entrada nem tinha fila. E, muito importante, a frequência média se posicionava acima dos 30 anos.

A música era realmente boa. Entramos direto para a pista e dançamos até cansar! Nesse momento, me arrependi de estar tão bem agasalhada. Putz! Que calor! Também, como iria advinhar que de moribunda no sofá acabaria pulando numa pista de dança?

Enfim, indo embora a pé em um frio de 6 graus negativos, vivi a seguinte contradição. Meu corpo ainda suava de calor por ter dançado e minhas orelhas queriam descolar da cabeça de tanto frio! Bom, o nariz nem sei onde estava, porque no meu rosto não sentia.

Pues nada... pero, bueno, que estava muy bien, así que a lo mejor volveré ¡guay, tío!

88 – O primeiro dia de neve em Madri, 2006

No penúltimo dia de janeiro, pouco depois das 8:30, fui acordada por um insistente interfone. Quase não fui atender, porque não esperava por ninguém e tinha quase certeza que era engano. Mas era possível ser o correio, pois tenho família e amigos gentis que sempre me mandam alguma coisa. Fui com aquela mala leche ver do que ser tratava e, no fim das contas, era mesmo o correio para meu apartamento.

Era o passaporte do Luiz com seu novo visto americano. Tive que pagar 8,15 euros para recebê-lo e é claro que não tinha trocado. Paciência, fazer o que, morri em 20 euros e a promessa que ele passaria de volta assim que tivesse troco.

Contei essa história porque ninguém que me conhece poderia acreditar que estaria acordada a essa hora sem algum motivo. Durmo no final da madrugada e acordo no fim da manhã. Vivo em outro fuso. Mas sabe de uma coisa, nesse dia meu sono foi interrompido providencialmente!
Como Luiz estava super ansioso para receber seu passaporte de volta, liguei para ele meio sonâmbula para avisá-lo, sonhando em voltar para minha caminha quentinha. Ele me perguntou se havia olhado pela janela. Imagina, se mal olhei o carteiro! Daí ele me disse que havia nevado.
Fui para a janela da sala conferir. A rua já estava normal, mas em cima dos carros ainda havia neve branquinha. Talvez minhas receitas malucas estejam funcionando para melhorar meu humor, talvez fosse porque era o primeiro dia de neve, talvez fosse porque não era eu quem limparia os pára-brisas congelados, e quem sabe, por tudo isso junto, mas fiquei muito feliz! E olha que foi antes das 9 da manhã!

Um pouco relutante, vesti meu casacão por cima do pijama e tomei coragem de abrir a janela e fotografar a rua. Registrei, ao mesmo tempo, dois momentos históricos: meu primeiro dia de neve em Madri e vagas para estacionar na frente do prédio. Nem sei qual dos dois eventos me surpreendeu mais! Fotografei para não me chamarem de mentirosa, não pela neve, mas pelas vagas!

Lembro do primeiro dia que vi neve na vida. Tinha por volta dos cinco ou seis anos, em Nova York. Pode acreditar, é uma lembrança curta, mas muito nítida, acredito que porque, para mim, era uma coisa muito diferente. Lembro da emoção de sair e ver a rua branquinha. Acho que fiz o que dá vontade em todo mundo, afundei o pé na neve para deixar marcas de pegadas. Depois não resiti e me joguei no chão sem o menor pudor! Ainda bem que conheci neve criança, hoje me daria vergonha e frio, apesar de ainda ter vontade de me jogar. E a última coisa que me lembro é de ver uma senhora desconhecida passando e rindo para mim. Acompanhei seu olhar por um tempo e minha lembrança se acaba aí. Anos depois entendi esse olhar, era inveja boa, de quem também queria se jogar no chão e se esbaldar com a neve.

Enfim, acho que o frio da janela e as lembranças me tiraram o sono e comecei esse dia cedo. E, a propósito, o carteiro voltou mais tarde com o troco dos 20 euros e não faltava um centavo!

87 – A velhinha motoqueira

E mais uma cena insólita madrileña... Almodóvar, cadê você?

Agora nem preciso sair na rua para me divertir. Pois estava eu, dando uma olhadinha da janela e logo em frente do meu edifício vi uma situação que me chamou atenção. Havia três velhinhas e uma mulher de seus 40 anos, juntas. Uma das velhinhas estava em uma cadeira de rodas e deveria ter uns 127 anos! As outras duas senhoras pareciam mais jovens, no máximo, uns 85.

O que fazia dessa cena insólita? Imagine a mulher de seus 40 anos, tentando empurrar a cadeira de rodas com uma só mão, a outra mão ela tinha que segurar o cigarro, porque claro que ela precisava fumar exatamente nesse momento, né? As outras duas velhinhas tentavam carregar um monte de malas e bolsas, que não pareciam pesadas, mas tinham muito volume para elas. Quando pegavam uma mala de um lado, caía uma bolsa do outro.

Ensaiei descer para ajudar, mas antes disso percebi que na reta das mulheres havia uma lambreta vazia. Olhando de cima no meu apartamento, no ângulo que via, dava a sensação exata que as três loucas iriam colocar a pobre velhinha de 127 anos em cima da moto! Juro! Dava nervoso só de imaginar! Antes que eu tivesse um enfarte, percebi que essa localização lambreta-velhinha era só uma coincidência. Que alívio!

Nesse meu vai-e-vem na janela, será que desço para ajudar ou vejo o que está acontecendo, percebi um homem chegando para dar uma mãozinha. Quando olhei melhor, era um senhor dos seus 90 anos! A mulher de 40 não sabia se equilibrava o cigarro ou empurrava a cadeira de rodas. E eu: ai, meu Deus, desço para ajudar ou chamo uma ambulância?

Pois nem precisei ficar na dúvida muito tempo, o velhinho era super ágil! Em segundos ele pegou todas as malas, atravessou a rua e se despediu das senhoras. E cá entre nós, notei um certo ar muito galante. Fiquei pensando, para qual das velhinhas ele estaria se exibindo? Será que ele estava paquerando? E onde raios ele conseguiu toda aquela vitalidade? A velha sou eu que fiquei como uma boba na janela e não fiz nada!

86 – Uma coisa muito feia

Vi uma coisa muito feia, um homem batendo em uma mulher em plena rua. Sabia que acontecia, já ouvi muitas histórias, mas nunca tinha visto assim, pessoalmente. Como é feio!

Ano passado, não me lembro exatamente em que mês, estava vendo o noticiário e mostrava um protesto enfurecido das espanholas. O motivo era o assassinato de uma mulher por seu marido. A reportagem falava do número “alarmante” de mulheres que morreram por maus tratos de seus parceiros na Espanha, em 2005. Logo em seguida, disseram que era a quadragésima-alguma-coisa mulher morta nesse mesmo ano e que providências sérias precisavam ser tomadas. Quando ouvi o número, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que não me pareceu tanto assim. Acho que no Brasil morrem muito mais. Ao mesmo tempo, esse pensamento me pareceu absurdo! Se uma só mulher tiver morrido, assassinada por seu marido, isso já é alarmante! Não estamos falando de 40 mulheres que morreram durante um assalto ou acidente. Falamos de casais, de pessoas que vivem juntas, dividem sua cama e que não tem, necessariamente, antecedentes criminais. Falamos de uma total falta de respeito.

Às vezes, acho que no Brasil, e em outros lugares também, a gente perdeu a capacidade de se indignar. “Foram-se os anéis, ficaram os dedos” deixou de ser uma metáfora para se transformar em expressão literal. É o “estupra, mas não mata” virando piada que não acho a menor graça. Lembro-me de escutar nas rádios o “só um tapinha não dói” e sentir saudades da voz negra da Marron, que quando se referia à pancada de amor que não doía, falava de um surdo ou um pandeiro. E se seu surdo ou seu pandeiro eram referências à vida, pelo menos eram cantados de forma poética.

Nossa falta de indignação nos acostumou aos meninos nos semáfaros, aos mendigos queimados e aos animais vagando sem casa. Espero nunca me acostumar a ver um homem bater em uma mulher, ou mesmo um homem bater em outro, porque isso é muito feio.

O que vi aconteceu no campus da Complutense, quando ia assistir um filme sobre guerrilheiros anti-franquistas, Silencio Roto. Estava sozinha caminhando do metrô para o prédio de filosofia, onde encontraria minhas amigas. A calçada tinha um certo movimento, nem tanto quanto no outono, mas não estava vazia. Vinha olhando as pessoas que estavam na minha frente, quando meu olhar parou em três homens e uma mulher, juntos. Nem sei explicar o porquê, mas sabia que eles não pertenciam ao lugar, não combinavam ali e meu radar me avisou logo para ficar bem atenta. Reduzi o passo, fiquei observando e analisei se existiria uma rota de fuga, se precisasse.

Daí, dois dos três homens aceleraram o passo e o casal ficou um pouco para trás. Pareciam discutir, mas era uma coisa muito estranha. De repente, ele deu um tremendo safanão na mulher, que se protegeu, mas não fugiu. Algumas pessoas passavam do lado e ficaram meio confusas, mas não pararam. Ele continuou a andar na sua frente e, para minha surpresa, ela o chamou novamente gritando. Ele voltou, bateu nela outra vez com um murro, gesticulou apontando para umas árvores como se a estivesse ameaçando e saiu andando na frente. Ela o chamou novamente berrando para ele voltar. Nesse momento, eu estava mais próxima e pude notar que a mulher estava molhada, como se tivesse urinado nas calças. Não sei se de medo, de dor ou de torpe e nunca vou saber, mas também era muito feio.

Francamente, não sabia o que deveria fazer, como poderia ajudar. O que me deixava mais confusa e acho que às outras pessoas também, é que quando o homem ia embora, ela o chamava outra vez. E ele batia outra vez! Chamar a polícia, não adiantava, além de não haver tempo, a polícia não entra no campus da Universidade (motivos políticos, é lei).

Da última vez que o vi voltar para socá-la, nosso olhar se cruzou e ele baixou o braço. Não houve da minha parte nenhuma coragem, tive medo e talvez tenha sido até imprudente, mas minha indignação perplexa foi tanta que não me deixou parar de encará-lo. Não sei se por vergonha, se por pensar que poderia reconhecê-lo, se porque havia mais gente na calçada ou por se cansar, mas dessa vez ele não bateu e foi embora. Passou do meu lado. Ela continuou gritando para ele. Ele se reuniu novamente com seus outros dois amigos, com rosto muito aborrecido, com cara cínica de vítima. E não o vi mais, espero nunca mais vê-lo, mas sei que lembrarei do seu olhar e quero que ele se lembre do meu.

Muitas vezes, me sinto bonita simplesmente porque Luiz me olha como se eu fosse. Acho que se esse homem um dia se lembrar do jeito que olhei para ele, vai pensar: como sou feio.

85 – Pues... nada

Todo idioma, ou pelo menos todos que conheço, possuem algumas expressões coloquiais, sem grandes significados, utilizadas apenas para ganhar tempo para pensar ou iniciar uma frase.

Por exemplo, no Rio tem o “olha só”. Os cariocas começam suas frases assim: ... olha só, você vai fazer isso mesmo... e por aí vai. Os paulistas costumam perguntar, olha só o que? Você não está me mostrando nada! Mas há a revanche carioca, pois os paulistas iniciam suas frases com o famoso “então”. Então o que, se você não estava falando nada!

O americano começa com o “well” ou “so”, mas em inglês todo mundo acha bonitinho.

Pois os madrileños também tem sua expressão que não significa porcaria nenhuma, é o famoso “pues nada”, cuja tradução literal acredito ser dispensável. Na prática, funciona como um “nada demais”.

Acho engraçado quando você atende um telefone e fala, diga ou dígame, e a pessoa do outro lado responde, pues nada. A pergunta seria: se não é nada, por que raios você está me ligando? E ainda há a variação “pues... entonces... nada”. Caramba, isso é que é falta de assunto, hein?

Mais divertido ainda é depois da pessoa dizer que não era nada, começar a falar sem parar naquela velocidade espanhola! Aparentemente, o nada aqui rende uma longa conversa!

Olha só, e por que estou contando isso? Então, pues nada...

84 – Calle de Manuela Malasaña

Próximo a estação de metrô Bilbao, há uma ruazinha muito simpática chamada Calle de Manuela Malasaña. Sei lá, para quem conhece São Paulo, acho que seria a Rua Normandia daqui.

É um local que conheço há pouco tempo, mas já fiquei fã. Tem de tudo, bares, restaurantes, uma graça! Tem até um restaurante natureba, o que em Madri soa como uma heresia, mas lá fica interessante.

Há também um restaurante, chamado Nina, que entrou rapidamente no meu ranking dos melhores da cidade. É que, apesar de gostar da comida espanhola, tem uma hora que te enche um pouco o saco e você tem a impressão de estar sempre comendo a mesma coisa. O Nina tem seu sotaque espanhol, mas com um toque de cozinha mediterrânea e oriental, o que é um refresco para meu paladar.

Pois estávamos nós, no tal do Nina, com a sorte de termos pego uma mesa na janela. Detalhe, só conseguimos reservar nosso jantar para às 23:30, lá está sempre lotado. Não é que na rua passa minha amiga francesa com o marido e nos reconhecemos pelo vidro? Qual a probabilidade de isso acontecer? Claro que ficamos fazendo mil piadinhas sobre essa cidade do interior minúscula, onde você encontra todo mundo! Engraçado como uma coincidência assim, tão pequena, me fez sentir parte do lugar.

Bom, mas como deve ter dado para perceber, aquela historinha do regime de início de ano foi para o brejo! O jeito é malhar caminhando muito pela cidade, se a boca não consigo fechar, pelo menos, preciso queimar as deliciosas calorias madrileñas.

83 – Show de Dança Flamenca y otras cosillas más

Nesse fim de semana, uma amiga espanhola nos convidou para assistir um show de dança. Mesmo sem muita informação do que se tratava, topamos. Sempre vou ao teatro com muito boa vontade, procuro não ter expectativas muito altas e adoro me surpreender.

Pois, foi uma boa surpresa desde o início. Começando pelo teatro, pequeno e alternativo, que me pareceu aconchegante. Gosto dos grandes teatros e espetáculos também, mas nesse dia, preferia algo mais intimista. O lugar chama Sala Triangulo e fica próximo ao Reina Sofia, meu museu favorito aqui.

O show que fomos assitir se chamava “Latidos”. A propósito, latidos são as batidas do coração. Aqui na espanha nosso coração late! Na verdade, era uma mistura de dança, música e teatro. O carro-chefe, digamos assim, era o flamenco. Entretanto eles mesclaram com uma série de ritmos, como: clássico, samba, blues (que ficou ótimo), salsa e alguns outros.

O contexto era uma grande viagem, passando por aeroportos, estações de trem e metrô. As esquetes eram histórias que fazem parte do dia-a-dia de pessoas comuns, e claro, dentro da realidade espanhola.

O espetáculo tinha poucos recursos em termos de produção, isso era bastante óbvio. Mas esses poucos recursos foram muito bem utilizados, de maneira criativa e com talento. E sabe que ficou bom?

Mas houve uma outra coisa que foi importante. Normalmente, um dos motivos de você gostar de uma música, um filme, uma peça, enfim, uma atração qualquer, é o fato de se identificar com o que é exposto. Entendi perfeitamente todo o espetáculo e não estou falando só do idioma, me identifiquei mesmo, reconheci as pessoas que vejo na rua e eventualmente até a mim. Foi muito bom sentir que estou aprendendo. Esgotou minha paranóia da perda de identidade. No fim das contas, acho que prefiro mesmo é “ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo...” ¿vale?

82 – Os cheiros de Madri

Gente! Madri tem cheiros! Parece estranho só ser capaz de notar isso quase um ano depois que moro aqui, mas juro que é a mais pura verdade. Antes disso, só notava cheiro de cigarro. Tenho até medo de elogiar muito, mas menos de um mês após a lei de restrição ao fumo ser implantada, o cheiro da cidade mudou!

Começou por chegarmos em casa, vindos de um restaurante, e não precisarmos arrancar a roupa correndo, com vontade de queimá-la, e entrar embaixo do chuveiro. Sem nenhum exagero, às vezes até as roupas de baixo tinham cheiro de fumo, nem me pergunte como!

Para o cabelo, comprei um tal de “champú seco”, Flor de Azalea, que apesar desse nome brega, salvou minha vida em diversas noites. Parece um laquê que tira o cheiro de cigarro e a oleosidade do cabelo, como se fosse um talco, mas não estraga a escova. Tá bom, meninos, sei que para vocês essa informação parece irrelevante, mas garanto que para as meninas que chegam em casa da balada, no meio da madrugada, com o cabelo cheirando a cinzeiro, essa é uma informação importantíssima! Podemos dormir em paz e lavar a cabeça com calma no dia seguinte.

Notei que o ar havia mudado quando estávamos em um shopping. Quase nunca vou a shoppings aqui, normalmente prefiro a rua, mas nesse dia fomos. De repente, comecei a notar aromas de diferentes perfumes, cheiro de insenso em algumas lojas, alguns cheiros de comida pela praça de alimentação, cheiro de suor, cheiro de neném... E pensei sozinha, que engraçado, os shoppings cheiram tão diferente das ruas. Até que passei na frente de uma das portas de saída, onde havia uma área reservada para fumantes. Reconheci o cheiro instantaneamente, e só aí notei que não é que não houvessem aromas antes, mas o cheiro do cigarro abafava quase todos. Isso é incrível!

É difícil acreditar que as pessoas, inclusive eu, pudessem aceitar a anulação parcial de um dos seus sentidos em favor de um vício! Até esse momento, sempre acreditei que o cigarro era apenas inconveniente e fazia mal a minha saúde, mesmo que não desfrutasse dele. O que, convenhamos, já é bem ruim. Mas ainda não havia percebido que ele me tirava uma das dimensões da vida, me roubava a percepção dos cheiros.

Agora ando como um cão farejador! Putz! Realmente, às vezes acho que pareço maluca, mas é que com essa revelação me pareceu que poderia estar vendo um filme sem a trilha sonora. Quero Madri inteira, com o bom e o ruim, e com todos os seus cheiros!

81 – A deprê de inverno

Mesmo antes de mudar para cá, havia ouvido falar muitas vezes da depressão que pode causar o inverno. Não é que não acreditasse nisso, mas nunca acreditei que pudesse acontecer comigo. Nem é meu primeiro inverno fora do Brasil. Mas a verdade é que aconteceu e estou aprendendo a lidar com essa situação.

Felizmente, para mim não é tão grave, nada que precise medicação ou me derrube seriamente. Mas existe, está ocorrendo e não posso negar. Por sorte, pude perceber e entender rapidamente o que era. Com algumas pessoas isso pode ser mais sério e não é vergonha nenhuma, precisa ser tratado.

Não sou uma pessoa das mais simpáticas ou super comunicativas, essas características sempre foram do meu irmão e da minha mãe. Por outro lado, normalmente não sou mal humorada e sou bem animada. Há três coisas que tiram meu humor: fome, muito sono e fazer algo que não quero sem necessidade. Razoável! Agora descobri que também há um quarto motivo, o inverno.

Não é que me deixe aborrecida, mas me tira o ânimo de fazer as coisas. E não é necessariamente o frio, pois dentro de casa é aquecido e tenho roupas muito adequadas que me protegem na rua.

Notei que cada vez que tenho que sair é difícil, é um esforço que faço, a vontade é de me entocar em casa. Isso para mim é algo muito estranho, pois sou daquelas que quando você me pergunta “vamos a tal lugar?”, já estou pronta em pé na porta. Juro! Também estou com pouca vontade de sorrir e me irrito com mais facilidade. Não sei explicar bem, mas é como um tipo de tristeza que você não entende o motivo.

É diferente de tirar férias no inverno ou ir para uma estação de esquis, porque isso de alguma maneira te tira da rotina. É a rotina de inverno que me cansa. É acordar com o dia meio escuro, ter que pensar em cada peça de roupa, vestida em que ordem e qual casaco colocar, precisar checar o tempo antes de sair de casa, conviver com as mudanças bruscas de temperatura cada vez que entra e sai de algum recinto, me emplastar de hidratante, nunca esquecer o protetor labial, lembrar de ligar o humidificador, não poder abrir as janelas para o ar circular... O inverno não te sugere uma rotina, ele te impõe uma. E isso porque Madri, ou mal ou bem, não é radicalmente fria e costuma ser ensolarada. Imagino nas cidades cinzentas ou de muita neve, onde se você não tomar as providências adequadas, pode até morrer. Simples assim.

Acho que, em parte, o brasileiro é mais alegre por causa da luz e da temperatura do país. A gente não se dá conta porque está sempre ali, mas quando não está mais, faz falta.

Enfim, os motivos exatos não tenho certeza, mas tenho tentado reagir. Não porque tenha me atrapalhado tanto, mas porque gosto de ser feliz. O que tento fazer é, primeiro, com ou sem vontade, não recusar convites. Mesmo desanimada, eu saio, porque quando estou na rua melhoro sensivelmente e consigo me divertir.

A outra coisa é a alimentação. Seria ótimo se gostasse de pimenta, pois o chile, por exemplo, aumenta seu nível de endorfina e melhora o humor. Infelizmente, não gosto, então estou experimentando outros ingredientes. O gengibre, o alecrim e a noz-moscada me ajudam e a vitamina C também. O raio do chocolate é bárbaro, mas deixa a pele um lixo, além de engordar. O vinho é um bom aliado, mas a não ser que seja um jantar especial, não mais que uma ou duas taças ou o efeito é contrário.

Muito bem, uma produçãozinha pessoal ajuda, vai. E, por que não? “Al mal tiempo, buena cara”. Afinal, as outras pessoas também estão passando pelo inverno e ninguém merece ficar olhando meu rosto desanimado, certo?

Aos poucos, encontro minha própria fórmula de expulsar a uruca, ainda que me interesse bastante a experiência alheia nesse sentido. Todos os anos o inverno chegará e talvez um dia nem ache ruim. Quem sabe, ainda espere por ele.

80 – Ciao, bela!

Luiz precisou trabalhar por alguns dias em Roma, e dessa vez deu para eu aproveitar e ir também. Até o Jack foi junto!

Jack tem uma babá! Quando viajamos por um fim de semana, ele fica em casa. Chamamos uma mocinha que vem duas vezes por dia e troca sua comida, a água e limpa a areia. Ela até tem a chave do nosso apartamento. Mas como dessa vez era por 5 dias, muito tempo para ele ficar só, resolvemos levá-lo conosco.

Muitos hotéis na europa aceitam animais de pequeno porte. Boa parte das companhias aéreas também. Aliás, não me lembro se já contei, mas meu gato tem passaporte europeu com foto e tudo! Juro! Ficou pronto bem antes dos meus documentos! E lá foi meu felino conosco para Itália.

A origem da minha família é italiana, apesar de nunca termos nos preocupado muito com isso. Quem nasce no Brasil é brasileiro e pronto! De toda maneira, ainda adolescente, aprendi a falar a língua. Quando cheguei na Espanha, fazia uma confusão enorme com os idiomas e tinha um leve sotaque ridiculamente italiano quando tentava falar espanhol. Fiz tanta força para mudar isso, que precisei bloquear o italiano para progredir no castellano. Agora, chegando em Roma, era a prova de fogo! Saberia falar? Entenderia?

Pois meu italiano estava uma bela porcaria! Saía sempre um espanhol macarrônico! Tudo bem, depois resolvo isso. De certa maneira, foi um bom sinal, quer dizer que o espanhol entrou na veia.

Eu adoro os italianos! Eles podem até te passar para trás, e como turista isso frequentemente acontece, mas sempre com toda gentileza e um enorme sorriso no rosto. Você não se sente uma trouxa qualquer, se sente uma trouxa especial e encantadora. Convenhamos, isso faz toda a diferença! Acho os italianos deliciosamente mal educados, no ponto exato, o suficiente para não serem chatos e monótonos, mas não tanto ao ponto de serem irritantes ou grosseiros. Enfim, muito bom ver gente que sorri à toa outra vez.

Luiz alugou uma motorino (lambreta) e partimos a passear em duas rodas. É a forma mais fácil e rápida de se locomover pela cidade. O trânsito é razoavelmente caótico e quase não há onde estacionar. O metrô não é tão bem comunicado e ônibus nem arrisquei. Também não é complicado caminhar, o centro da cidade é relativamente simples de entender e tenho um bom senso de direção. Taxi, para distâncias curtas em locais centrais é tranquilo, mas para distâncias maiores, eles podem te enrolar e cobrar tarifas mais altas.

Há alguns anos atrás, fomos a Roma e encontramos um casal de amigos que morava em Londres. Alugamos juntos as tais lambretas e foi muito divertido. Uma história engraçada aconteceu com esse casal, bem no meio da madrugada, um frio do cão e nós nas motorinos. Daí para o casal do nosso lado e começam a cantar a música do Steppenwolf: ...born to be wild! Fui capaz de me sentir a própria selvagem na motocicleta que não andava a mais que 60 km por hora! A diferença é que naquela época debochávamos da falsa aventura. Anos mais tarde e dessa vez usando capacete, para mim era uma aventura de verdade! Estou ficando velha...

No primeiro dia, senti um pouco de preocupação por andar na moto, mas não perdi a pose e encarei o desafio. No segundo dia, não tinha mais um pingo de medo, havia me acostumado com a motorino ainda mais potente que a primeira que alugamos, e me senti muito orgulhosa em ser capaz de ousar, nem que fosse um pouquinho. Meu orgulho não durou muito, assim que ganhei total confiança perdi a dignidade, minhas pernas e, desculpe, minha bunda doíam tanto que já estava de saco cheio! Luiz, por favor, vamos devolver o brinquedo e andar ou pegar um taxi?

Uma coisa foi muito legal, por conhecer bem a cidade e não ter mais a pressão do turismo, pudemos aproveitar de maneira mais relaxada. É que da última vez que fomos, ainda morava no Brasil, daí você encara trocentas horas de avião, em férias super difíceis de conciliar e tem sempre um pouco da neura de precisar aproveitar cada minuto. Não acho errado, faz parte e acho que também vale à pena, mas a situação agora era outra e adorei! Não fui visitar museus, não fui à Capela Sistina e esbarrava por puro acaso nas piazzas e fontes mais famosas. Luiz queria passear de motorino e eu queria bater perna em Trastevere. Tomar um brunch o mais devagar e preguiçosamente possível! Voltar para o hotel e tomar um banho de espuma bem demorado. Sair à noite para jantar uma super pasta, tomar um vinho nacional e comer tiramisú.

Infelizmente, devo admitir que em alguns momentos a culpa me bateu. Algumas vezes, quando estou muito feliz, me bate na consciência a dúvida se mereço. Considerando que tudo na vida tem um preço, e eu sei que tem, fico um pouco preocupada se estou colhendo um esforço ou se a conta ainda vai chegar. Sei que é um pouco neurótico, mas é a verdade. Ainda é muito difícil conviver com o contraste de sentar calmamente em uma piazza, tomando um belo vinho e ver, ao lado dos monumentos, os mendigos e os vendedores ambulantes tentando sobreviver. Entendo que a solução não depende de mim, mas sei que posso fazer meu papel e sei que posso fazer mais. Nesse sentido, talvez tenha sido bom, pois voltei com muita vontade de trabalhar.

A volta para casa foi um pouco atribulada. Começou com Luiz esquecendo seu computador no hotel e tivemos que voltar do meio do caminho para o aeroporto e buscá-lo. Chegamos no check in em cima da hora, na verdade, até um pouco atrasados. Saímos em disparada para não perder o vôo. Na hora de passar pela fiscalização, os funcionários se apaixonaram pelo Jack e o policial cismou que tinha que me mostrar a foto do gato dele também. Imagina a gente em uma pressa louca e o policial procurando a foto do gatinho dele no telefone celular para nos mostrar todo orgulhoso! Em outra situação, teria batido o maior papo, mas ali estava agoniada. Quando chegamos no balcão de embarque, quase toda fila já havia entrado, fomos os penúltimos. Ufa!

A partir daí foi mais tranquilo. O vôo estava vazio e nos deram uma cadeira bem atrás, assim ficamos sossegados com o gato, sabendo que ninguém ouviria seus miados de reclamação, se isso ocorresse. O comissário de bordo, também apaixonado por gatos, deixou a gente abrir a bolsa de transporte porque queria brincar um pouco com o Jack antes do avião decolar. No resto da viagem, meu felino metido teve até uma poltrona só para ele, sua bolsinha foi presa ao cinto de segurança. Ele se comportou super bem, um rapazinho, e quando chegamos, novamente a tripulação queria vê-lo enquanto os passageiros não saíam.

Como nada na vida é perfeito, uma das nossas malas não chegou. Claro que foi a minha, com as roupitas novas que comprei. Lógico que comprei roupas e uma bota linda que estica minha perna uns 20 cm! Não sou uma pessoa naturalmente consumista, mas convenhamos, estava na Itália e ganhamos em euro! Quer comparar moda italiana com espanhola, sinto muito! Todo mundo já sabe que adoro Madri, mas as roupas aqui não tem a mesma elegância. E voltando à mala, hoje pela manhã nos ligaram dizendo que localizaram a dita cuja e a trarão no fim do dia. Agora é torcer para chegar tudo certo.

O importante é que chegamos todos bem e Jack, que infelizmente detesta viajar, já cheirou, se esparramou e se esfregou pela casa toda. Queria ter essa sua habilidade de chegar no elevador e reconhecer o cheiro da minha casa, como se sempre houvesse sido ali e sempre houvesse sido minha.

79 – Meu super gato saudável!

Impossível conhecer e não se apaixonar por meu felino etílico, Jack Daniels. Um gato gordo, preguiçoso e feliz! Não é apenas pela sua companhia, mas por sua amizade.

Não comentei muito a respeito, mas meu gordo chegou em Madri doente. As razões, quem poderia ter certeza? Acredito que se deprimiu com a perda da Buchanan, minha outra gata sua irmã, e aos poucos foi perdendo a alegria e a saúde.

Quando chegou aqui, recuperou muito de sua vitalidade e voltou a ser um gato ronronante, o que nos foi de grande alívio, mas sua saúde não era a mesma. Sua resistência chegou a baixar tanto que a veterinária acreditou que ele poderia ter leucemia. Hipótese que, felizmente, foi descartada logo em seguida. Parte da opção de não usar sapatos em casa veio daí, queríamos protegê-lo de possíveis viroses da rua.

Dos meus dois gatos, sempre achei que Jack morreria de velho e no meu colo, Buchanan escolheria sua hora. A gata escolheu e soubemos ler seus sinais. Sofri, mas estava preparada para isso. Só esperava que a parte boa da profecia amadora também estivesse correta e Jack envelhecesse forte.

Iniciamos uma bateria de exames e um tratamento que se prolongou por alguns meses. Escolhemos medicina natural, homeopatia, e o cuidamos como um gato normal, como se nada estivesse acontecendo. Após nove meses, olha que parto, Jack recebeu alta hoje! Está novamente saudável e continua sendo um gato feliz!

E eu também.

78 – A perigosíssima mulher-búfala

Iniciada a temporada de inverno, sai de sua toca uma das criaturas mutantes mais perigosas do planeta frio. É a mulher-búfala!

Sempre vestida com um horrendo e enorme casaco de pele marron-já-foi-sua-época, ela ganha ferozmente as ruas madrileñas. É especializada nas rebajas, promoções com significativos descontos.

As representantes dessa raça, olhadas de longe, parecem inofensivas senhoras baixinhas, mas só de perto percebemos o perigo que essas massas corporais são capazes de representar. Normalmente são peitudas e, adicionando-se pelo menos quinze centímetros de casaco, não possuem nenhuma sensibilidade ao encostar em você.

Isso me faz pensar, por que os policiais utilizam coletes à prova de bala? Deveriam usar esse casaco de pele marron. Além de ser mais eficaz contra a munição, o meliante que olhar para um policial assim vestido cairá indefeso no chão com um ataque de riso súbito!

Enfim, essa couraça protetora utilizada pela mulher-búfala, faz com que ela seja o ser mais inconveniente a ser colocado atrás de você em um fila. E acredite, tudo aqui tem fila! Trata-se de uma estratégia malévola para que você ceda seu lugar para ela. É dificílimo aguentar a esse trator de neve na sua retaguarda, mas resista! Lembre-se da outra fila incomensurável que você já encarou no provador antes de estar ali, na fila de pagar a conta. Mais do que isso, lembre-se que se ela pagar antes de você, rapidamente se transformará em uma mulher-búfala-rolha, cheia de sacolas de compras, entalada na porta de saída da loja. Provavelmente, ela seguirá com esse bloqueio na sua frente pelas calçadas até que ela consiga te irritar e te distrair tanto que você certamente pisará em um cocô de cachorro.

E se você achou ruim quando ela estava atrás de você, cuidado! Fica pior quando ela vem na sua direção. De nenhuma maneira a olhe nos olhos! Isso é muito perigoso, pois elas sempre usam uma sombra verde ou azul, cuja cafonice extrema pode provocar danos em sua retina, além de seqüelas emocionais que podem durar por vários pesadelos.

Finalmente, o pior de tudo: elas possuem amigas! Não tive essa experiência traumática, mas Luiz uma vez encarou sozinho uma manada inteira de búfalas casacudas na saída do El Corte Inglés! Coitado! Chegou em casa pálido e com o olhar perdido. Sobreviveu, embora nunca mais tenha sido o mesmo...

Infelizmente, devo dizer que contra elas não há estratégia de ataque, você não tem chance! A única maneira de reagir é defendendo-se. Quando perceber que uma mulher- búfala se aproximará de você, fuja, mas fuja rápido!

77 – Manual de sobrevivência nos bares madrileños para não parecer um turista mané

Vamos, lá! Já contei sobre vários bares madrileños, mas acho que não custa nada dar uma aulinha prática de como se comportar neles, certo? Quer dizer, estou segura que todos sabem se comportar em um bar, mas há diferenças culturais, às vezes muito sutis, nos bares pelo mundo afora. E vamos falar a verdade, ninguém gosta de parecer turista! Muito menos turista mané! Estrangeiro, tudo bem, mas guiri perdido, nunca!

Começando pelo convite, se alguém te chamar para salir de copas, não tem nada a ver com jogos! É sair para beber mesmo. Outra coisinha, sair para beber não é sair para encher a cara, é só para tomar um vinho ou uma cerveja, socialmente. Quer dizer, você pode encher a cara, se quiser, mas vai pagar mico, porque de maneira geral, o espanhol sabe beber. Não estou dizendo que não hajam borrachos, o que aqui significa bêbados, mas não é tão comum.

Quando chegar ao balcão do bar, não espere que o barman se abra em sorrisos, afinal de contas, ele está trabalhando enquanto você se diverte. Isso não quer dizer que ele não possa ser educado ou gentil, mas provavelmente dependerá de como você se comporte com ele ou ela.

Fundamental: seja objetivo! Os bares e restaurantes aqui tem sempre muito pouca gente atendendo, quando não é um único garçon ou garçonete. Portanto, se você enrolar muito, eles vão te ignorar. Não é má vontade ou implicância, se você for espanhol e não for objetivo, eles também farão exatamente a mesma coisa. Afinal de contas, se você foi a um bar, que tantas decisões complicadas você pode ter que tomar? Viu? Esse é o pensamento espanhol!

Falando nisso, é uma boa coisa para ser lembrada. Não espere que a gentileza espanhola seja como a brasileira. Não é à toa que o brasileiro tem fama de amável e simpático por todo o mundo. As diferenças culturais devem ser entendidas e respeitadas. O espanhol médio não é tão sorridente nem tão aberto. Não é nada pessoal contra você, eles são assim. Não se aborreça sem motivo, eles nem vão entender porque você se aborreceu se eles não fizeram nada!

Bom, voltando a nossa lição, a primeira decisão que você já deve ter clara é se quer ir para a barra (balcão), ou para as mesas. Normalmente, você deve esperar que um garçon ou maitre defina sua mesa. Ou seja, se você quer ir para a barra, não precisa pedir a ninguém, simplesmente se encaixe em um espaço livre, mas se quer ir para mesa, peça a alguém responsável. Um “hola, buenas noches” é sempre bem vindo, mas não estique a conversa muito mais que isso. Lembre-se da primeira lição: objetividade! Mesa para dos, ¡por favor!

Caso você vá para mesa, a garçonete, ou como se diz aqui camarera, pode te perguntar se é para comer ou tapear. Fique tranqüilo, ela não acha que você quer enganar ninguém. Tapear vem das tapas, os aperitivos em espanhol.

Há uma infinidade de tapas, mas os mais tradicionais são:

Tortilla – um tipo de omelete de batata (para quem acompanha o blog, até já expliquei como fazer no capítulo XXI)
Jamón – será que ainda preciso explicar? É o presunto cru espanhol, melhor que seja ibérico de bellota.
Croquetas – croquetes, normalmente de jamón ou pollo (frango). Convém lembrar que podem te perguntar, em alguns casos, se você quer unidade ou ración. Não se preocupe, ninguém acha que você é cachorro, raciones são poções.
Huevos rotos – a tradução literal seria ovos mexidos ou quebrados, mas na prática, além dos ovos, também acompanha batatas fritas no azeite e, às vezes, pedacinhos de jamón curado.
Chorizos – lingüiças um pouco picantes, temperadas com pimentões vermelhos. Elas são avermelhadas, aliás, quase todo embutido (lingüiça) aqui é avermelhado pelos pimientos (pimentões)
Chistorras – linguicinhas parecidas com os chorizos, mas menores
Callos – bucho de boi, ou tripas. Acho gostoso, mas tem que ser iniciado
Patatas bravas – batatas apimentadas, mas não é terrivelmente picante. Novamente, a picância, nesse caso, vem dos pimentões.
Patatas ou Gambas ali-oli – batatas ou camarões ao alho e óleo. Acontece que o alho e óleo aqui se parece a uma maionese com sabor de alho. A propósito, gambas são os nossos camarões menores.
Gambas al ajillo – são camarõezinhos feitos em um potinho de barro com azeite quente e alho. O camarão meio que frita, meio que se cozinha ao vapor. É uma delícia!
Chipirones a la plancha – digamos que se pareça a atual situação política brasileira: lulinha na chapa.
Boquerones – são peixinhos marinados em azeite.
Sopa de ajo ou sopa castellana –Não tem o gosto tão forte do alho, pode tomar tranqüilo. Além disso, costuma ser servida com um ovo pochet.
Caldo – como o nome indica, é um caldo, um brodo. Normalmente é de cozido ou de jamón. Os restaurantes que servem cozido no almoço, servem o caldo do cozido no jantar. O caldo de jamón é feito com o osso da perna do porco, quando o jamón acaba, ou seja, eles aproveitam tudo, até os ossos!
Paella – alguns restaurantes ou bares, servem um pratinho de paella como aperitivo.
Empanadas – é um tipo de pastelão de forno. Podem ser como as empanadas sul americanas também, mas normalmente são servidas em fatias e não unidades. Uma muito apreciada é a empanada de bonito (um peixe).
Azeitunas – é comum serem oferecidas como cortesia e, para quem gosta de azeitonas, as espanholas são fabulosas.

Acredito que, com a lista acima, você possa se defender muito bem. Outra coisa muito comum, são as torradas. Na verdade, costumam ser chamadas de tostas ou pinchos. As tostas costumam ser uns torradões e os pinchos são um pouco menores. O que vem por cima, depende da criatividade do bar. Há os bocadillos, que normalmente são sanduichinhos para tira-gosto.

Uma curiosidade muito interessante, no passado, um rei (que nunca sei qual foi) achou que as pessoas estavam se embebedando demais e pôs em vigor uma lei obrigando a que toda bebida alcoólica vendida fosse, necessariamente, acompanhada de algo que comer. Obviamente, essa lei não existe mais, entretanto, a tradição ficou. Sempre que você pede alguma bebida alcoólica, a casa te oferece um pequeno aperitivo, como batatas chips, azeitonas, pedaço de tortilla, boquerones etc.

Um detalhe que expliquei uma vez, é comum os madrilenos jogarem seus lixinhos no chão do bar. O chão do balcão, e às vezes das mesas, fica sempre cercado de guardanapos usados, palitos, cascas de semente de girassol, entre otras cositas. Sei lá, você pode fazer isso sem ser mal visto, na verdade, até te dará um ar local, mas ainda acho meio esquisito. Deixo claro que estou falando de lugares informais, nos restaurantes mais elegantes isso não acontece.

Agora vamos às bebidas! Você pode pedir uma cerveza, eles te entenderão, mas de cara já saberão que é turista. Peça uma caña ou cañita e você já começou bem! Pode ser que ele te pergunte se você a quer “clara”, nesse caso, não significa a cerveja clara e sim uma combinação esdrúxula de cerveja com refrigerante! Arg! Negue até a morte!

O vinho, se você quiser em taça, peça una copa de vino tinto/blanco. Podem te perguntar qual e, nesse caso, como você pediu em copo, não quer dizer a marca, mas a região. Ou seja, normalmente, se for tinto é rioja ou ribera, e se for branco, aconselho um rueda. O vinho da casa costuma ser muito razoável, pode pedir sem susto, mas também sem grandes compromissos. Caso seja mais exigente, peça a carta de vinhos. Eles não costumam ser muito exploradores, nem cobram uma margem de lucro muito alta por garrafa. Não é impossível, mas dificilmente alguém pede a carta de vinhos se estiver na barra, isso é mais comum na mesa.

A cava, espumante espanhol, além da garrafa ou ½ garrafa, pode ser pedida em copa ou benjamin. A segunda opção é uma garrafinha pequena que serve uma taça.

A caipirinha vem alcançando uma popularidade inesperada, pelo menos para mim. Ainda não é encontrada em todos os bares, mas os que a fazem, anunciam isso em pequenos cartazes como uma vantagem adicional!

Bom, eles também fazem uma série de drinks que me recuso a explicar porque acho uma bosta! É uma mistureba de refrigerantes e energéticos que estou fora! Se quiser, pode tentar, mas não me comprometa!

Uma última explicação, caso você esteja na mesa e não na barra, há um tipo de ritual de atendimento que não deve ser quebrado. Primeiro, como já antecipei, porque vão te ignorar. Segundo, a gente não combinou que não era para parecer turista mané? Então, preste atenção que explicarei com toda a beleza e graça, de uma maneira muito espanhola.

Espere a garçonete vir até você, ela vai te dar os cardápios e perguntar o que você quer beber. A não ser que você queira um vinho específico e precise olhar a carta, seu único pretexto razoável, peça a porra da bebida nesse momento, ok? Como você não sabe o que quer beber? É caña, vino ou água, cacete! Vai ser o que? Suco de cupuaçu com granola?

Muito bem, nesse momento ela anotará suas bebidas e deixará o cardápio para você decidir o que quer comer. Não adianta pedir a comida junto com a bebida, você estará atrapalhando o ritual. Peça a merda da bebida e leia a porcaria do cardápio.

Daí ela chegará com suas bebidas e aí sim você poderá pedir o que quer comer. É permitido fazer algumas perguntas, tudo bem, mas você não já leu a lista que acabei de te passar? Então, que tanto você tem que perguntar? Pede logo a comida e não enche o saco!

A partir desse momento, como você seguiu todos os passos corretamente, a garçonete já passará a tratá-lo como um ser quase humano. Afinal de contas, você não estará atravancando o serviço dela. Só nesse momento, você pode fazer alguma brincadeirinha.

Convém lembrar que o senso de humor espanhol também é diferente do brasileiro. Assim como o humor inglês é sutil e o americano bobão, o humor espanhol é meio negro. Eles conhecem seus próprios defeitos e pouco se importam com isso, melhor é fazer piadas irônicas. Aqui não se dá gargalhadas generosas, se dá risadas de canto de boca e olhares expressivos.

Voltando ao nosso ritual, quando terminar de comer, ela perguntará se você aceita postre (sobremesa) ou café. Não adianta pedir o café e a conta, esquece. Toma a bosta do café e só depois pode pedir a conta. Não vai estragar logo no finalzinho, né?

Ela vai te perguntar como você quer o café. O nosso café expresso se pede café solo, caso queira com um pouco de leite, peça cortado. Pode ser pedido café con leche, mas nesse caso, provavelmente, virá em um copinho, com um pouco mais de leite. E se você pedir espreso (em espanhol se escreve assim), eles entenderão que é o café curto no estilo italiano.

E só aí você poderá pedir a conta. É possível que te ofereçam um chupito por cortesia. Não se preocupe, nem se empolgue muito, é só um copinho de licor digestivo. Esse chupito costuma ser oferecido na mesa, mas não na barra.

Chegada a conta, agora sim é sua vez! Não há uma gorjeta obrigatória na Espanha, na maioria das vezes, você deixa umas moedas arredondando a conta. Muita gente não deixa nada. Isso explica e muito a boa vontade do atendimento recebido. Agora, se é um lugar onde você quer voltar, você foi tratado com educação e gentileza, por que não colaborar?

Apesar das piadinhas, uma coisa digo, não importa a cultura, cada um elege como quer se comportar. Procuro não destoar do contexto nem fazer papel de boba, mas independente de como seja atendida, sempre sou educada. Até porque, sempre me restará a opção de ser educadamente firme e também de não voltar. Nada pior que perder a classe, mesmo que seja no balcão do boteco. Eles são mal humorados? Talvez às vezes, talvez um pouco, mas talvez seja só uma maneira de falar ou um dia ruim... Importa que saímos muito e, nos lugares que gosto, trato os garçons por seus nomes e com respeito, espero minha vez, deixo gorjeta e jogo lixo no lixo. E um segredinho entre nós, normalmente sou muito bem tratada.

76 – A Lei Antitabagista

No início de 2006, entrou em vigor uma lei super-hiper-polêmica que regula a comercialização e o consumo de fumo no país.

O cigarro mata cerca de 50 mil pessoas na Espanha por ano. Mas claro, como todo viciado, é difícil enxergar o mal que faz a si mesmo e aos demais. Portanto, isso vem causando uma série de debates acalorados que, para quem já está muito mais avançado nessa discussão, chega a ser cômico.

Na rua escuto absurdos, como pessoas dizendo que casais vão se separar porque se um dos dois não for fumante não terão mais lugares para ir juntos; que isso é coisa para o governo arrecadar mais impostos (como se a venda de cigarro não tivesse nenhum imposto); que todo comércio vai falir; que é só o início para o gorverno tirar a liberdade das pessoas etc.

Não sou a favor da proibição do fumo, por menos que goste dele, mas acredito na sua utilização de maneira civilizada e respeitando o nariz alheio. Nada como o bom senso de ambas as partes.

A lei não é tão rígida como fazem acreditar os fumantes, na verdade é até bem branda. Proíbe o fumo em locais de trabalho, quando não for ao ar livre. Em relação a bares e restaurantes, nos menores que 92 m2, o estabelecimento pode eleger se permitirá ou não o fumo, e a maioria quase absoluta optou por permitir. Nos locais maiores que 92 m2, pode haver uma área de fumantes, desde que seja separada e não ocupe mais que 30% do espaço total. Nas escolas e faculdades está proibido fumar nas salas de aula. Nos aeroportos há espaços separados para os fumantes. Convenhamos, muito razoável!

Ainda é cedo para saber o quanto trará de resultado, o quanto as pessoas realmente respeitarão a lei, mas ao menos é um começo e meus pulmões agradecem.

75 – O presunto tender e a lei de Murphy

Preciso parar de falar em comida, até porque tenho que iniciar uma dieta urgente! Essa é a única parte chata das festas de fim de ano: a dieta do início do ano! ¡Joder, tío que fuerte!

Bom, então só vou contar uma última historinha que ilustra a velha lei de Murphy. Passei semanas catando o diabo do tender para as festas e não achava em canto nenhum. Por sorte, como já contei, uma amiga trouxe da Alemanha e não ficamos tão aguados.

Pois muito bem, poucos dias após o Ano Novo, fomos com um casal de amigos ao Ikea. O Ikea é uma cadeia sueca de lojas que vendem tudo para casa, um tipo de Tok&Stok. Devido a sua nacionalidade, próximo à saída, eles possuem uma lojinha que vende vários produtos gastronômicos suecos. Na suécia, eles também comem o tender nas festas de fim de ano. Já deu para adivinhar o resto, né? Tinha um freezer inteiro de tenderes!

Pelo sim e pelo não, comprei logo dois e congelei. Não sei se eles só vendem no fim do ano. Mas agora, ao menos sei onde encontrar o raio do tender: em uma loja de móveis, claro! Super lógico!

74 – O Banquete

Adoro rituais e adoro comida! Imagine juntar esses dois prazeres. Agora adicione amigos queridos e vinhos perfeitos. O resultado é correr para o abraço!

Nem sempre tenho a oportunidade de fazer um jantar com todas as suas etapas, um banquete. Mas isso é bom, porque quando faço tem um ar de acontecimento. Normalmente, inicia com um vinho enfurecido comprado pelo Luiz, o que faz minha imaginação lembrar de mil sabores e tento selecionar qual seria o adequado para aquele vinho. Chego a ficar nervosa, ansiosa, mas é gostoso. Daí, precisamos esperar a ocasião certa, pois não se pode desperdiçar um momento assim impunemente.

Há pouco tempo, tivemos essa oportunidade. Fiz o jantar para Luiz e um casal de amigos.

O amouse-bouche foi um fois gras fresco, acompanhado de uma geléia de morango e goiaba. Servido com um Tokaji Oremus. O Tokaji é um vinho húngaro de sobremesa, mas fica delicioso com o fois gras e, nesse caso, vale à pena quebrar o protocolo e serví-lo no início. Também combinaria muito bem com um Sauternes.

A entrada foi um salmão defumado com molho de mel, limão, shoyo e um toque leve de gengibre, acompanhado de ovos duros recheados com caviar. Esses ovos são feitos da seguinte forma, cozinhá-los de maneira que a clara fique firme, mas a gema não fique totalmente cozida. Cortar os ovos ao comprido, retirar a gema, esmagá-la com um garfo e adicionar manteiga, creme de leite e um pouco de sal. Rechear as claras novamente com esse creme e colocar uma noz de caviar sobre o recheio de gema. Tomamos com uma cava Segura Viudas gelada como deve ser, também poderia ser uma champagne. É que, como começamos com um vinho de sobremesa, convém reiniciar o caminho com um branco ou um espumante.

O prato principal foi um pato crocante com molho de vinho, ameixas e ervas, acompanhado de dois tipos de cogumelos cozidos na manteiga e com um toque ligeiro de Porto. O vinho foi o campeão da noite, um bordeaux grand cru classé Château de Fieuzal 93, tratado com o ritual completo e no ponto perfeito para ser tomado. Todo o cardápio foi montado ao redor dele.

De sobremesa, queijos e retomamos ao Tokaji, agora com outro sabor. Pessoalmente, gosto muito desse vinho com roquefort e camembert.

Jantares assim me fazem sentir uma pessoa privilegiada por conhecer e desfrutar sabores. Por isso, quando tenho a oportunidade, adoro compartilhar esses momentos, cozinhar para as pessoas e oferecer a comida. Quanto mais as pessoas saiam da mesa se sentindo especiais como reis e rainhas, maior é minha satisfação. É minha linguagem favorita, uma maneira de me comunicar sem deixar margem para erros de interpretação. A comida é essencial, necessária para vida. Quando tenho a responsabilidade de oferecer um pouco dessa vida, que seja cheia de prazer!

73 – Hora da Contabilidade

Muito bem, deveria ter feito isso no fim de 2005, mas esqueci. Como estamos no comecinho de 2006, acho que ainda dá tempo de fazer a contabilidade do ano passado.
Por uma questão de ordem e registro, vamos contabilizar se o ano valeu ou não a pena. O que foi adicionado à vida em 2005?

Hóspedes que recebemos: 13
Amigos visitantes, brasileiros ou estrangeiros, que encontramos em Madri, mas não se hospedaram conosco: 11
Amigos que vieram em festas aqui em casa: 29 pessoas, algumas mais de uma vez
Outros amigos que conheci, mas ainda não vieram aqui em casa: 15
Antigos amigos, perdidos pelo tempo, que reencontrei através internet: 61
Alunos e professores do curso de espanhol: 26 pessoas (incluindo 3 amigas já contabilizadas nas festas)
Amigos de Atlanta: Aproximadamente 30 (esses entre 2004 e 2005)
Cidades em que estive: 16, em 5 países
Apartamentos em que morei: 4 (1 em Atlanta e 3 em Madri)
Exposições: 2 (poucas, mas considerando a confusão que foi o ano, não foi tão mal)

Somando tudo, noves fora, zero. Fechado! Conta redondinha e isso sim é um patrimônio! Caramba, acho que farei esse balanço sempre, ajuda a ver que, mesmo com os problemas e confusões, o ano foi muito bom! Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

72 – The day after

No primeiro dia do ano, surpreendentemente, não acordei tão tarde nem tinha um pingo de ressaca. Estava um pouco cansada, mas feliz com a noite anterior. Ainda não me sentia em 2006, mas fui aos poucos me habituando com a idéia de que o ano havia passado.

Quando acordei, Luiz já tinha lavado a louça e ainda ganhei um cafezinho na cama. Ai, ai, desse jeito me apaixono!

Saímos para dar uma volta com o casal de hóspedes que estava em casa. Fomos andar no teleférico que fica no “Paseo del Pintor Rosales”, bem próximo a estação de Argüelles. O trajeto é relativamente rápido, cerca de 10 minutos, e você pode ter uma ótima vista panorâmica da cidade. Saltamos em “Casa de Campo”, onde há uma espécie de mirante e uma cafeteria que estava fechada. Depois voltamos no próprio teleférico. Foi interessante, pois já conheço bem a cidade e pude reconhecer os principais pontos e monumentos. Além do que, o dia estava lindo e não tão frio.

Quando voltamos para casa, bateu aquela fome! Daí, fomos ao melhor dos dias seguintes de festas: o enterro dos ossos! Isso para mim é um mistério, por que a comida rotineira no dia seguinte tem gosto de velha e a comida de festa tem gosto melhor? Bom, agora meus convidados vão saber meu segredo, mas escondi um pedaço do tender para comer no dia seguinte. Tá bom, tá bom, sei que é feio, mas juro que foi um pedaço bem pequeno e, afinal de contas, quem parte e reparte e não leva a melhor parte...

Depois disso, morgamos em casa, veio aquela preguiça boa. Minha amiga queria aprender a pintar com aguada e dei umas dicas para ela, ficamos fazendo nossa arte despretenciosa.

Nessa noite, nossos hóspedes prepararam o jantar, um curry de sabor exótico. A receita é, basicamente, fritar a pasta de curry com frango, adicionar leite de côco, beringela picada, ervilhas e molho de peixe. Come-se com o arroz basmati, feito só na água e sal. Como ainda nos restava um pouco de farofa da noite anterior e o prato é mais picante do que estou acostumada, Luiz e eu partimos para culinária fusion e comemos o curry junto com a farofinha. Para o desespero do amigo alemão que achou que estávamos estragando a comida. I don’t care! Tenho certeza que os tailandeses só não utilizam a farinha de mandioca porque não a conhecem, pois a combinação é bárbara! De qualquer forma, estava uma delícia e aprendi mais uma receita.

Conversamos até o sono nos carregar para cama. A primeira segunda-feira do ano já estava ansiosa batendo na porta e querendo entrar. Pela manhã, bem cedo e ainda escuro, nossos amigos voltaram para Alemanha.

A casa ficou um pouco vazia, mas com um bom astral. Acho que começamos bem esse ano.

71 – A Festa de Ano Novo

Conforme prometido anteriormente, agora conto a super festa de Ano Novo. Foi dividida em duas etapas, a primeira aqui em casa, onde jantamos e brindamos com os amigos. A segunda, depois da meia-noite, quando fomos a um clube para celebrar dançando até cansar.

Na primeira etapa em casa, estávamos em 14 adultos e 2 crianças. Como de costume, a boa e velha torre de babel: brasileiros, alemão, ítalo-argentinos e mexicanas. Algumas vezes era uma confusão de idiomas, mas gente boa se entende em qualquer língua.

Porque não começar contando sobre as comidinhas? Fora os aperitivos, fiz saladas (verde, de batatas e de cogumelos), arroz branco, farofa com bacon e manteiga, um lombo de porco, uma carne de boi assada e...tcham, tcham, tcham, tcham... um tender! Aqui em Madri não existe tender de jeito nenhum, mas minha amiga brasileira que mora na Alemanha trouxe um de lá! Foi um sucesso! Ai, que vontade que estava de comer tender! A outra amiga brasileira que mora em Madri fez as lentilhas, adorei porque tinha me esquecido e, no dia mundial da superstição, sempre é bom dar uma forcinha para sorte.

As sobremesas, não fiz nenhuma, nossos amigos trouxeram um pudim de leite brasileiríssimo, um pudim light (que, preconceituosamente, só provei no dia seguinte e estava ótimo!), uma torta de sorvete, um panetone italiano coberto de chocolate, bombons e a também brasileiríssima combinação de goiabada com queijo.

O amigo que trouxe os pudins, de quebra nos trouxe de presente uma carne seca, paio, cachaça e café brasileiro. Olha que máximo! Desconfio que minha fama de gulosa está se espalhando rapidamente pelo mundo!

Dei uma mancada corrigida pelos nossos amigos. Achei que havia quatro garrafas de cava na geladeira e tinham duas. Como a geladeira estava abarrotada de comida, só percebi isso uns 15 minutos antes das pessoas começarem a chegar e gelei! Como faríamos o brinde? Quer dizer, dava para dividir, mas ia ficar pouco e é chato, né? Pois até nisso a noite conspirou a nosso favor. Três dos nossos amigos trouxeram garrafas de champagne e ainda por cima da mesma marca, Moet Chandon! Parece até que tinham combinado! Se sorte já é bem vinda, imagina sorte acompanhada de classe!

A maioria das pessoas tomou vinho. Eu, fui direto para o single malt, porque sabia que a noite seria longa e estava animadíssima! Claro que na hora do brinde, fui para o champagne, como não?

Aliás, gente, mas que brinde estressante! Ocorreu que havia tradições e superstições diferentes dos países dos convidados e daqui, e eu queria cumprir todas! Na Alemanha, a gente precisa brindar olhando nos olhos de cada pessoa, caso contrário, são sete anos de vida sexual ruim. Na Espanha, a gente come doze uvas durante as doze badaladas finais do ano. No Brasil, gosto de entrar o ano com o pé direito, portanto levanto o esquerdo. E o brinde de champagne acho que é universal. Isso quer dizer que, quase rompendo à meia-noite, com o rádio ligado para noticiar as badaladas e todos os amigos reunidos, estava eu como uma alucinada saci-pererê pulando de um pé só, quase entalando para comer doze uvas no último minuto e tendo que brindar com todos os convidados olhando nos olhos! Caramba, é muita informação ao mesmo tempo! Sobrevivi ao brinde sem me engasgar com as uvas, sem me estabacar no chão e garantindo os próximos sete anos de boa vida conjugal! Ufa!

Depois disso, fomos para janela ver o movimento. No prédio da frente, havia outra festa que parecia bem animada. Ficamos nos falando e brindando pela janela. Até que na rua vimos umas quatro pessoas correndo e morrendo de rir com umas malas pelo quarteirão. É uma outra superstição, acho que sul americana, para quem quer viajar durante o ano. Alguns minutos depois, elas voltaram correndo novamente e entraram no mesmo prédio da festa da frente, não sei se estavam juntos, mas nós e a festa da frente ficamos na maior bagunça da janela rindo de tudo.

Por mim, a noite de reveillon já tinha valido por aí, se soubesse que as pessoas estariam com o astral tão alto e me divertiria tanto em casa mesmo, acho que nem teria proposto continuar a festa pela rua. Mas nossos ingressos estavam comprados, então partimos para a segunda etapa.

Não fomos todos para o mesmo local, nesse momento nos dividimos. Alguns foram para casa, alguns foram para o Lolita Lounge, um foi trabalhar e eu, Luiz e nosso casal de hóspedes fomos para a Kapital.

A Kapital é uma boite de sete andares, com ambientes diferentes em cada andar. Nos foi recomendada por madrileños como um dos melhores pontos para ir no reveillon. O lugar realmente estava animado e super cheio. É verdade que no início, quando tivemos que enfrentar uma fila enorme para guardar os casacos e pegar as bebidas, cheguei a desanimar um pouco e achar que havíamos entrado em uma tremenda roubada. Entretanto, logo depois começamos a dançar e relaxei.

Adoro dançar! É um momento quando me desligo de quase tudo e aproveito. Aparentemente, havia gente que se desligava muito mais que eu. Foi impossível não notar e não me divertir observando outras pessoas dançarem. O lugar tem a forma de um teatro, talvez até fosse um antigo teatro, ou seja, há um palco onde costumam haver performances durante a noite. Quando não há ninguém se apresentando, os próprios frequentadores do lugar sobem no palco e dão seus espetáculos particulares ou em grupo. Francamente, são muito melhores e mais engraçados que os profissionais! Como tem gente cara-de-pau! Lógico que também tem os alcoolizados, mas faz parte da festa. O bom é que não vi nenhuma briga.

Por algum motivo que ainda não descobri, mas vou investigar, muita gente se veste como se fosse a um baile de formatura. Os homens usam terno, colete e gravata e as mulheres usam vestidos de festa. Os vestidos, para o meu gosto, são muito cafonas. Algumas usam até luva! Isso misturado às fantasias de fim de ano é uma salada completa! Sim, porque aqui eles se fantasiam um pouco nessas festas, usam perucas, chapéus, máscaras etc. Além do que, a festa era completamente informal, como um carnaval, e as pessoas estavam se acabando de dançar de paletó e gravata! Era um pouco contraditório, mas não deixava de ser divertido.

Pouco depois das 5 da manhã, me compadeci do Luiz e dos nossos amigos e perguntei se eles já queriam ir, assim evitaríamos outra fila para pegar os casacos. Demos muita sorte ao sair, pois achamos um taxi quase na porta e voltamos para casa.

Chegando no apartamento, fui tomar meu primeiro banho do ano. Lavei meu cabelo que cheirava a cinzeiro e, pelo sim e pelo não, improvisei as sete ondas puladas na banheira mesmo.

Aliás, esqueci de contar essa parte da noite que também foi muito boa. Um pouco antes dos meus convidados chegarem, fui para internet falar com minha família, novamente utilizando a webcam e vendo como estava a festa por lá. Claro que na casa dos meus pais havia uma grande festa! Eles moram bem de frente para a praia no Rio de Janeiro e no reveillon é como assistir aos fogos de camarote. Falei com meus pais, primos e quem passasse pela frente da câmera. Normalmente, no último dia do ano faço uma retrospectiva mental do que passou e priorizo, por alto, alguns objetivos. Esse ano não fiz isso. Nenhum motivo específico, acho que estava ocupada ou pensando em outras coisas. Mas fui puxada à realidade com uma pergunta feita pela minha mãe. Conversando com eles, pedi um representante brasileiro para pular as sete ondas para mim na praia. Minha prima, gentilmente, se ofereceu e perguntou o que ela deveria pedir. Minha mãe me repetiu a pergunta, o que você quer pedir? Me pegou de surpresa, não conseguia pensar em nenhum desejo único e forte. Sabe de uma coisa? Não precisa pedir nada, só agradecer. Do resto, a vida sozinha se encarrega, só precisamos aceitar o convite.

70 – O parque do Retiro e seus tambores

Moro perto do parque do Retiro. É como um “central park” de Madri. Grande, democrático, agradável e bem conservado. Ali você pode praticar sua corridinha diária (a sua, porque eu não corro nada!), sentar pela grama se o tempo favorecer, visitar os centros culturais com exposições interessantes, andar de pedalinho ou barquinhos a remo, namorar, brincar com os filhos, enfim, várias opções para o dia!

Uma coisa me chamou atenção logo na primeira vez que fui lá, um som de tambores. A medida que chegamos perto do laguinho, esse som vai aumentando e o sigo hipnotizada até encontrá-lo. Em frente ao lago, há um tipo de monumento, formado por uma construção de colunas em semi-círculo. Nesse local, principalmente aos domingos, se encontram muitos jovens com tambores e iniciam uma batucada que me soa como um mantra tribal. Nem sei se eles se conhecem ou vão chegando e se agrupando, são muitos. Não há um ensaio nem uma música específica, o som parece que vem de dentro, como se buscasse uma origem há muito tempo atrás. E não é que fica bom?

Daí, outras pessoas vão se agrupando em volta, algumas começam a dançar e outras simplesmente se sentam pelas escadas e aproveitam o sol. Assim como eles, é ali que também tenho vontade de ficar. É engraçado essa coisa do ser humano gostar de se agrupar. Por que a gente faz isso? Parece um instinto de sobrevivência que fala mais alto até quando não corremos risco nenhum.

Quando Luiz me perguntou o que queria de Natal, não tive dúvidas: um tambor! Ganhei um, chamado Djembe, sua origem é o oeste africano (Mali, Guinea, Senegal) . Era utilizado para cerimônias, rituais de passagem, adorações ancestrais, rituais guerreiros e danças. Importa que é um tambor e há anos quero um. Agora, normalmente depois do café da manhã, sempre batuco um pouco, de mansinho para os vizinhos não reclamarem. Será que na primavera tomo coragem de levar meu tambor para passear no parque do Retiro?

69 – Os Idiomas dentro da Espanha

Quando te perguntam que idioma se fala na Espanha, qual é a resposta mais óbvia? Espanhol, claro! Certo? Médio.

O castellano é apenas uma das quatro línguas que se fala na Espanha. Isso sem falar dos sotaques, que às vezes soam como dialetos de tão distintos!

Vamos por partes, ao noroeste, acima de portugal, há uma região chamada Galícia, onde se fala gallego. É quase um misto de castellano com português. Inclusive, olha que legal, se você fala “portunhol” e não quer admitir, diga que fala gallego. Muito parecido!

Ao norte, temos a região Basca, onde se fala euskara. Nem se parece com espanhol! Francamente, não entendo chongas ao cubo!

Pelo leste, que inclui Barcelona e Valência, se fala catalão. Quer dizer, em Valência, eles dizem que falam valenciano, mas para mim e boa parte dos espanhóis é a mesma coisa. Esse dá para entender, se falado devagar. Algumas palavras lembram o português do Brasil, sem o cantado de Portugal.

E no resto, que inclui Madri, se fala o castellano, conhecido mundialmente como espanhol.

Entretanto, em algumas regiões ao sul, o sotaque é tão marcado que parece mudar a língua. Por exemplo, a palavra “escucha” (escuta), soa como “úushaa”. A palavra “quitado”(tirado), soa como “quitao”. Eles engolem “d”, “s” e sabe-se lá mais o que!

Sabendo disso, não parece incrível que no Brasil, com esse tamanho todo, a gente ainda consiga falar a mesma língua!

68 – O Natal e as coincidências

Passamos o Natal em Madri, aqui em casa mesmo. Jantaram conosco um casal de amigos muito queridos e seu filho. Foi surpreendentemente bom, pois não digo que não bateu uma saudade, mas depois da ceia, fomos para internet e vi pela câmera uma parte da minha família em uma festa que me pareceu animadíssima.

Meus pais e meu irmão foram passar o Natal em Belo Horizonte, a maioria da família por parte do meu pai está lá. Na casa da minha tia, meu primo instalou uma webcam e pudemos fazer um encontro virtual. Além dos meus pais e meu irmão, vi meu avô, meus tios e primos, com direito ao fundo musical do meu tio tocando carinhoso e a aparição da mais nova priminha que nasceu quando eu já estava fora do Brasil, uma fofa! Viva a tecnologia!

Também falamos por telefone com a parte da família do Luiz. Pena que não foi com o video, pois a imagem é sempre muito forte, mas também foi bem gostoso. É sempre bom saber que quem a gente gosta está bem e bem acompanhado.

Aqui em casa, fiz o tradicional lombo de porco, recheado de damasco e pêssego, coberto por uma camada de presunto cru. Minha amiga trouxe o peru e uma cheese cake deliciosa. E claro, havia os básicos arroz branco, bem refogado, e uma farofinha na manteiga e alho. Acompanhados da sequência campeã de cava, vinho tinto português e um vinho de sobremesa catalão.

De presentes, ganhei um tambor do Luiz e dei uma bota de esquiar para ele. O Jack, nosso famoso gato, ganhou uma poção extra de patê, além do direito a permanecer na festa. Nossos amigos, conhecendo nossa fama de gulosos, nos deram uma lata de biscoitos amanteigados dinamarqueses.

E agora que contei o Natal, vamos às coincidências. Nós fomos padrinhos de casamento desses amigos, há uns cinco anos atrás, no Brasil. Nessa época, todos nós morávamos em São Paulo. Depois disso, eles foram para Suécia e nós para os Estados Unidos. Esse ano, mudamos juntos para Madri, por caminhos e motivos diferentes, quase no mesmo mês!

Achou pouco? Então, conto mais uma. Uns dois dias antes do Natal, recebi um presente muito bacana, fui aceita na pós-graduação da Universidade Complutense, no curso de Teoria e Prática em Arte Contemporânea. Na verdade, fui aceita junto com uma amiga brasileira que preciso voltar no tempo para contar a história. Na minha época de colégio, estudava em Brasília e com uns doze anos conheci essa amiga. Depois disso, o mundo deu muitas voltas, mudei várias vezes, nos encontramos e desencontramos pela vida. No ano passado, morando em Atlanta, um dos meus passatempos era buscar amigos perdidos pela internet. Acabei achando essa amiga e fiz contato. Ela respondeu e descobri que sua irmã morava em Madri, cidade para onde já sabia que me mudaria. No início desse ano, quando morava aqui, ela veio visitar sua irmã e nos reencontramos. Curiosamente, tínhamos muitos pontos em comum e um interesse na mesma área, artes. Daí começamos a buscar cursos para fazer e tal. Encurtando a história, vinte e quatro anos depois, estudaremos juntas outra vez, agora aqui em Madri!

Continuando, essa não é exatamente uma coincidência, mas um capricho do destino. Morando nos Estados Unidos, conhecemos um amigo americano que estava em plena crise existencial, tentando mudar sua vida radicalmente. Essa história é bem longa, mas também encurtando um pouco, com nossa vinda para a Espanha ele ficou muito inspirado e achou que poderia ser a mudança que ele tanto desejava. Nos visitou como hóspede, há alguns meses atrás e esse mês veio com a esposa para que ela também conhecesse a cidade. Pois não é que também estão tentando se mudar para cá!

Será que Madri está na moda?

No dia 26 de dezembro, chega um casal de amigos para passar o reveillon conosco. Ela é brasileira, a conheci no Rio de Janeiro, quando ainda solteiras morávamos lá. Ela foi nossa madrinha de casamento. Depois disso, conheceu seu marido alemão em Nova York e foram morar em Munique. Agora, moramos todos na Europa. Não chega a ser a mesma cidade, mas acho que pode entrar para o grupo de coincidências.

Enfim, voltando às festas, foi um feliz Natal. Agora é esperar a virada do ano, mas essa é uma outra história...

67 – Crônica intelectual

Acabo de ter um insight imprescindível para a humanidade: o inverno é a TPM do ano! Ahora, me voy rapidamente, antes de pensar em alguma outra pérola! Fui.

66 – E saiu meu NIE

O documento de identidade para estrangeiros aqui na Espanha se chama NIE. O meu, finalmente saiu. Após oito meses de espera, nem posso dizer que foi um parto prematuro, pois nada que sugira antecipação é adequado. Não é que estivesse ilegal no país, enquanto você está no processo e cumprindo todos os passos, pode continuar morando legalmente. Mas você só sente que a coisa toda funcionou quando tem sua carteirinha de identidade.

Esse processo de nova documentação é uma coisa muito estranha. No Brasil, tenho carteira de identidade desde os doze anos de idade. Antes disso, já tinha as carteirinhas de estudante do colégio. Ou seja, desde que me entendo por gente, sempre tive documento. Entretanto, nunca percebi sua importância até que passei a ser uma “imigrante”.

Começa com o termo “imigrante”. Soa como algo alienígena, como se o planeta terra não fosse único. O termo nos EUA, inclusive, é “alien”. É como se todo seu passado fosse nada de repente e você só voltasse a ser humano quando seus documentos locais estiverem na sua mão, fisicamente falando. Daí um dia esse documento chega e você percebe que é exatamente a mesma pessoa. O céu não abre, não tocam trombetas nem há uma banda na sua porta para te receber. É só parte do procedimento. Resulta que a carteira de identidade é só a carteira, não a identidade.

Não aparece no meu documento que fui convidada a vir, que pagava minhas contas ou que sou honesta. Muito menos fez alguma diferença no meu sotaque. É só um pedaço de plástico com minha foto. Alías uma foto que nem parece mais comigo de tanto que demorou a sair.

E a pergunta nesse momento é, deveria voltar? Quero voltar? Por que não volto? E a dura verdade é que tenho sérias dúvidas se quando voltar, e se voltar a morar no meu país, me sentirei brasileira.

Não é uma reclamação, a escolha foi minha. Sou do tipo tubarão, se parar morro e sei disso. É só o preço que se paga e não é baixo. Não estou triste nem só, acho que é apenas o inverno. Talvez por isso goste tanto da primavera.

No dia em que busquei meu documento, uma figura me chamou atenção por duas vezes. A primeira vez, quando em algum momento olhei para ver quem era o primeiro da fila. Era um homem negro, muito alto, com um rosto tão bem traçado que parecia um desenho animado. Ele devia estar morto de frio, porque começou a enrolar seu cachecol em volta da cabeça até que só os olhos ficaram de fora. Fez isso com uma habilidade de quem está acostumado a fazê-lo para se proteger do sol, como um tuareg. Fiquei pensando, talvez seja outra criatura dos trópicos, como eu, tentando se habituar com o frio. Esqueci, mas alguns minutos mais tarde, o vi saindo com seu documento na mão. O lenço não estava mais no rosto e, olhando seu NIE, abriu um sorriso tão largo que quase me fez valer à pena a hora perdida na espera da fila. Era o sorriso que havia planejado dar e não dei. Acho que ele é mais sábio que eu.

65 – Sobre o Ano Novo

O dia de Ano Novo é a data que mais gosto de todas! É o fechamento de um ciclo. O lugar que prefiro passar a noite de reveillon é em Copacabana. Acho lindo o ritual das pessoas vestidas de branco se misturando nas calçadas e na areia.

É como se conhecêssemos a todos e marcássemos um grande encontro. Parece que ligamos para estranhos e dizemos: ...e como vamos nos reconhecer? Vou de branco! Fechado, eu também! E assim nos encontramos na praia, como antigos conhecidos que celebram juntos.

Alguns anos arrisquei pensar em vestir outra cor. Mas na hora que estou quase pronta, me sinto como se estivesse traindo o grupo. Volto correndo e troco minha roupa por branca! Agora sim.

Nem sempre posso passar no Rio e também aproveito em outros lugares. Mas, para mim, é muito importante que tenha água por perto.

Nos dias de Natal e Ano Novo sempre houve muita festa nas casas da minha família. Quando minhas avós morreram, e as duas faleceram no mesmo ano, houve um longo luto. Respeitei esse luto e o entendi, mas nunca participei dele. Minha saudade das minhas avós é assunto meu e só foi tristeza nos primeiros meses, depois mudou.

Felizmente, um dia minha mãe se cansou da tristeza de fim de ano e as festas voltaram a acontecer na casa dos meus pais. Agora é novamente um ponto de encontro para família e amigos.

Nessa época, ainda penso nas minhas avós e em meus outros mortos. Lembro com o mesmo respeito dos canibais que digeríam seus adversários na esperança de incorporar seus dons.

Quando minhas avós faleceram, deixaram heranças. Ambas tinham qualidades que admiro e não possuo. O que mais me impressionava era como eram mulheres de fé. Minha mãe herdou essa crença e hoje carrega o peso e a benção da fé da família. Herdei a proteção da alma de duas bruxas boas e o amor da terceira. E é por isso, e só por isso, que os deuses fazem vista grossa à minha displicência, ao meu senso crítico cáustico e à minha arrogância atrevida em sempre achar que posso tudo. Sabem que isso é assunto nosso, das mulheres da casa. E é também com uma mulher que acerto as contas no final.

No último dia do ano sou puxada para o mar. Depois da meia-noite, preciso me encontrar com a água, na forma em que ela estiver. Volto ao meu elemento natural para dele sair renascida. Mergulho com meu ceticismo e descrença e levanto com os cabelos mais compridos. Nesse dia me permito a contradição e o alívio da fé. Pulo as sete ondas e me lembro que, apesar do meu ateísmo, sou filha de Iemanjá.

64 – As Luzes de Natal

Agora sim Madri está pronta para o Natal! Mil luzes acesas pela noite madrileña! Árvores natalinas reais ou estilizadas, luzes brancas ou coloridas e presépios de todos os tamanhos. Aliás, presépio aqui se diz “belén”, como a cidade.

Tentei comprar uma árvore de natal, mas só achei umas cafoninhas. Daí resolvi fazer eu mesma uma modernosa, Luiz me ajudou a decorá-la. No Brasil, tinha uma “caixa-de-natal” onde guardava uma árvore, vários enfeites e velas. Adorava o dia de abrir a tal caixa! Antes de mudar, me desfiz da mesma. Não me arrependi, alguém estará aproveitando nesse momento. Mas me deu uma vontade danada de montar outra, o problema é onde guardar essa tralha toda depois!

As ruas, como de costume, estão abarrotadas de gente! Inclusive, muitas crianças. Dá uma falta de paciência para entrar nas lojas, porque tem fila para tudo! Também, nem tenho para quem comprar presente agora mesmo. Tô reclamando por que, né? Melhor esperar um pouco e aproveitar as liquidações.

Mas nos supermercados tenho que ir e, cassilda, haja saco! Só tenho tido tempo nos sábados e, aparentemente, todo mundo tem a mesma idéia, pelo menos, todas as pessoas-rolha. Vocês não imaginam o que estou sofrendo depois de ter revelado o segredo da conspiração-rolha. Enfrento terríveis congestionamentos de carrinhos de compra! ¡Joooooder!

Vá lá, tudo passa quando vejo aquelas luzes acesas e me sinto em uma vitrine gigante. Ando sempre na torcida que o músico da rua daquele momento toque saxofone!

No dia 24 haverá uma festinha aqui em casa, no jantar. No dia 25, almoçaremos na casa de amigos. Mas até agora, não achei tender, acho que eles não comem por aqui. É uma pena porque adoro tender e só lembro de comer no fim de ano, acho que vai ficar para o próximo.

O importante é, na falta do resto da família, poder passar com Luiz e amigos. E mais uma vez, temos a sorte de ter bons amigos!

Gente pelo mundo todo, Feliz Natal!

63 – A despedida do curso de espanhol

Até que enfim acabou meu curso de espanhol. Foi excelente e é verdade que melhorei sensivelmente no idioma, recomendo. Por outro lado, já não tinha muita paciência para esse negócio de aula todos os dias, chamada, dever de casa... Sei lá, acho que estou velha para isso.

Bom, no último dia do curso, combinamos de sair depois da prova final. A grande maioria dos alunos voltará para seus países de origem, poucos ficam por Madri. Fora as três amigas que vieram na minha casa para o aniversário, com os outros, nunca saí antes, acho que eles também não saíam juntos. Tinha dúvidas se me divertiria. Cerca da metade da turma é de americanos, nada contra, mas fiquei pensando se eles começariam a só falar em inglês e pareceríamos turistas pela noite madrileña. Estava errada.

A maioria do grupo, me incluindo, saiu direto da aula para um bar, o El Buscón. Quem organizou nossa ida para lá foi a estudante francesa, minha primeira amiga do curso. Foi engraçado andar novamente pela rua com um bando de pessoas juntas. Me senti um pouco adolescente, mas relaxei logo e curti a sensação. O restante do grupo foi primeiro em casa se arrumar e nos encontraram no bar. Digo, no primeiro bar, pois foi uma via crucis! Aliás, isso é muito normal por aqui, dificilmente vamos a um lugar só.

Nesse primeiro bar estávamos em dezessete pessoas. Luiz me encontrou lá, depois do trabalho. Só pôde nos acompanhar nesse lugar, pois tinha que trabalhar cedo no dia seguinte, mas pelo menos aproveitou um pouco.

Dalí, os americanos tinham um jantar de despedida e também se foram, com a promessa de nos encontrar mais tarde. Nunca acreditei que realmente fossem voltar, mas de novo, estava errada.

Um dos professores apareceu e fomos para o segundo bar, o Malaespina. Nesse, estávamos em seis pessoas, entre elas, minha amiga koreana preocupada com o horário de voltar para seu apartamento. Ofereci que ficasse em minha casa, bom para mim que voltava com companhia e bom para ela que podia ficar à vontade.

É engraçado conhecer as pessoas fora do ambiente de trabalho ou de estudo, no caso. Todos estavam mais descontraídos e as diferenças de idades e de nacionalidades não faziam mais nenhuma diferença.

Esse segundo bar foi escolhido pelo alemão. Dois minutos depois de entrarmos lá, descobrimos o motivo de sua escolha, estava apaixonado pela garçonete russa. Aparentemente, vivia por lá. De qualquer forma, também foi divertido e o lugar era legal.

Sem nenhuma vontade de voltar para casa e recebendo ligações dos americanos querendo saber qual era a próxima parada, nos animamos a sair para dançar. Dessa vez, sugeri eu, o Berlin Cabaret. Acho que já comentei que é um dos meus lugares favoritos em Madri, mas às vezes pode estar muito cheio e não tão bom. Nessa quinta, estava perfeito!

Os americanos apareceram super animados e voltamos a ser um grupo grande. Cantei as músicas que sabia e inventei as que não conhecia, até porque ninguém escuta mesmo, então qual é o problema, né? Finalmente, aprendi a dançar como se ninguém estivesse olhando e pouco me importou. Parecia que éramos velhos amigos de longa data. Nos acabamos de dançar até às cinco da manhã, só paramos quando começaram a acender as luzes e desconfiamos que o lugar iria fechar.
Lá no Berlin, talvez porque seja pequeno, é comum que as pessoas se falem. Quem está mais perto do balcão acaba ajudando quem está mais atrás a fazer os pedidos, coisas assim, muito civilizado. No fim da noite, alguém veio nos perguntar se éramos um grupo de alguma empresa saindo juntos. Não éramos, mas achei curioso e acredito que a pergunta me explicou porque me sentia tão bem. Não sei se verei essas pessoas no futuro, algumas talvez sim, a maioria provavelmente não. Mas sei que nesse dia Madri foi uma cidade pequena e familiar, fomos uma mesma turma, uma galera, e foi muito bom.

Wednesday, October 18, 2006

62 – Saudade

Hoje senti saudade.

Isso nunca foi realmente um problema para mim. Não sei se por sorte, por experiência ou pela minha natureza, aprendi a lidar com a saudade e a solidão muito cedo. Falo também da solidão porque esses dois sentimentos estão sempre, de alguma forma, ligados. Acho que não sinto nem mais nem menos que ninguém, mas entendo que faz parte da vida e que não pode te limitar. Acredito que nem sempre é mau.

Algumas vezes, é até difícil saber se estou com saudade ou não. Acho que não penso muito nisso. Pode ser porque em alguns casos confundo com nostalgia. Nostalgia é diferente, a gente sente um tipo de saudade, mas não quer voltar a fazer as mesmas coisas. É algo resolvido. Saudade a gente quer de novo.

Hoje, andando na rua, me senti um pouco aborrecida. Na verdade, antes de sair já estava sem muita vontade de levantar. Tem vezes que o inverno te faz isso. O frio e as árvores com cara de meio mortas podem te baixar um pouco o astral. Mas notei que não estava brava com nada nem exatamente triste. Até que me dei conta que estava era com saudade.

Deu vontade de sentar em um bar com Luiz e meus amigos. Não sei por que, mas me vinha na cabeça o Manoel e Joaquim, de Moema. Talvez porque tenha sido o último bar que fomos com amigos antes de mudar. Ouvi muitas gargalhadas na minha língua e meu sotaque meio misturado parecia não fazer nenhuma diferença. Também pude me imaginar pegando um avião às pressas em segredo para Rio, quem sabe com a cumplicidade do meu irmão, e aparecer sem avisar na casa dos meus pais. Depois ligar para alguns amigos, fingindo decidir para onde ir, e acabar indo à Academia da Cachaça e pronto.

Senti na boca o gosto do sanduba de pernil do Mercado Municipal; quase passei mal de tanto que comi na casa da minha família paulista; vi os fogos de Copacabana, não nos barcos chatos de agora, mas aqueles que eram na areia e imitavam coqueiros gigantes; almocei com as lulus; fui ao Santa Maria comer salada de frutos do mar com champagne e comprar bem casado; li a lista de compras da amiga-que-mandava-em-minha-casa e fui buscar no Pão de Açúcar; desci a rua Augusta de carro, feliz mas com vontade de chorar, depois da exposição da Paulista; pendurei pêndulos imaginários no MAM; reclamei do trânsito e do rodízio absurdo; participei dos encontros da minha turma de colégio e tiramos várias fotos; ouvi Pink Floyd me sentindo inteligente; subi o morro da Urca para as Noites Cariocas; fiz escova com minha cabeleireira favorita e acreditei outra vez que meu cabelo é liso; fui numa festa junina e tomei capeta só para lembrar dos velhos tempos; preparei uma moqueca para os meus sogros; inventei fantasias de papel para meu sobrinho; reencontrei meus primos; participei do amigo-ladrão e meu presente foi o mais disputado; fiz obras nos apartamentos e pintei muitas paredes. Fiz um monte de coisas hoje!

Caramba, deu saudade e me pegou de surpresa.

61 – Adoro um balcão!

Adoro um balcão de bar! Deveria ter aprendido isso no Rio de Janeiro, a cidade especializada em botecos. Não aprendi por um motivo muito simples, desculpa gente, sei que é uma coisa horrível, que é possível que seja execrada com toda razão, é algo imperdoável, repugnante, tentei modificar acreditem, mas eu não gosto de chopp nem cerveja. É duro! Foi um trauma na época em que morei no Rio, um problema social, PORQUE NINGUÉM PERGUNTA O QUE VOCÊ QUER BEBER, o garçon simplesmente conta as cabeças e pergunta em voz alta, de maneira retórica, “x”chopps? Daí tinha que me manifestar timidamente, 20 cm menor que minha altura original, e dizer: é que não tomo chopp. Os olhares confusos se dirigiam a mim, junto com o garçon com um ponto de interrogação na testa, como assim não toma chopp? Será que ela tem algum problema, coitadinha!

Cheguei a tomar as terríveis sangrias só para ter alguma opção alcoólica fresquinha nos bares. Quando mudei para São Paulo facilitou minha vida, o clima mais ameno da cidade me dava outras opções, como o whisky. Além de poder apreciar a deliciosa cachacinha, entre minhas bebidas favoritas. A cultura do vinho ainda era iniciante. Sou da época onde um restaurante oferecia as opções “vinho branco” e “vinho tinto”. Depois melhorou, você ainda podia escolher entre seco e suave (mesmo que fosse só no nome). E eu, burramente, escolhia suave, putz! Que mancada! Em seguida, como todo mundo já sabe, veio o alemão fraquinho da garrafa azul, com gostinho de uva, que abriu corajosamente caminho para outros vinhos e experiências mais interessantes. Descobri que não era que não gostasse de vinho, é que não gostava de vinho ruim! Bom, hoje nem preciso dizer, mas São Paulo é a melhor cidade para se beber e comer do mundo.

Não bebo tão intensamente assim, nem acho que uma pessoa precise de álcool para se divertir. Bebida, pelo menos para mim, é algo social, deve vir junto de algum motivo e sem prejudicar ninguém. Caso contrário, perde a graça. Não sabe brincar, não brinca!

Mas vamos lá, em um balcão de bar, qual é a graça em pedir coca-light? O balcão te convida a interagir, tem um “quê” de ritual, é um lugar para os iniciados. Não tem a formalidade das mesas, não é para namorar, não é para segredos. O balcão é para amigos.

Aqui encontrei meu chopp! Adoro cava, o espumante espanhol. Também há a possibilidade de pedir uma copa de vino. Pronto! Resolvi meu problema dos balcões de bar e finalmente desfrutei essa delícia que é beliscar descompromissadamente em pé ou nos bancos altos de apoio.

Ainda amo os jantares românticos e formais, mas mantenho minha fisolofia que um prazer não precisa eliminar o outro. Por exemplo, há um restaurante e bar que adoro, o “Finos & Finas”. Apesar do nome meio brega, tem uma cozinha excelente e criativa! Para um jantar mais elaborado, nada como o atendimento da super simpática Marta. Ela te indica os vinhos corretos, te explica os pratos com boa vontade, uma gracinha! Mas houve o dia em que chegamos sem reserva com um amigo americano, já meio tarde, e não havia mais mesas. A cozinha estava praticamente fechada. O Luis (não o meu marido), gente boa como qualquer barman, disse meio sem graça, se vocês quiserem, podem ficar pelo balcão que tento pedir na cozinha algo mais simples. Se alguma coisa aprendi na noite é saber em quem se deve confiar. Na mesma hora, Luiz (esse meu marido), eu e nosso amigo, concordamos quase que em coro: fechado! O que você disser a gente topa! Putz! A gente se deu muito bem! Além das dicas do barman serem de primeira, acabamos batendo o maior papo e provando todo tipo de vinho, por nossa conta ou por conta da casa!

Outro balcão que adoro é do “El Barril”, tem dois da mesma rede perto de casa. Esse não é tão barato e é frequentado por uma clientela mais, digamos, adulta. Oferece frutos do mar fabulosos! Nada melhor que as dicas do Benjamin, outro barman-gente-boa, do que está mais fresquinho. A cava está sempre geladinha e, apesar de não gostar, o chopp, que aqui se pede caña, é lindo e bem tirado.

Tem o “Aranzabal”, um estilo mais jovem e despojado, mas onde se come os melhores huevos rotos de Madri. O vinho é bem honesto também. Nesse não dá para conversar muito com o barman, porque vive lotado e o coitado mal respira! Mas o bar é bom!

Não posso deixar de contar do nosso pé-pra-fora mais frequentado, o “Panamá”. Esse é a extensão da nossa cozinha. Foi, inclusive, onde assinamos nosso contrato de aluguel desse apartamento. Ali, quando Luiz viaja e tenho preguiça de cozinhar, tomo uma copa de Rioja com umas almôndegas ou umas allitas de pollo super bem feitas. No balcão, claro, conversando com a dona do local.

A propósito, aqui não tem nenhum problema em haver uma mulher sozinha no balcão do bar. Também não tem limite máximo de idade, é a coisa mais normal do mundo encontrar mayores tomando sua caña ou sua copa de vino! Mas sabe de uma coisa, é raro ver bêbados pelas ruas. De modo geral, as pessoas sabem beber e não exageram.
Ainda não aprendi a jogar os guardanapos e outros lixinhos no chão, como os autênticos madrileños. Acho que sou a única pateta que procura ficar próxima às lixeirinhas, lugar mais limpo do recinto. Mas um dia chego lá...

60 – E chegou dezembro...

Ontem saímos para comprar não-sei-o-que. Para variar, ía distraída pela rua, já um pouco escuro no começo da noite. Quando fomos atravessar a Calle Conde Peñalver e olhei para cima levei um susto, estava lá: a decoração de Natal! Caramba, chegou dezembro!

As decorações de Natal sempre me assustam. Não porque não goste, pelo contrário, mas é quando tomo consciência que o ano passou. E esse ano, especificamente, voou!

Passaremos Natal e Reveillon aqui. Nas duas datas, faremos festa em casa. Nada tão grande, mas acho que será divertido. No Ano Novo, inclusive, teremos hóspedes. Para nossa família, acredito que será um pouco chato, pois não poderemos estar no Brasil. Mas tudo bem, ano que vem quem sabe a gente passe por lá?

E voltando a dezembro em Madri, a temperatura chegou a zero. Nas redondezas da cidade já nevou, mas ainda não há neve suficiente para esquiar. Na cidade mesmo nem sempre neva, o que não é de todo mal. Neve é lindo, mas não é nada prático! Nos primeiros dias é uma alegria. Acontece que depois de um tempinho, aquilo tudo vira gelo e lama, escorrega que é uma maravilha. Fora o pessoal que mora em casa e tem que limpar calçada, vidro de carro etc. Portanto, acho ótimo viajar para a serra, curtir a neve, um belo chocolate quente e voltar para minha casinha no conforto da calefação.

Pelo menos, em termos de roupas, dessa vez estamos super preparados. Temos casacos e roupas interiores para vários tipos de temperatura. Isso faz toda a diferença do mundo! Minha tolerância ao frio melhorou muito também. O problema é só nos últimos minutos antes de sair de casa e quando entramos de volta no apartamento, a gente só falta cozinhar! Na frente da porta de saída, fica um tipo de cabideiro com todos os casacos. Assim fica mais fácil e não ocupa tanto lugar no armário.

O chato é que volta a escurecer cedo, às sete está escuro. Nesse ponto, gosto é de primavera e verão, quando escurece lá para às dez da noite e temos aqueles dias enormes que cabem tudo.

Mas o inverno também tem seu charme, vá lá. As roupas principalmente, acho lindas! Quer dizer, o guarda-roupa do espanhol médio não é lá essas coisas em termos de bom gosto. Eu, pelo menos, detesto aquele negócio de meia-arrastão com mini-saia tipo puta, meia-calça colorida parecendo doença de pele, botinha por cima da calça igual a jóquei, lencinho amarrado na cintura, calça sem dar bainha arrastando nojentamente no chão...e por aí vai. Mas no inverno, felizmente, melhora muito! Por outro lado, devo admitir, que quando se vê uma mulher bem vestida, ela arrasa! Quando é elegante, é elegante mesmo.

Enfim, é dezembro, que venga el invierno!

59 – Crônica de minuto

E não é que logo após escrever o capítulo anterior e falar de salgadinhos, um amigo ligou e nos convidou para conhecer uma churrascaria brasileira em Majadahonda chamada Mistura Fina. Fica fora de Madri, uma meia hora de carro. Uma delícia! Mas o mais curioso é inacreditável. Adivinha qual era o couvert? Coxinha de galinha quentinha! Putz! Dá para imaginar com que vontade comi a dita cuja?

58 – Las Croquetas

Preciso fazer uma confissão que pode me custar muito caro no futuro: adoro croquete! Aliás, adoro salgadinhos em geral, coxinhas, empadinhas, risólis, bolinhos de bacalhau, bolinhas de queijo... huuummm... minha boca encheu de água!

Infelizmente, depois do Caco Antibes, todas essas deliciosas mini-tentações foram classificadas de “coisa de pobre” e sumiram das festas brasileiras. Fazer o que? Gosto das comidas exóticas e também das sofisticadas, apenas acredito que um prazer não exclui o outro. E tem dias que morro por uma coxinha cheia de catupiry legítimo derretido.

Muito bem, ainda resta salvação para o mundo! Aqui em Madri, um dos aperitivos mais populares são as fabulosas croquetas! É a redenção do croquete! São encontradas tanto em bares mais despojados, como em restaurantes elegantes. Lógico que na segunda opção sempre há algum diferencial, mas que é croqueta... é croqueta!

Entretanto, há uma pegadinha para brasileiros. Quando a gente prova a primeira croqueta, esperamos um recheio mais sólido. Pois, nesse caso, a massa já é o recheio. Só que essa massa é salpicada com algum tipo de acompanhamento. A clássica vem com pedacinhos de jamón, mas é comum também encontrar as de pollo (frango). Os restaurantes mais descolados inovam mesclando outros recheios, como camarões ou queijo brie. Mas nunca em pedaços generosos, costuma ser triturado com a massa.

Deve ser frita na hora e no azeite estalando de quente. Hombre, o sabor é de maravillas!

Caso queira aprender a fazê-las, a receita segue abaixo. E se algum despeitado se atrever a torcer o nariz dizendo que é “coisa de pobre”, nada como responder que é um velho hábito adquirido na Europa.

Ingredientes:
- 1 colher de sopa de azeite
- 2 colheres de sopa de farinha de trigo
- ¼ de litro de leite (pode ser um pouco mais)
- 1 ovo
- 100g de farinha de rosca
- noz moscada
- 100g de jamón em pedacinhos minúsculos (ou o recheio que você preferir)
- sal

Modo de fazer:

Levar a panela ao fogo com o azeite. Deixar o azeite esquentar, mas não ferver, não deixe levantar fumaça. Tire a panela um pouco do fogo e adicione lentamente a farinha, movendo com uma colher-de-pau até que forme uma massa.

Retorne a panela ao fogo médio, adicione lentamente o leite, mexendo sem parar até que a massa esteja cozida e consistente. Colocar uma pitada de noz moscada, sal a gosto e os pedacinhos de jamón. Continue mexendo a massa até que se espesse.

Coloque essa massa, já espessa, em um recipiente e deixe-a esfriar. Depois de fria, modele os bolinhos no formato de croquete.

Bata o ovo em outro recipiente. Molhe o croquete (epa! Isso ficou meio sexual!) nesse ovo e depois passe na farinha de rosca. Como se fosse um bife à milanesa.

Estão prontas para fritar. Devem ser fritas no azeite bem quente que as cubra. Quando estiverem douradas, estão prontas para serem servidas.
Coma sem arrependimento e ria dos pobres de espírito!

57 – O Flamenco

Assim como a paella, não existe uma versão oficial quanto à origem do flamenco. E quando não há uma versão oficial, simplesmente elejo a explicação que acho mais interessante.

Não há uma certeza sobre quando se iniciou. Possivelmente, antes do século XVIII já existia alguma forma de flamenco nos lugares onde viviam os ciganos, ao sul de Andaluzia. Só em meados do século XIX foram realizadas apresentações públicas.

Os ciganos são os grandes responsáveis pela difusão do flamenco, entretanto, sua origem e estrutura musical vem de uma fusão entre diferentes culturas que passaram por Andaluzia. Sofrem influência de cantos hindus e gregos, cantos religiosos medievais, melodias persas, cantos judaicos, sons africanos e música caribenha.

Além disso, há uma grande flexibilidade na forma de interpretação do cantor, conhecido como “cantaor” - os ciganos, como os Andaluzes, não pronunciam o “d” de “cantador”, portanto, também o tablado onde dançam é dito “tablao”.

O canto flamenco, ou cante jondo, é dividido em estilos chamados de palos. Acho que são bem uns trinta palos, mas não sei como diferenciar a todos. Alguns exemplos: Tonás, Seguiriyas, Petenera e Tangos.

As canções tonás estão entre as mais antigas. Possivelmente, derivam de canções populares do século XVII e da palavra “tonada”, “tono”, “melodía”. É uma criação genuinamente cigana e permaneceu muito tempo oculta entre suas famílias. Apenas ao final do século XVIII, quando o rei Carlos III proíbe a perseguição aos ciganos, as canções começam a ser mais conhecidas. As letras falam de sua vida errante e seus problemas frente às injustiças. Como quase todos os cantos originais, não tem acompanhamento musical nem baile. É uma maneira de deixar a voz ainda mais dramática, acompanhando a história que se explica.

As seguiriyas são, possivelmente, uma derivação das tonás. Especialmente, um tipo delas chamadas plañideras, que derivam da palavra plañir (chorar). É um canto difícil, reservado a poucas famílias ciganas. Cada “cantaor” lhe dá uma interpretação pessoal e sempre soa como um lamento.

O estilo petenera é pouco divulgado, por uma razão muito simples. Os ciganos são muito superticiosos e dizem que dá má sorte cantar essas canções em público. Assim que basicamente são cantadas em círculos menores entre as famílias.

Os tangos estão entre os mais populares. Não é nada parecido ao tango argentino. São canções mais fáceis de entender e mais alegres.

Bom, há diversos outros estilos, mas acredito que já tenha passado o espírito da coisa.

Em relação a origem do nome “flamenco”, há uma explicação curiosa, ainda que não seja historicamente comprovada. O ano de 1492 é bem conhecido por aqui, foi quando os mulçumanos foram expulsos do território espanhol. Essa expulsão se deu do norte para o sul e muitos refugiados se esconderam com os ciganos de Andaluzia. Boa parte desses fugitivos era de lavradores. Lavrador fugido em árabe antigo se diz “felag mengu”. Tudo bem, eu também não sei falar árabe antigo, mas leia em voz alta – felag mengu – e notará a semelhança com “flamenco”.
Finalmente, acredito que mais importante que entender o flamenco é sentí-lo. Das primeiras vezes que se escuta, um ouvido mais distraído percebe apenas gemidos e lamentos. Mas se esquecer um pouco o preconceito e se deixar levar pela batida, aos poucos, o canto começa a soar como um mantra que te envolve. Há tantas matizes na voz como possibilidades de sentimentos. O ritmo ainda me parece um pouco irregular, mas assim como o coração, nada tão profundo e vivo pode ter uma batida óbvia. Nada tão visceral pode ser fácil. Quando me entrego nesse transe do violão dedilhado, aprendo um sofrimento que não tive e que alguém generosamente digeriu para mim.

56 – Paella

A melhor paella espanhola que já comi foi em... São Paulo! A campeã é a do Don Curro, sinto muito! Não é que aqui elas sejam ruins, mas ainda não achei aquela definitiva. The Ultimate Paella! Enfim, continuarei tentando, fazer o que? Acabo de pegar algumas dicas de locais para comer uma boa paella com legítimos madrileños, a ver...

Nos restaurantes, diferente do que imaginava, costuma ser sevida como entrada. Mas, se quiser, você pode pedir como prato principal que ninguém faz cara feia. Quer dizer, podem até fazer, mas é mala leche mesmo. Ignore! Se isso acontecer, utilize a cara 9, a de caguei-sou-cliente-e-você-não-está-fazendo-nenhum-favor.

O arroz costuma ser bem gostoso, mas os frutos do mar são regulados. Um pouquinho de nada e mais casca que carne. Nem entendo porque, já que os frutos do mar daqui são excelentes e fresquíssimos. Todo pescado do país é concentrado em Madri e depois distribuído aos outros lugares, ou seja, é tudo de primeira.

Não existe uma versão oficial para o nome “paella”. Entretanto, ouvi uma história que faz sentido e achei muito bonitinha. Normalmente, as mulheres cozinhavam durante toda a semana e os maridos para dar-lhes uma folguinha, às vezes, cozinhavam para elas. O “para” aqui pode ser abreviado como “pa”, assim como o nosso “pra”, e o “ela” se diz “ella”. Portanto, quando o marido cozinhava para a esposa, ele cozinhava “pa ella”. Pa + Ella = Paella.

Meninas, a paella é nossa! Meninos, uma dica, aprendam a história e a fazer paella, pois pode ser muito romântico! Um homem cozinhando para sua amada é super sexy!

Receita de paella de frutos do mar (do jeito que faço, há outros)

Ingredientes - nunca sei exatamente, mas aqui vai uma aproximação razoável:

Arroz (1 xícara e meia)
Água (3 xícaras)
Azeite (cobrindo levemente o fundo da panela)
Alho (1 cabeça inteira bem picada)
Cebola (1 cebola inteira)
Tomate (1 tomate, sem sementes, picado em cubinhos)
½ xícara de ervilhas
Pimentão vermelho (metade de um, picado em cubinhos)
Pimentão verde (metade de um, picado em cubinhos)
Açafrão (o equivalente a uma colher de sopa cheia)
Frutos do mar (uns 6 camarões grandes e outros menores, 100 gramas de lula, umas 20 conchinhas de vôngoles, uns 5 mexilhões...)
Cuentro ou Salsinha (mais ou menos meia xícara bem picadinho – dica, use uma tesoura de cozinha ao invés de uma faca e pique em cima da panela na hora de usar)

Modo de fazer:

Refogar o arroz no azeite, alho e cebola. Seja generoso nos três últimos ingredientes. Acrescentar pedaços bem picadinhos de tomates, pimentões verdes e vermelhos, e as ervilhas. Adicionar o fundamental açafrão.

Em paralelo, ferver a água a ser adicionada, aproximadamente o dobro da quantidade do arroz, e reservar.

Colocar os frutos do mar, com casca e tudo. Use os que você gostar mais, gosto de usar camarões, lulas, vôngoles, mexilhões, langostinos e carabineiros pequenos. Os mexilhões devem ser colocados por cima de tudo, dentro de suas conchas. Os vôngoles podem ser misturados, mas também dentro de suas conchas.

Adicionar a água fervente, salpicar o cuentro ou salsinha e baixar bem o fogo. Esperar a água secar e servir na hora.

Atenção: Caso não tenha a panela apropriada, utilize uma rasa e de fundo largo. Originalmente, esse prato deve ser feito no fogo ao ar livre. Diz a lenda que o ideal é utilizar folhas de parreira para alimentar esse fogo. O aroma e a fumaça sobem e alteram o sabor da paella, no mesmo estilo dos defumados. Mas se estiver na sua cozinha, pode levar a panela ao forno (se isso for possível sem ter partes derretidas). A maneira mais simples é no fogão mesmo, em fogo baixo, tampando a panela enquanto a água do arroz seca.

Existe a versão onde também se adiciona frango e coelho. Mas se é sua primeira paella é melhor não complicar muito.
Boa sorte!

55 – Céu de Brasília

Sempre escolho uma música para as cidades que gosto. Normalmente, ela começa a tocar na minha cabeça enquanto caminho pelas calçadas. Funciona como uma trilha sonora muito particular. É impossível passear por Salvador sem ouvir batuques africanos, assim como é impossível passear por Veneza sem ouvir violinos, reais ou imaginários.

Não precisa ser uma música da mesma cidade ou país. É até natural que muitas vezes coincida, mas não é uma regra.

Desde que mudei, procurava uma música para Madri e não encontrava. A minha lógica dizia que deveria ser algo flamenco, mas não encaixava. Quer dizer, encaixava com a cidade, mas não com meu estado de espírito nela. Tentei outros ritmos, jazz ficava papagaiado; blues, assim como flamenco, ficava meio triste; as clássicas me pareciam fora de contexto. Passados mais de sete meses, já havia desistido, a hora que viesse estaria bem.

Até que hoje, caminhando pela Universidade entre as árvores de outono, olhei para cima e reconheci o céu de Brasília! Não era igual, mas estava muito parecido. O céu de Brasília é lindo! É um azul mais claro e limpo, com partes meio avermelhadas ou alaranjadas. Não sei descrever bem, mas sempre sabia notar na TV que uma reportagem estava sendo realizada lá quando era feita ao ar livre. O céu entrega.

Hoje Madri do meu caminho estava assim, com o céu ligeiramente avermelhado no fim da tarde e com as árvores de folhas caindo amarelas. Daí foi até covardia! Só uma pessoa poderia resolver essa questão: Djavan. Olha que chic! Agora andarei pela Complutense com o Djavan cantando no meu ouvido!
…passa mais além do céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim, gosto de filha, música de preto, gosto tanto dela assim…mas é doce morrer neste mar de lembrar, e nunca esquecer, se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria, isto pra mim é viver.

54 – Um ótimo dia, porém longo e difícil

Os pais do Luiz também nos deram o prazer de uma visita. Tenho a sorte de gostar dos meus sogros. Contrariando a fama das sogras, a minha me defende.Vieram com um casal de amigos, muito simpáticos, que ficaram hospedados em um apart hotel bem próximo à nossa casa.

No primeiro dia em Madri, decidimos dar um passeio a pé pelo centro da cidade. O tour tradicional, mas imperdível. Não conheço outra maneira melhor de conhecer o centro histórico que não seja caminhando. E nunca me cansa! Começamos por Opera, de lá fomos ao Palácio Real, subimos a Calle Mayor e entramos na rua do antigo Mercado de San Miguel. Paramos para almoçar no Maestro Villa, em frente ao Arco de Cuchilleros. Muito agradável!

Depois de almoçar e, claro, tomar um vinhozinho de Ribera, prosseguimos em direção à Plaza Mayor. Na minha opinião, considero o ponto alto da visita. Seus quatro lados vermelhos e encravados de história sempre me intrigam. É como se fosse uma sala pública de visitas com o teto aberto para o céu. Ali, coisas boas e más ocorreram. Inclusive, fatos duros, como por exemplo, julgamentos da inquisição católica. Mas por algum motivo, essa energia estranha não me faz sentir mal, como ocorre no Coliseo de Roma.

Entretanto, nesse dia foi diferente. Pela primeira vez não me senti nada bem logo que entrei na praça. Havia um protesto, ainda por iniciar, do povo saharaui. Explicando um pouco dessa confusão, existe uma região no Sahara Ocidental que foi reclamada como colonia pela Espanha em 1885. A ocupação efetiva do território não se realizou até 1934. Seu território foi cedido em 1976 a Marrocos e Mauritania, entretanto, a Frente Polisaria proclamou a República Árabe Saharaui Democrática (RASD), iniciando uma Guerra que duraria até 1991. Continuam a espera de um referendo, o qual Marrocos se negou a convocar em repetidas ocasiões. O status legal do território e a questão da soberania continuam sem se resolver. Atualmente, Marrocos tem um muro com radares, artilharia e minas no interior do deserto. Uma missão da ONU tenta controlar a situação para organizar eleições livres que decidam o destino do território. O objetivo desse protesto era de pedir ajuda à Espanha.

Talvez fosse por isso, não tenho certeza, repentinamente senti o ar pesado. Fiquei muito incomodada. Tenho um tipo de intuição que às vezes me assusta, mas me protege. Sinto a proximidade de situações de risco, sei quando algo ruim está propenso a ocorrer. Não chega a ser uma premonição porque não consigo saber o que é, mas funciona como um sinal de alerta. Algumas coisas acontecem sem que você possa evitá-las, mas a maior parte delas é uma questão de não estar prestando a atenção suficiente. Ninguém consegue ser atento 24 horas por dia, porém consigo ser quando meu radar me avisa. Fico séria, mais calada e concentrada.

Nesse dia não quis ficar muito tempo na praça. Também não queria estragar o passeio de ninguém com meus devaneios, então só comentei com Luiz que não estava gostando dali.

Saímos em direção a Calle de Postas, que leva à Puerta del Sol. Vi três garotos, arrumados como os outros garotos. No Brasil, a gente crê que pode identificar o risco através da aparência relacionada à pobreza. É um engano, nesse caso, por exemplo, a aparência era de garotos da classe média. Só que tinham um olhar familiar que reconheço, o de quem não tem muito a perder. O maior subia a rua com um mastro de bandeira na mão, sem bandeira nenhuma. Quando viram um carro de polícia estacionado, voltaram do caminho. Não sei se mais alguém percebeu, porque a rua estava bem cheia. Mostrei ao Luiz e entendi que não era só a Plaza Mayor. As bruxas estavam soltas e era melhor se cuidar. Foi a primeira vez que senti Madri assim.

Subimos a Calle de Preciados, uma rua movimentadíssima, em direção ao El Corte Inglés. Estava atenta, entretanto cometi um erro. Minha sogra e sua amiga estavam comigo, então achei que estava tudo bem e relaxei. Os maridos vinham atrás, o último era o amigo do meu sogro, que estava um pouco distraído filmando e fotografando a rua.

Entramos, as mulheres conversando, no El Corte Inglés e de repente me ocorreu que eles não entraram. Na hora sabia que havia acontecido algo e voltei para rua sem saber bem o que fazer.

Um cidadão meteu a mão na carteira do amigo do meu sogro e, provavelmente, a passou rapidamente para outro. Acontece que eles perceberam e agarraram um dos ladrões. Um outro homem entregava dinheiro ao Luiz e apontava uma carteira no chão. Acho que era o outro ladrão, mas não dava para ter certeza. Como ele mostrava a carteira para o Luiz, ele acreditou que o sujeito estava ajudando. Nunca saberemos.

O fato é que meu sogro e seu amigo seguraram o primeiro ladrão e começamos a gritar por polícia. As esposas se juntaram em volta e os quatro não deixaram que o homem saísse de lá. Foram muito corajosos! Uma roda de pedestres rapidamente se fez em volta da confusão. Luiz correu em direção à Plaza Callao tentando pegar o segundo homem. Não fazia muito sentido pois não sabia quem era. Mas nessas horas a gente não pensa claramente, é tudo muito rápido. Fiquei com medo de deixá-lo sozinho agarrando o suposto segundo ladrão e fui atrás dele. Quando vi que ele nunca o alcançaria e não entendi o que ele estava tentando fazer, olhei em volta para ver se havia polícia e não havia. Voltei correndo para o El Corte Inglés para chamar a segurança. Meus sogros e seus amigos ainda seguravam o bandido. No que saí da loja com o segurança, alguém já havia conseguido avisar os policiais que chegaram pelo outro lado e prenderam o assaltante.

Enquanto a polícia revistava o homem, conferimos se faltava algo na carteira. Por sorte, não havia tido tempo de nada ser levado. Até o dinheiro retirado foi recuperado, pois os batedores de carteira, quando percebem que o golpe deu errado, deixam as provas para trás. O ladrão foi detido e entramos na loja para acalmar os ânimos. Subimos até a cafeteria, sentamos e tentamos relaxar um pouco. A verdade é que tudo aconteceu tão rápido que só depois as peças foram se juntando.

Acho que Luiz e eu fizemos errado, não deveríamos tê-los deixado sozinhos com o bandido. Meu reflexo foi de buscar ajuda, mas não sei se foi o melhor. Me senti um pouco impotente de ter percebido que alguma coisa poderia ir mal e mesmo assim não estar preparada. Sabia o que fazer se acontecesse comigo, mas não estava pronta para ajudar outra pessoa.

Na mesa, meu sogro contou que enquanto segurava o cidadão que tentou fugir, usou o velho-truque-índio de apontar um dedo firme em suas costelas. O ladrão poderia ficar na dúvida se era uma arma.

Acho que não teriam reagido se fosse no Brasil, até porque lá os bandidos usam armas. Aqui raramente as usam. Costumam se aproveitar da distração dos turistas. De toda maneira, achei os quatro muito corajosos e de pensamento rápido. O homem era jovem e forte. Naquele dia, ele e seu possível parceiro pensaram que se aproveitariam de um senhor distraído, alvo fácil! O que ele nunca poderia esperar é que o senhor poderia ser rápido, e que seu amigo e as esposas estariam dispostos a ajudá-lo. E que os outros alvos fáceis fariam uma roda em sua volta apontando quem era o alvo dessa vez.

Apesar da sorte e de estarmos todos bem, logicamente, a adrenalina foi alta. Saímos da loja por outra porta, por precaução, e tomamos direção à Gran Via para pegar o metrô. No caminho, ainda não estava tranquila. A frequência do lugar estava diferente. Pelo menos, dessa vez, estávamos todos mais atentos.

Ainda pude notar um outro cidadão na porta do metrô, que desceu um pouco antes da gente e, logo em seguida, subiu outra vez pela escada rolante. Estava procurando vítimas e o mostrei para Luiz, mas não seríamos nós.

A medida que o metrô chegava na nossa estação, meu coração também ia sossegando. Soube que estaríamos em segurança novamente. No bairro de Salamanca, o ar já estava mais leve. Respirei aliviada, nenhuma das bruxas nos seguiu.

No apartamento, assistindo ao noticiário, soube que houve outro grande protesto no mesmo dia, além da manifestação da Plaza Mayor. Esse era contra uma lei referente à educação na Espanha. Na Puerta del Sol também houve uma concentração de Marroquinos. Não houve nenhum incidente grave, mas movimentou muita gente e o clima da cidade não estava para muitos amigos.

Dormir naquela noite foi difícil para todos nós. O que passou na cabeça de cada um, quem pode saber? Na minha passava uma sensação de incompetência e a dúvida se aquele era realmente o ladrão. E se fosse, o que deveria estar passando naquele momento. A cena se realizou no meu pensamento de várias maneiras diferentes, imaginava formas como poderia ter certeza que a coisa certa foi feita. Era absurdo! Sei disso, já estava feito, mas era inevitável, não conseguia apertar o botão de desligar.

Até que ouvi a chuva caindo, levantei e fui para janela da sala. A chuva lavava a rua e as calçadas. O ar ficou mais limpo também. As bruxas se dissolviam. No corredor, meu gato me seguiu com cara de sono, curioso para saber o que fazia ali. Agarrei meu felino gordo e voltei para cama.

Fiquei pensando se não poderia passar uma tesoura na metade daquele dia que havia sido tão agradável em quase sua totalidade. Se apagar não era possível, ao menos dividí-lo em dois e chamar um deles de dia bom. Acontece que a vida é inteira e ensina que a verdade é sempre melhor, mesmo que de maneiras tortas. A vida não é toda boa, mas aprendemos a superar e a compensar as dificuldades e os erros. Aprendi que o bem une e o mal divide.
Nesse dia, na sala de justiça, os super-amigos decidiram que o bem ganharia.

53 – As pessoas-rolha

Não sou uma fã ardorosa, mas curto histórias em quadrinhos. Gosto dos nomes dos super-heróis e, mais ainda, dos infâmes nomes dos vilões.

Pois nas ruas de Madri há vilões de histórias em quadrinhos, são as “pessoas-rolha”. Elas se disfarçam de pessoas normais e se distribuem pelas calçadas cheias. A função é atrapalhar o máximo possível o fluxo normal de caminhada dos outros pedestres.

A mulher-rolha costuma andar com enormes sacolas bem d-e-v-a-g-a-r-i-n-h-o no seu caminho. Ela espera ardilosamente a hora que você vem caminhando distraída para saltar na sua frente e montar uma barreira quase intransponível. Sua variação mutante pode ser ainda mais perigosa, pois vem acompanhada da criança-rolha.

O homem-rolha é competitivo. Ele anda devagar na sua frente, mas se você tentar ultrapassá-lo, ele acelera o passo para você dar de cara em uma árvore. Se você recuar, ele volta a diminuir a velocidade. Sua periculosidade pode aumentar caso se sinta terrivelmente ameaçado. Ele acende um cigarro bem fedorento e tenta jogar as cinzas em você.

A espécie mais cruel e inteligente são os velhinhos-rolha. Esses fazem questão de andar lentamente na diagonal, fazendo zig-zags cronometrados com sua tentativa de ultrapassagem. São perversos e jogam com sua culpa de se aborrecer com um idoso.

Agora, dose mesmo é quando as pessoas-rolha se encontram. Óbvio, tudo combinado para te atrapalhar! Aparentemente, elas não se conhecem, mas emitem um som inaudível aos seres humanos comuns e, dessa forma, se reunem rapidamente.Elas se especializam em qualquer tipo de entrada ou saída: desembarque de aeroporto, escadas rolantes, entradas de metrô etc. Eventualmente, eles também utilizam a versão móvel, o “arrastão”, aquela onde o grupo todo quer andar um do lado do outro e ninguém mais passa.

É possível contra atacá-los, mas exige experiência.

Quando você estiver atrás deles:

a) Amadores – finja que vai para um lado, dissimule, pule rapidamente para o outro e continue. Nem sempre funciona, principalmente com os velhinhos-rolha que são muito astutos.
b) Profissionais – Pise bem forte, como um dançarino flamenco. Faça com que eles escutem seus passos se aproximando e a batida do coração seja alterada. Respire alto para aumentar o suspense, e vá invadindo o espaço vital da pessoa-rolha, de preferência no lado em que ela tiver uma bolsa ou algo de valor. O bafo da sua respiração deve alcançar a nuca do seu adversário-rolha. Intimide! Agora o golpe de misericórdia, comece a tossir como estivesse com uma terrível gripe, aquela tosse disseminadora de vírus. Essa tática, quando bem executada, é infalível!

Quando eles estiverem vindo na sua direção:

a) Amadores - atravesse rapidamente para a outra calçada. Funciona, entretanto, você demonstra fraqueza.
b) Profissionais - pratique sua postura ameaçadora. Costas retas, passos firmes, olhando para frente, mas não nos olhos. Olhe para o horizonte com o olhar de um toureiro raivoso. Ombro direito um pouco mais à frente, assim como quem vai dar um sopapo. Não sorria em nenhuma hipótese, qualquer sinal de gentileza nesse momento é fatal! E siga em frente, ao ataque!

Gente! Acaba de me ocorrer: será que acabei de desvendar como surgiu a dança flamenca?

52 – O dia real do aniversário e aí encerramos esse assunto!

Para quem já está de saco cheio em ouvir falar do aniversário, sinto muito, mas adoro fazer aniversário! E ainda fui comemorar com a festa antes! Quer dizer, fico fazendo aniversário todo dia até chegar o dia de verdade! Não é ótimo?

Hoje foi o legítimo. Nasci em 09 de novembro de 1969, ano em que o homem pisou na lua. Gostava de acreditar que isso me faria predestinada a algo fora do comum. Com o tempo, vi que era apenas um dia como qualquer outro. Mas por que não celebrá-lo? Estou viva e aqui! Trinta e seis, com corpinho de vinte e nove! Yo creo que estoy estupenda!

Saí na véspera só com o Luiz para jantar e comemorar. Coitado! Estava morto de gripe e eu me recuperando dela! Por isso, fui legal e escolhi um restaurante perto de casa mesmo, o El Buey. É um tradicional que, como o nome denuncia, tem seu ponto forte na carne. Um dos poucos lugares onde encontramos uma carne de boi excelente. É uma peça de carne pedida por peso que chega fatiada meio crua na mesa e terminamos de adequá-la ao ponto desejado em pratos quentes de pedra que recebemos. Mucho bom!

Regado a um belo Ribera, que este ano está bem melhor que o Rioja, na minha singela opinião. Mas não abusamos. Luiz ainda tinha os olhos vermelhos de gripe e eu tomando anti-alérgico. Caramba! Parece comemoração de velhinhos!

A parte engraçada é que Luiz foi colocar um pouco de azeite no seu prato de pedra quente para dar um gosto na carne. Exagerou no azeite e seu prato se transformou em uma frigideira espalhando óleo para as mesas em volta. No El Buey, as mesas são meio juntinhas, como em um bistrot. Daí o óleo quente começou a espirrar na mulher ao lado do Luiz. Que roubada! E tinha se produzido toda para seu acompanhante! Mas ela, como uma boa espanhola, não se intimidou, acendeu seu cigarro e contra atacou com fumaça. Aí é que Luiz colocou mais azeite no prato mesmo. A primeira vez foi acidente, a segunda foi piraça pura!

E eu só rindo! Minha fome havia passado, portanto estava de bom humor!

Enfim, nossa farra de idosos gripados durou até umas 23:00 horas, no máximo! Não aguentamos mais e voltamos para casa. Ficamos esperando até meia noite para Luiz me dar os parabéns e eu liberá-lo para dormir!
Durante o dia, foi ótimo! Falei com a família e um monte de amigos por telefone e virtualmente. Essa é uma das melhores partes, é um pretexto para conversar ou juntar pessoas. Além do mais, aqui é feriado. Olha que maravilha, feriado no aniversário!

51 – Uma boa idéia!

Na verdade, não tenho nenhuma boa idéia, mas não resisti ao capítulo “51”. Vai ver o álcool ainda está circulando pelo meu sangue desde a festa!

O que quero contar é que costumo eleger um esquisito por dia. Sim, porque esquisitos vejo o tempo todo, mas sempre tem um que se supera. O problema é que hoje haviam três e fiquei na maior dúvida quem eleger. Alguém quer votar?

O primeiro esquisito vi no metrô, infelizmente foi rápido e só pude notar seu visual, mas não consegui estudar seu comportamento. Muito bem, era um homem todo vestido de jamaicano, com direito a boina colorida, cabelo dred e camiseta com raminho de cannabis. Até aí, vá lá. O que deixava essa figura curiosa era que tinha uns 60 anos, cabelos grisalhos, barba por fazer e branco. Desculpe, mas um coroa branco vestido de jamaicano com trancinhas afro me parecia uma contradição em si mesmo. Não havia nada errado, mas a imagem não batia com o conceito. Era tão exagerado que parecia uma fantasia ou caricatura. Preconceito meu? Tá bom, tá bom, então vamos às próximas candidatas.

A próxima era uma “Christina-Aguilera-wanna-be”, ainda por cima, com a imagem ultrapassada. Um cabelo de medusa pintado com mechas claras, uma maquiagem fortíssima de olhos coloridos e uma bota vermelha, bico fino, por cima da calça.

A terceira candidata era uma “colegial”, vestida com saia curta plissada, meia até o joelho, sapatinho comportado, camisa e casaquinho por cima. Até aí, imagino que rola um fetiche, sei lá, não entendo, mas sei que há. O engraçado era olhar o rosto de CDF que ela tinha, com óculos fundo de garrafa e tudo! E não era uma estudante de verdade, ok? Pela idade era impossível. De qualquer maneira, uma CDF fetichista, para mim, era outra contradição!

E aí? Quem ganha?

50 – A ressaca sem culpa

No dia seguinte, inevitável, a boa e velha ressaca!

Normalmente, as ressacas são seguidas de uma interminável lista de desculpas esfarrapadas e de não-faço-isso-nunca-mais, por-que-bebo, charuto-que-idéia-de-jirico, etc-etc-etc. Pois quer saber, dessa vez veio sem um pingo de culpa, talvez porque não tenha sido tão forte.

Alguém acha que depois de passar a manhã em pé num frio de 5 graus faria algum bem beber e fumar charuto? Claro que não, né? Isso eu já sabia! Mas também, ia ficar me regulando no aniversário? Nem morta! A única coisa que sempre tento me lembrar é de tomar bastante água.

No dia seguinte, arcar com as consequências: uma gripe chata e uma alergia horrorosa! Sem falar do cérebro que não cabe na cabeça e parece que vai derreter pelas orelhas. A culpa foi muito mais do frio da fila da manhã que do balde chutado – ou será essa uma das desculpas esfarrapadas?

Pois que seja, tudo bem, vai curar.

49 – Nossa primeira festa em Madri

Vou logo acabando com o suspense, foi ótima! A-do-rei! Caramba, depois de sete meses de jejum, que vontade que estava de dar uma festinha!

Vieram umas vinte pessoas, para variar, uma torre de babel. Divididos, mais ou menos igualmente, entre brasileiros, espanhóis, franceses, alemães, uma coreana e um casal de argentinos. O idioma comum foi o espanhol mesmo e, finalmente, o meu não era o pior! Na minha opinião, é claro! Tá certo que eu estava sendo ajudada pelo Mr. Glenfiddich, mas os outros também tiveram ajuda.

Gostei de todo mundo! A maior parte já conhecia, óbvio, mas não conhecia alguns acompanhantes nem alguns amigos do trabalho do Luiz.

Aliás, o sucesso da festa foram as caipirinhas do Luiz, a clássica de limão e a de uva, considerada novidade. Foram devidamente evaporadas, duas garrafas de cachaça – das boas! É a primeira festa que damos que, ao final, temos mais vinho que no início! Excelente pretexto para uma próxima.

Ultimamente, só tenho tomado vinho. Mas na festa, queria fumar um puro, Hoyo de Monterrey na umidade perfeita, e aí com vinho não dá. Como não misturo, parti logo para agressão e fui de single malt 15 anos no tradicional copinho de shot. Como é bom chutar o balde!

Comidinhas, havia de todos os tipos, afinal de contas, era a primeira vez que esses amigos vinham aqui em casa. Tentei fazer um pouco de cada nacionalidade. Mas acho que o forte mesmo foram as caipirinhas.

Só tocamos música brasileira, começando por bossa e evoluindo para MPB, Pop Rock, Funk (sem baixaria), os baianos etc. Um pouco de tudo. No Brasil, temos uma variedade musical riquíssima! Dá para oferecer uma festa inteira com música nacional, variando o tempo todo.

Os últimos convidados, brasileiros é lógico, saíram por volta das 4:30 da manhã. Me arrependi de não ter feito a tradicional sopa para fofocarmos juntos.

Que seja a primeira de muitas!

48 – A maior fila da minha vida!

Aturar o processo de imigração não é para qualquer um! Mesmo que seja absolutamente legal, é sempre burocrático e complicado. Mas essa chatice vou me abster de contar integralmente, contarei só esse finalzinho.

Estou no penúltimo passo para conseguir meu NIE, que é a carteira de identidade de estrangeiros. A do Luiz saiu primeiro, como a minha é atrelada a dele, fica pronta depois. Esse passo consiste em ir até um órgão público, no dia que eles marcam, para tirar suas impressões digitais. Aqui se diz “sacar las huellas”, o que sempre me soa como alguém que vai arrancar as minhas orelhas.

Isso quase foi verdade! Com o frio que passei, quase que minhas orelhas caíram! Juro!

É claro que o dia que marcaram para mim caiu num sábado, no dia que marquei também minha festa de aniversário aqui em casa. Ou seja, se tivesse dado algum problema, meu humor na festa seria uma bosta! Além disso, os advogados encarregados do caso não trabalham no fim de semana. Assim que não havia ninguém que pudesse adiantar o procedimento.

Tirar as huellas foi mole! O problema é que antes disso tive que enfrentar uma fila literalmente quilométrica! Nunca vi uma fila daquele tamanho! É de deixar qualquer fila do INPS com inveja! Por sorte, Luiz ainda foi comigo e me fez compania nas três horas e meia esperando em pé, na rua, em um frio de 5 graus. A última meia hora, completando quatro horas de espera, foi um pouco melhor, pois já estávamos dentro do prédio.

Putz! Aturar 5 graus em pé, três horas e meia e sem poder andar muito é de matar! E olha que estava bem agasalhada! Quando nossos pés começavam a ficar dormentes, Luiz e eu nos revezávamos na fila para dar uma andadinha e fazer o sangue circular. O nariz não para de escorrer, é nojento! Mas é igual para todo mundo, todos com lencinhos de papel no bolso.

E nem adianta querer ir embora e voltar outro dia. Primeiro que o “outro dia” vai estar tão cheio quanto, segundo porque você recebe um papel pelo correio com uma data fixa para ir. O meu era dia 05 de novembro e acabou. É quando você se pergunta: o que estou fazendo aqui? Haja saco! Ninguém merece!

Daí, fazer o que? Comecei a tomar conta da vida dos outros, né? Atrás de mim, havia uma moça que devia ser do leste europeu, mas não tenho certeza de onde. Na minha frente, definitivamente hispânicos, mas também não sei de que parte. Talvez equador. Ela com as sobrancelhas pintadas. Não era feia, mas não sei porque, raspava toda a sobrancelha e a desenhava em negro. Ficava horível! Era hipnótico, difícil de não ficar olhando. Mas acho que o marido gostava, parecia apaixonado e ela estava grávida. Na frente deles, tenho quase certeza que eram marroquinas, uma loira e uma morena. Essas já sabiam da fila incomensurável, pois levaram água, frutas secas e pistache. Quase no fim da espera, chegou outra marroquina se fazendo de amiga delas para ver se podia pegar lugar na frente. Não entendo o idioma, mas entendo muito bem os espertinhos, fiquei olhando com a cara bem feia, o que naquele momento não era nada difícil, e a furadora de fila acabou desistindo. Acho que não foi pela minha cara, mas as duas marroquinas também não deviam estar muito afim de quebrar o galho só pela nacionalidade da outra.

Finalmente, chegou minha vez. Fico sempre na expectativa que na hora eles vão me dizer que falta algum papel. Não faltava nada e saquei minhas orelhas, quer dizer, huellas. Agora é só esperar mais quarenta dias e voltar lá para buscar o documento pronto. Aparentemente, a fila é menor, mas não vou marcar bobeira e chegarei bem cedo.
Que bom que ainda pude chegar em casa a tempo de dar uma cochiladinha e me recuperar para a festa de aniversário. Meio gripada, mas satisfeita por, no fim das contas, ter dado tudo certo. Que parto!

Wednesday, October 11, 2006

47 – O dia em que fui negra

Ontem, quando pegava o metrô para casa, entrei no último vagão. Foi estranho, 90% dos passageiros era de negros. Não é o fato de serem negros que achei estranho, mas achei esquisito estarem todos juntos no último vagão. Como se estivessem separados.

Entrei com outra menina branca. Ela nem sentou, ficou em pé na porta. Eu sentei, queria entender o que estava passando e porque me sentia desconfortável. Liguei minha antena.

Na parada seguinte, ficou mais esquisito ainda. O único branco, além de mim, que estava sentado entre eles, se levantou e saltou. Do fundo do vagão, o único negro que estava entre os poucos brancos, levantou-se e sentou no lugar em que estava ocupado pelo primeiro branco que havia saltado. Como se juntasse ao grupo.

Eles pareciam da mesma etnia, mas não trocavam uma palavra nem se olhavam. Fiquei sem entender se eram conhecidos ou se aquilo foi uma coincidência. Infelizmente, essas coisas não se perguntam. Principalmente, porque poderiam ser imigrantes ilegais com medo de serem descobertos em grupo. Essa questão da imigração é bem complicada, mas vou deixar para outro capítulo porque esse já me é difícil o suficiente.

Enfim, na segunda parada, onde salto, saí. Pude notar, com um certo alívio, que entrariam várias pessoas brancas ou não. O vagão tornaria a se misturar. A mistura me conforta.

Senti algo parecido em Atlanta, onde a população negra é bem grande. Nunca havia parado para pensar no Brasil que os lugares que ia eram frequentados por uma maioria branca. Era algo que olhava e não via. Confessar isso hoje me parece estúpido, mas é verdade. No início, quando passei a conhecer lugares onde se via igualmente negros e brancos, me senti feliz. Foi estranho aos meus olhos, era uma paisagem diferente da que estava acostumada, de alguma maneira, sentia que era mais justa. Me sentia bem.

Mas depois comecei a notar, que nos mesmos lugares onde via igualmente negros e brancos, eles não se misturavam. Simplesmente, estavam no mesmo lugar. Nos restaurantes havia mesas com brancos, mas só brancos; e mesas com negros, mas só negros. Isso não gostei. E nem estou falando de casamentos entre raças, porque também passa por gosto pessoal que é outra história, estou dizendo amigos mesmo. Pessoas que, ao menos, saem juntas.

Nesse ponto, acho o Brasil mais democrático e vou me explicar. Existe uma barreira econômica, que vem sendo vencida, mas ainda é muito forte para as pessoas descendentes de negros, porque no fundo, estamos falando de descendentes de escravos. E infelizmente, a escravidão condenou algumas gerações à pobreza.

Entretanto, entre os pobres brasileiros há negros e brancos, e eles se misturam entre si. É difícil até se ver uma pele muito negra ou muito branca. Os negros daqui e dos Estados Unidos são muito mais pretos. Aqui, inclusive, pela proximidade da África, podemos identificar diferentes etnias negras.

E ainda falando do Brasil, o negro que chega a ser rico não vai morar em uma comunidade para ricos negros, como nos Estados Unidos. Ainda são poucos, mas quando conquistam seu espaço, também se misturam.

Isso me leva a pensar que entre os brasileiros não há um racismo propriamente dito, mas um preconceito social. Essa coisa de branco que não gosta de preto e de preto que não gosta de branco, simplesmente pela cor, é rara! Quando existe é entre os mais velhos e é muito mal visto!

Pois bem, se isso talvez, e disse talvez, seja menos mal, ainda não é o suficiente. E vou descrever uma experiência também em Atlanta que me fez pensar novamente nesse assunto.

Uma vez, Luiz e eu fomos jantar no Red Lobster. É uma cadeia de restaurantes relativamente popular que serve uma boa lagosta. Simples, informal e bom preço. Procurei na internet onde havia um desses restaurantes e anotei o único endereço que constava. Olhamos no mapa e era longe para burro! Mas como estávamos com tempo e afim de conhecer o lugar, não custava nada.

O que não sabíamos é que era um bairro de negros. Nos Estados Unidos há essa separação, branco mora em um lugar, latino em outro e negro em outro. Eventualmente, latinos e negros moram no mesmo lugar. Admito que existe um esforço para se quebrar essas barreiras, inclusive com propagandas na TV e campanhas, mas ainda ocorre e em alguns casos, pode ser perigoso você ultrapassar essas tais barreiras. E quando digo perigoso é literalmente! Em muitos casos a agressão é física, de todos os lados. Às vezes, é só desconfortável. Mas por que desconfortável?

Quando entramos no restaurante, estava lotado, com fila. Todos negros. Eu branquela e Luiz moreno, talvez como latino. Ele ficou apreensivo, mais pela minha segurança que pela dele. Não posso dizer que não fiquei, mas ao mesmo tempo, decidir ir embora naquele momento seria aceitar o preconceito e isso não seria justo com ninguém.

Decidimos fazer exatamente como faríamos em uma situação “normal”. Pedimos nossa mesa e aguardamos nossos lugares. Se ali alguém tivesse sido hostil, me retiraria, caso contrário, não faria sentido.

Esperando nossa mesa, comecei a refletir o que me deixava tão incômoda. E foi muito claro que não era a presença das pessoas que me incomodava, e sim a sensação que eu poderia estar incomodando alguém. Ninguém me olhou feio, ninguém me disse nada ofensivo, ninguém me ameaçou, e mesmo assim, me senti totalmente deslocada porque era visivelmente diferente de todos ao redor. Nesse momento queria ser negra. Não por que era melhor ou pior, mas para me sentir parte do contexto. Naquele dia eu fui a negra em um mundo de brancos. Dei sorte, eram brancos educados. E não foi fácil!

Talvez isso explique o que algumas pessoas brancas chamam levianamente de negros que são racistas. Essa frase sempre me soa como uma justificativa ridícula e infantil. Como apontar um dedo para o outro lado, dissimulando sua própria culpa. Que importa? Preconceito é feio de qualquer lado que se olhe, seja negro ou seja branco.

Imaginei o que os poucos amigos negros que estudaram comigo deveriam sentir. Conto no dedo quantos foram. Os primeiros dias de aula, naturalmente difíceis a todos, para eles continha uma dificuldade a mais. Ainda que fossem aceitos e bem tratados, é difícil não ver nenhum rosto parecido com o seu. Nunca pensei nisso na época, até porque para mim essa diferença não parecia relevante.

Na situação do restaurante, tentei entender se havia alguma coisa que alguém pudesse fazer para que eu me sentisse melhor. Porque poderia repetir esse gesto no mundo de brancos. Mas não havia nada a ser feito. Tudo foi perfeito. O atendimento foi cordial, a comida estava boa e ninguém ficou me olhando. No fim, relaxei e aproveitei a noite e a lição. Nada além da mistura me faria mais confortável.

Hoje, nos restaurantes que frequento em Madri, novamente não há muitos negros. Sinto falta do colorido nas mesas, mesmo que em mesas separadas, pois ao menos estavam ali. Meu olhar havia se habituado.

Fico na esperança que na próxima parada, as pessoas voltem a se misturar no vagão.

46 (cansei dos algarismos romanos!) – Meu niver

Está chegando meu aniversário! Adoro fazer aniversário! Gosto tanto, que nem ligo em ficar mais velha. Aliás, nunca sei quantos anos tenho e nem dá para dizer que é conveniente, porque sempre erro para mais. Só penso nisso quando entra novembro, daí faço as contas direitinho, porque sei que vão me perguntar. De qualquer forma, vivo errando!

Meu niver, ou meu cumple - como eles abreviam cumpleaños - é dia 09 de novembro, mas vai cair em uma quarta-feira. Por isso, resolvi dar a festa nesse sábado, dia 05. Será nossa primeira festa em Madri. Será que meus convidados virão? Será que são animados? Será que os vizinhos vão reclamar? Terei alguma vizinha penetra?

Queria ter dado uma festa antes, com o pretexto de inaugurar a casa nova. Mas Luiz fica me assustando. Aliás, fica todo mundo me assustando com essa história de que espanhol é desconfiado, arredio etc. Quer saber? Não me importa mais. Não é possível que alguém se sinta ofendido por ser convidado para uma festa, certo? Resolvi arriscar, posso dar o primeiro passo.

Convidei algumas alunas do curso de espanhol, algumas pessoas do atelier de artes que frequento, algumas do trabalho do Luiz, outros brasileiros exilados... e quem mais passar na calçada olhando para cima!

Hoje é quinta e já estou agoniada! Doida para que chegue sábado! Passa logo semana!

XLV – Um pouco de história espanhola recente

Para se entender a Espanha atual, principalmente Madri, é importante saber pelo que passaram há bem pouco tempo. Muitas coisas, inclusive, foram semelhantes no Brasil; algumas foram bem piores.

A falta de liberdade até o final dos anos 70 explica essa vontade de exagerar em tudo. Se sai muito, bebe-se muito, fuma-se muito. É como se houvesse uma urgência em se viver o presente, uma necessidade constante em se fazer o que quer.

Até 75, foi o período da ditatura de Franco. Na minha opinião, bem mais barra pesada do que no Brasil. Principalmente, porque antes eles ainda enfrentaram uma violentíssima Guerra Civil. Depois houve um período de transição e as últimas barreiras foram caindo a partir de 77.

Vou dar alguns exemplos. O primeiro deles é em relação à liberdade religiosa. Que não havia! A única possibilidade era ser católico. A diciplina religião foi obrigatória nas universidades até 1977. Dois anos depois se tornou optativa ou não avaliável no ensino secundário. As pessoas que gostariam de ser protestantes, tiveram que esperar até 1980.

O casamento civil só foi possível a partir de 1978. Até esse momento, só se casava no religioso. Se um casal quisesse realizar a cerimônia civil, devería pedir permissão à igreja católica e passar por intermináveis barreiras burocráticas.

Os homossexuais eram presos sempre que as autoridades queriam. Como justificativa, bastava dizer que eram exibicionistas ou que estavam causando escândalo público. Considerava-se que eram perigos sociais até 1979. Costumavam ser presos e torturados, nos subsolos de onde é hoje a Puerta del Sol. Muitas vezes, junto com professores delatados por estudantes (espiões contratados).

As mulheres não podiam trabalhar à noite, nem tinham acesso a trabalhos considerados duros ou significativos, como a mineração e o exército. Em 1988, começaram a entrar para o exército e em 1994 puderam trabalhar nas minas, com autorização do Supremo Tribunal.

Até 1977, mulheres não tinham o direito a vender seus bens móveis ou imóveis, nem possuir passaporte sem autorização do marido. As raríssimas mulheres que frequentavam uma faculdade eram extremamente mal vistas e consideradas não dignas para o casamento.

A “camisinha” era mal vista por todos. Proibida pela igreja (até hoje) e ignorada nas farmácias. A pílula era um luxo permitido apenas aos que tinham amigos médicos, pois se necessitava receita e não era simples conseguí-la. A legalização só chegou em 1978.

O divórcio era proibido até 1981. As pessoas que viviam juntas sem se casar, as adúlteras que mantinham sexo fora do casamento, poderiam ser presas.

Só existia um informativo. Apenas a partir de 1977, as emissoras privadas puderam emitir suas notícias.

A pena de morte se eliminou em 1978.

E por aí vai...

Observando-se essas datas e fazendo algumas contas, percebe-se que é tudo muito recente. Nos anos 80, surgiu um tipo de movimento conhecido por “La Movida”, que foi como uma explosão de liberdade. Surgiram muitas bandas, artistas, escritores etc. Poucos permaneceram em destaque, foi quase como um grito. Radical e imediato, mas não muito persistente. Muita gente morreu, houve um excesso de consumo de drogas e sexo. Um tipo de movimento hippie atrasado e fora do contexto mundial - com a aids, drogas mais pesadas e quando os países desenvolvidos estavam bem mais maduros. Mas aqui fazia algum sentido.

Essa poeira baixou e a vida tende ao equilíbrio, felizmente. Mesmo assim, ainda há resquícios muito claros. Os excessos, a maneira de se viver intensamente, a desconfiança das pessoas e a neurose com a perda de direitos.
Por outro lado, acho louvável como eles deram a volta por cima. Como conseguiram correr atrás do prejuízo e se recuperar dessa forma. É um país culturalmente moderno, economicamente bem e politicamente atuante. Tiro meu chapéu!

XLIV – 5 minutos

Todo mundo tem ou deveria ter seus 5 minutos. Aquela pequena fração de tempo quando o universo parece que explode e você sente que brilha. Cada um a sua maneira. Pode ser público ou secreto, reconhecido ou não. O que vale é que você sabe. Não deve depender de ninguém além de você. Nada tem a ver com felicidade ou com as pessoas que ama. É um momento só seu.

Os meus 5 minutos são quando percebo que estou no caminho certo para realizar um trabalho importante, ou quando termino de realizar esse trabalho. Não me interessa se vai vender, se vai para alguma exposição, se alguém vai ver ou se vai cair da mesa e se destruir no dia seguinte. Não importa! Eu sei que fiz! Sei que é meu e é bom! É quando lembro quem sou.

Acho que todo ser pensante se pergunta alguma vez, ou várias, o que faz aqui? Por que? Para que? Às vezes, esse ritmo louco da vida nos faz esquecer. Mas quando vem os 5 minutos a gente sabe.

Passo meses martelando uma idéia, é angustiante e solitário. Tento executá-la de maneiras diferentes e falho em muitas delas, ainda não é. Acordo sem vontade de levantar porque não sei bem o que fazer naquele dia. Meu sono é uma droga. Mesmo assim, continuo por fé. A arte me ensinou a acreditar sem lógica. É olhar para o vazio e crer que vai dar certo. E na hora que funciona é puro êxtase! Dura 5 minutos, mas parece que é mais porque o tempo para.

Comecei uma escultura que gostei. Acho que foi porque no fundo tocava Nina Simone e não se pode ouvir à Nina impunemente, há responsabilidades. Passou minha fome, passou a dor de cabeça e passou o cansaço. Tive meus 5 minutos e foi muito bom! Hoje vou dormir bem.

XLIII – As estações do ano

O frio está começando agora. Quer dizer, frio para uma brasileira. Estamos no outono e a temperatura cai na velocidade das folhas, está entre 5 e 18 graus. Ainda há muitas folhas para cair.

Gosto das estações definidas, uma te prepara para a outra. Chegamos aqui na primavera, minha favorita. Temperatura agradável, pura poesia. No primeiro solzinho corre todo mundo para rua. Os parques se enchem e as mesas dos bares se mudam para o lado de fora. É uma delícia!

Até que chega o verão infernal! Seco e pesado, 40 graus fácil. O pior é que à noite não refresca, não tem brisa, o calor é físico, bate na sua cara. Madri se muda de cidade. Todo mundo tira férias, ninguém fica! Até o escritório do Luiz fechou por duas semanas. Nós ficamos por aqui e era difícil até achar um restaurante bom para jantar, porque eles também entram de férias. Restaurantes, lojas, escolas, galerias... todos fecham suas portas e colocam uma placa avisando que voltam a funcionar em 01 de setembro. Até vaga para estacionar sobra! Agosto é morto!

O interessante é notar que ninguém vai à falência. No Brasil a gente se culpa tanto por causa de umas fériazinhas. As empresas fazem o maior escarcéu! Tá aí, todos os anos eles fecham as portas por um mês e pronto. Ninguém morre por isso.

E que calor! Na rádio, Luiz escutou um programa avisando que entraria uma frente de calor africano. Ele achou que fosse força de expressão, como a gente costuma dizer, um calor sahárico! Mas não, era da África mesmo! A África está aqui embaixo, lembra? Quente para cassilda!

A parte triste é que muita gente viaja e abandona seus animais de estimação, e se achou chocante, também abandonam seus parentes idosos nas emergências dos hospitais. Não entendo! Fico mal só de pensar! Cada vez que via um animal na rua ficava desesperada até achar o dono (eles andam muito soltos aqui). Dos idosos então, nem se fala, que coisa cruel! Está melhorando, nessa época há campanhas para conscientizar as pessoas, mas ainda ocorre.

Setembro entra como um suspiro de alívio. Sacode a cidade. Do dia para a noite as ruas voltam a se animar, os carros voltam a buzinar e fica tudo mais feliz. A temperatura é bem amena também.

Em outubro, começa a esfriar, é quando fazemos a troca de armário. Aqui não guardamos todas as roupas no armário do dia-a-dia. Primeiro, que espaço é coisa difícil; segundo, porque é inútil e a roupa ficaria com cheiro de mofo. No fim da primavera, guardamos os casacos e as roupas pesadas em malas e vai tudo para o maleiro ou para os trasteros. Trastero é como um quartinho para guardar trastes, tralhas. Costuma ser fora do seu apartamento, na garagem ou no terraço do edifício.

Mais ou menos pelo meio de outubro, descemos a casacada toda. Alguns já nem me lembrava mais que tinha. Finalmente a época das roupas bonitas e da maquiagem que não derrete!

No dia 01 de novembro, oficialmente, as caldeiras dos aquecedores devem ser ligadas. Sinto frio no apartamento antes disso, mas é bem tolerável.

O resto, ainda vou descobrir. Deve esfriar mesmo em dezembro, e até fevereiro é congelante. É a época que você aproveita para fazer os esportes de neve.

Nos EUA, pegamos inverno. Não era nenhuma novidade, mas pela primeira vez fiquei todo o inverno morando no local e não uma viagem de alguns dias. No sul, onde morei, o inverno é mais ameno. Além disso, você vive em uma temperatura artificial. Dentro do apartamento tinha o aquecedor com termostato, ou seja, fosse a temperatura que fosse lá fora, dentro de casa era a mesma o ano inteiro. Todos os lugares que você vai também tem aquecimento.

Na prática, acho que sentia mais frio mesmo era no inverno de São Paulo. O apartamento e os locais públicos não tinham estrutura para temperaturas mais baixas. Não eram tantos dias assim, mas quando esfriava era fatal!
Por enquanto, deixa eu aproveitar. Para mim, o ano só deveria ter primavera e outono! Só isso que queria, fácil, né?

XLII – Meu urso

Quem assistiu o filme “Lendas da Paixão”? Pelo menos, acho que assim foi o título em português. Aquele onde o Brad Pitt aparecia com a cabeleira longa e loira. Não é o máximo quando o irmão certinho, apaixonado pela mesma mulher, lhe diz com raiva: você nunca a fará feliz! E ele seco e decidido responde, tentarei. Vá lá, não é para um Oscar, mas bem que animou a mulherada!

Bom, mas falei desse filme por uma coisa que lembro. A história que ele desistiu de matar um urso e, desde então, seus espíritos se misturaram. Quando o urso acordou dentro dele, precisou partir e buscar seu destino. Quase no fim do filme, o narrador diz algo como, finalmente seu urso acalmou.

Pois também tenho meu urso. Nunca me atraquei com ele, felizmente. Acho que no meu caso veio no sangue mesmo. Pelo lado materno, minha bisavó era índia. Como minha avó costumava contar, “índia pega no laço”. Os outros foram imigrantes italianos. Uma geração mais tarde, meus avós não mudaram de país, mas de casa e de cidade algumas vezes. Dos dois lados, mais do lado da minha mãe, normalmente, por causa da minha vó. Meus pais também mudavam; de cidade por causa do meu pai e de casas por causa da minha mãe. Uma parte considerável dos meus trinta endereços veio daí. Com essa origem, acho que comecei minha vida predestinada a mudar.

No início, era natural, era a vida que eu conhecia. Quando comecei a ter meus próprios amigos e me apaixonar, foi mais complicado. Entretanto, depois da primeira mudança mais difícil, aprendi que resistir era pior. A resistência não mudava meu destino, me fazia perder tempo e ficar triste. Um dia tomei uma decisão: queria ser feliz.

Por experiência própria, aprendi que se pode matar uma saudade quando se sabe que a pessoa está bem, mesmo que não esteja ao seu lado. E que muitas vezes, os amigos que sentia tanta falta se viam entre si na mesma frequência que os encontrava. Que desperdício! Entendi também que boa parte dos meus planos de mudar o mundo nunca se realizaria e era melhor que cuidasse do meu próprio umbigo. Quem sabe aprendendo mais me torno útil em alguma coisa? Nunca se sabe, até o momento em que você precisa.

Mas o mais importante mesmo é que aprendi na pele que no dia seguinte não te falta um pedaço e o mundo não parou. Tirando a morte, praticamente todo o resto é reversível. E normalmente, não importa que seja, pois a gente acaba nem querendo voltar atrás.

Daí você começa a gostar e se vicia na mudança. Ainda é desconfortável e continua dando medo, mas você sabe que pode e isso torna impossível negá-la. Começo a sentir no ar, parece que fica mais pesado, os lugares ficam pequenos e tenho um sentimento que não caibo mais ali. Tem sido menos angustiante, não sei se meu urso está envelhecendo.

Entretanto, devo admitir que cansa! Dessa última vez estava muito cansada. Antes de vir, tinha uma estranha sensação de estar indo para casa. O que era um pouco absurdo, considerando que estava vindo para Espanha. Agora já não sei mais se era uma premonição ou cansaço mesmo. Acho que, naquele momento, precisava acreditar que teria uma casa em algum lugar concreto e que não me sentisse afogada como nos EUA.

Descansei.

E contei essa longa história para dizer que meu urso acordou. Sereno, sem fome e sem pressa, mas só para me lembrar que ainda está vivo.

XLI – Palavrotas

Vamos ser sinceros, afinal de contas, depois de quarenta capítulos, mesmo quem não me conhece já pode dizer que tem alguma intimidade, certo? Então, falemos a verdade, qual a primeira coisa que queremos aprender quando estudamos uma nova língua? Os palavrões, é claro! Mesmo que a gente nunca use, a curiosidade é quase infantil. Que tal um intervalo para baixar o nível sem culpa e satisfazer a curiosidade da galera?

Palavrões são chamados palavrotas, entretanto, se você tiver mais de doze anos, é melhor dizer tacos. O Espanhol fala uma porrada de tacos. Viu? Já comecei a baixar o nível. A partir de agora, favor tirar as crianças da sala.

O que mais escuto, escrevi uma vez, é o tal do Joder. Joder, quer dizer foder e se usa com tranquilidade. É muito falado assim no infinitivo: joder! Entretanto, existe a versão foda-se, que é jódete. Essa é a versão light, você pode falar para um amigo sem problemas. Mas se quiser ser ofensivo, tem que dizer que te jodan!. Foder-se você pode, mas que te fodam é muito agressivo!

Bom, o mierda é universal, né? Ninguém precisa de explicações.

Hostia é ambíguo. Não é exatamente um palavrão, mas dependendo de como é dito, soa como um. Pode-se dizer la hostia! para uma coisa muito legal, ou hostia!, que soa como mierda.

Acho que há um pouco de machismo na língual. Quando uma coisa é boa, pode-se dizer que é cojonuda, que provém de cojones ou culhões. Cojonuda é do cacete! Mas se é ruim, se reclama dizendo coño! (órgão sexual feminino). Também há a variação coñazo, muito ruim.

Outra machista, um zorro é uma raposa, uma zorra é uma puta.

Conhecidíssimo é o “me cago en...”. O espanhol, aparentemente, adora cagar em alguma coisa. Isso normalmente quer dizer que ele está puto. O mais comum é o me cago en la leche, não se preocupe tanto com a tradução, afinal de contas, cagar no leite não parece muito ofensivo nem inteligente. Mas é muito utilizado quando você quer reclamar no trânsito com o outro motorista barbeiro. Grite com voz grossa e testa franzida: me cago en la leche!

Pero, você pode cagar em muito mais coisas para xingar os outros. Os que já ouvi na rua são:

Me cago en la hostia
Me cago en tu puta madreMe cago en la mierda (isso não seria um pleonasmo vicioso?)Me cago en la virgen (ou a derivação “me cago en las tetas de la virgen”)
Me cago en dios (desculpem-me os religiosos, mas só estou repetindo)Me cago en tus muertos (gravíssimo para um cigano! Cuidado ou ele puxa uma faca e será crime com atenuante)Me cago en… etc… a criatividade nunca acaba! Cague no que quiser!

Há uma coisa divertida, as pessoas mais velhas, às vezes se sentem constrangidas em dizer “me cago en…” e substituem por “me cachís…”. Acho que nesse caso, é só uma cagadinha.

Por outro lado, se você bostezar, está apenas bocejando.

Pegadinha: se alguma coisa é de puta madre, isso é bom!

Como no Brasil, também há um ritual masculino de confraternização. Nunca vi meu marido cumprimentar um amigo dessa maneira: Olá, Jorge! E o outro responder, Como vai Luiz? É sempre assim: Oi, homossexual-passivo-cachorro-corno! E o outro responde, Fala viadinho-filho-da-puta-beijo-na-bunda! Daí eles se abraçam e isso quer dizer que são muito amigos. Aqui é a mesma coisa. Só que sai algo como cabrón-hijo-de-puta-jódete.

Nessa linha, há o gilipollas. Esse é bastante utilizado, mas difícil de traduzir, é algo como babaca ou dick-head. Pode ser dito entre amigos nos rituais masculinos se - e somente se - forem muito amigos, mas é preciso dominar a arte ou pode pegar muito mal. Na dúvida, não utilize. Segue a mesma cartilha do homem carioca, cuja lógica diz que filho-da-puta, tudo bem, mas otário o cacete, “mermão”!

Também há as expressões sexuais, não necessariamente palavrões, mas é bom saber para não falar bobagem e não parecer um guiri (gringo, turista). Assim como o brasileiro pode “molhar o biscoito”, o espanhol molha outra coisa, ele pode "mojar el churro", o que anatomicamente faz até mais sentido. Também pode “pasar por la piedra”, "echar un kiki" ou "echar un polvo". Atenção! Estoy hecho polvo, quer dizer apenas que você está cansada/o, como em “estou o pó”! Você só “afogou o ganso” mesmo se disser “hecho un polvo”. Esse “un” faz toda a diferença. Agora, se quiser ser mais direto, é “follar”.

Um rapazinho pode "ponerse burro". Na verdade, ele teve uma ereção. Essa é outra que faz sentido, um homem pode ficar meio burro nessa situação! Mas acho mais engraçadinho o termo “ponerse cachondo/a”. Se uma mulher disser a seu parceiro, “hombre, me pones cachonda!”, não estará reclamando e sim cheia de amor para dar.

Viu só como morar na Europa deixa as pessoas mais cultas?
Carai, que hoje estou uma lady! Joder!

XL – Colesterol existe?

Será que colesterol existe mesmo? Alguém já viu de perto um colesterol? Porque se alguém conseguir concentrá-lo e industrializá-lo, pode ter certeza que aqui ele será vendido em poções generosas!

Na verdade, ele terá um balcão exclusivo nos supermercados do El Corte Inglés e será vendido em lonchas (fatias) ou trozos (pedaços). Também terá sua versão ralada, a ser salpicada sobre os ovos com batatas.

Nos anúncios da TV aparecerá uma mocinha bem magrinha passando colesterol sobre uma torrada e um mocinho atlético comendo uma barra de colesterol enquanto faz seus exercícios diários.

Bom, é claro que haverá o comércio ilegal de colesterol líquido injetável na veia! Quem sabe o em pó, para se cheirar; e por que não a versão em fumo, para os mais práticos que querem resolver tudo ao mesmo tempo.

Olha, sei que exagerei para ser didática. Mas garanto que não estamos muito longe disso. Madri é um milagre! Não há outra explicação! Aqui se bebe, se fuma e se come para caramba (porque hoje estou educada)! Entretanto, praticamente não há obesos e as pessoas parecem saudáveis, além de viverem muitos anos! Será que o álcool derrete a gordura e o fumo queima as calorias?

Como diz a piada, o que mata é falar inglês!

XXXIX – Cigarros

Cacete! Como se fuma aqui! E se me achou mal educada, queria ver cheirar essa porcaria todos os dias! Chego a ter um tipo de ressaca de cigarro nos dias seguintes que saio à noite, e nem fumo!

Quer dizer, cigarros normais não fumo e odeio! Charutos, fumo de vez em quando, mesmo assim, apenas se não há ninguém comendo por perto e em áreas arejadas. Por outro lado, ficar ao lado de quem fuma charuto, sem fumá-los é a morte lenta e dolorosa.

Estou mais tolerante. Fiz um trabalho psicológico antes de mudar para não me estressar muito. Afinal de contas, se for radical, aqui não terei amigos. Todo mundo fuma em Madri!

Não sou contra fumantes, mas acho que um pouco de civilidade e respeito ajudaria muito. Se estamos em um bar, é complicado separar os ambientes, e entendo que seja difícil para os fumantes evitarem os cigarros enquanto bebam. Mas em restaurantes é o fim da picada! Atrapalha muito o paladar.

Em toda Europa é assim, mas nem sempre pelos mesmos motivos. Aqui há um resquício pós-franquista, a coisa da “movida madrileña”, que não sei se posso explicar em poucas palavras. A ditadura na Espanha foi coisa séria, deixou a do Brasil parecendo brincadeirinha de criança. Quando acabou, houve uma explosão de agora-faço-o-que-quero. Depois disso, qualquer tentativa de ordenar ou se criar alguma regra, soa como autoritarismo. Na cabeça deles não é só uma “coisa de americanos”, como acreditava antes de chegar, e sim um início de regular o que eles devem ou não fazer.
Aos poucos, mas muito aos poucos mesmo, há algum progresso nesse sentido. Já existe uma meia dúzia de restaurantes onde há espaço para fumantes e não fumantes. Acredite, já é um grande avanço!

XXXVIII – Aula de dança flamenca

O curso de espanhol que estou fazendo oferece uma série de atividades culturais complementares. As aulas são obrigatórias e vão de 15:00 às 18:00 horas. Depois disso, há uma parte opcional, onde são oferecidas palestras sobre filosofia ou arte espanhola, filmes e aulas de dança flamenca. Acho interessante essa preocupação cultural que vai além da língua.

Nas primeiras semanas, não consegui fazer nada além das aulas de idioma. Não tive tempo e depois tive visitas. Enfim, essa semana resolvi correr atrás do prejuízo. Estava muito interessada na aula de dança flamenca, mas não sabia se conseguiria frequentá-la. As vagas são limitadas e havia perdido umas três aulas. Como um “não” eu já tinha, resolvi perguntar se poderia assisti a tal aula. Dei sorte, hoje faltou gente e me encaixei.

Fiquei um pouco apreensiva no início porque não sabia o nível da turma e se havia perdido o bonde. Por outro lado, o fato de ser latina e gostar de uma boa farra, me dá uma certa segurança nesse tipo de situação. Além do mais, frequentávamos alguns bares onde se dança um pouco de flamenco-pop, se é que esse termo existe, e eu tentava imitar os ciganos dançando. Afinal de contas, se rio das pessoas, preciso dar-lhes a chance de rirem um pouco de mim também, né? É justo!

Não destoei da turma, mas não dei nenhum show, viu? O fato é que, enquanto a dança está nos pés e nos quadris, me viro bem. O problema são mãos e braços. Não sei dançar com mãos e braços! A expressão “não consegue andar e mascar chiclete ao mesmo tempo” nunca me fez tanto sentido! Já vi que vou ficar igual a uma maluca pela casa com as mãos de carmem-miranda-alucinada. Mas uma hora vou aprender!

Pelo menos hoje entendi o compasso da batida: 1,2...123, 456, 78910. Também descobri que existe um “palmeiro” oficial. Ou seja, há gente especializada em bater palmas em ritmo flamenco! As palmas até que bati direitinho, tem jeito para batê-las, sabia? Posição das mãos, intensidade, altura do som... não é à toa que há o palmeiro!

Será que conseguirei assistir as aulas novamente na semana que vem?

XXXVII – Luiz perdeu todos os documentos

Meu quarto é muito escuro de manhã. Como se não bastasse minha dificuldade natural em acordar, pois troco a manhã pela noite. Raramente, durmo antes das três e acordo antes das dez. Na prática, depois que passei a trabalhar por conta própria, não faz tanta diferença, simplesmente vivo em outro fuso.

Mas estava eu naquele soninho bom de manhã cedo, quarto escurinho... e toca o telefone! Se não fosse engano, muito raro de acontecer, só podia ser o Luiz. E a essa hora? Só podia ser encrenca! Pois não deu em outra! Era o Luiz desesperado porque esqueceu sua carteira no taxi com todos os documentos. Se perder sua carteira em seu país já é complicado, perder em outro é multiplicar a encheção de saco por dez!

Perdeu de uma só vez todos os cartões de crédito (o que era a parte mais fácil), sua carteira de motorista americana (a única que ele tem no momento) e o documento de identidade da espanha (o tal do NIE que levou meses para ficar pronto). Pequeno detalhe, meus pais chegando no fim de semana e a gente querendo sair, viajar, alugar carro etc.

Ele estava tão angustiado que nem tive coragem de reclamar! Notou a mancada assim que saltou do taxi, mas não a tempo de conseguir ser ouvido. Ficou pulando de raiva sozinho na rua. Posso imaginar a cena.

Nossa esperança era que no NIE do Luiz constava o endereço de casa e quem sabe o motorista tivesse a alma boa de nos devolver a carteira.

Fiquei tentando pensar o que podia fazer para ajudar, enquanto tomava um café. O interfone tocou. Nem acreditei! Será que seria resolvido assim tão rápido? Atendi, mas nada a ver com a carteira, e sim com o carteiro. Era o correio, uma encomenda para mim. Parecia até filme de suspense, viu!

Fui até o ponto onde Luiz pegou o taxi pela manhã para ver se dava sorte, mas ninguém sabia de nada. Além do mais, não é um ponto oficial e sim um local onde os taxis costumam parar para esperar clientes aleatoriamente. A boa notícia é que todos me informaram a respeito de um “objetos perdidos” e me deram o endereço. Disseram-me que era melhor esperar uns dois dias, para dar tempo de entregarem a carteira por lá.

Na volta, conversei com meu porteiro, contei a história toda e avisei que podia aparecer um motorista de taxi nos procurando e tal. Ele também ficou alerta e todos nós na torcida pelos documentos.

E não é que por volta das 13:00 horas, nem tinha saído para a aula ainda, me aparece o motorista com a carteira do Luiz e TODOS os documentos e cartões de crédito! É verdade que o dinheiro sumiu e não era pouco, mas era o menor dos problemas. Não dá para saber se foi o motorista ou algum cliente espertinho. Prefiro pensar que foi distribuição de renda. Alguém precisava mais que nós! E que faça bom proveito!

Liguei correndo para o Luiz, que ficou muito aliviado. Até ouvi uma ou outra voz no fundo da ligação perguntando algo como “achou?”. Ou seja, todo mundo no trabalho já devia saber da história. Deve ter sido uma manhã muito produtiva!

Enfim, tudo bem quando acaba bem!

XXXVI – Nossa comunidade

Quero falar das pessoas do meu prédio. Oficialmente, só conheço o porteiro, mas fico prestando atenção em tudo. Não sei se deveria contar isso, pois parece coisa de matilde fofoqueira, mas vá lá. Digamos que observe antropologicamente falando, assim, como se fosse um estudo científico. Vale?

Acredito que deva começar pelo porteiro, um espanhol mais alto que a média, de seus 45 anos, com a voz bem grossa e rosto sério. A parte engraçada é que não dá para entender chongas do que ele fala! E não sou só eu não, Luiz que fala fluentemente também não entende boa parte. Cheguei a conclusão que isso é mundial: porteiros falam enrolado e ponto! Nesse sentido, posso dizer que aqui me sinto em casa. Não entendia meu porteiro no Rio nem São Paulo e também não entendo em Madri. Mesmo assim, me arrisco e puxo papo com ele. No início ele ficava meio desconfiado e sem graça, aos poucos vai ficando mais simpático. Com meus pais até conversou. Apesar do que, minha mãe também não entendia nada do que ele falava. Ela sempre descia de escada e nós de elevador, por isso ela descia antes e o porteiro conversava com ela para fazer companhia. Segundo minha mãe, de cinco minutos que ele ficou falando, ela só entendeu a palavra “marido”. Mas na dúvida, ela sorriu e concordou com tudo. Espero que ele estivesse perguntando pelo meu pai e não lhe propondo em casamento!

É um bom porteiro. Aqui os prédios não tem muitos funcionários. O nosso só tem ele e já é considerado luxo. Fica na portaria na parte da manhã, até às 13:00 horas, e depois volta de 18:00 às 20:00 horas, quando também aproveita para recolher o lixo. É normal nos prédios os próprios moradores descerem com seu lixo no fim do dia, costuma ter um horário limitado para isso. Aqui, só precisamos por na frente da porta por volta das sete da noite e o porteiro recolhe. De novo, é considerado um luxo. As garrafas e o papelão a gente separa e leva na esquina, onde há containers para lixo reciclável.

A portaria é só a porta do prédio mesmo. Não tem esse negócio de grades por aqui. Muitas vezes a porta fica aberta sem ninguém. É normal, vejo isso em muitos prédios.

Meus vizinhos são mayores. O mais novinho tem uns 80 anos! Meu vizinho de andar é o velho-cuco. A porta do apartamento dele é bem de frente para o elevador. Quase todas as vezes que aperto o botão do elevador, ele abre sua porta e põe o rosto para fora, igual a um cuco! Daí falo bom dia, ele responde, vira para trás, finge que alguém o chamou e fecha a porta outra vez. Totalmente pancada!

Tenho uma vizinha que faz peixe frito todos os dias, literalmente! Outra que não sabe fazer torrada, sempre queima o pão. Poucos fazem carne de boi. Todos cozinham com azeite e muito alho, o que é quase uma regra por aqui. Sei pelos cheiros que sobem na janela.

Tem outro casal que possui um gato persa branco lindo. Não tenho certeza se é gato ou gata, mas pelo tamanho, acho que é macho. Me dá um pouco de nervoso porque eles deixam a janela aberta sem proteção. Tenho medo de brincar com ele e fazê-lo cair. Mas não resisto a cumprimentá-lo e ele já me conhece. Falo baixinho da minha janela: oi, gato emprestado! E ele me escuta, vira na hora para mim. Eles têm uma audição fenomenal. Tentei mostrar o Jack uma vez, mas o meu gordo deu o maior pulo para trás, não gostou muito da história. O gato emprestado nem ligou ou dissimulou.

Definitivamente, há um surdo que escuta a TV em alturas absurdas! Sempre tem alguém que reclama na janela, daí ele abaixa. Até o Luiz mesmo já reclamou. Agora, faz um bom tempo que não o tenho escutado mais. Não sei se é porque o frio começou e as janelas estão fechadas, ou se pela idade das pessoas... mór-reu! Credo! Aqui no prédio uma se foi, fiquei com pena, mas não sei quem era. Soube da história porque colocaram um convite para missa em sua memória no elevador. E não é que o elevador começou a pifar sem parar! Parece filme de terror! Eu, hein! Será que temos direito ao nosso próprio fantasma?

Tem outro surdo (ou será o mesmo) que deixa o despertador tocando horas! Um saco e em horários estapafúrdios.

Também rola o casal baixaria. Para ser sincera, não sei se é um casal ou mãe e filho. Devem ter aprendido espanhol com meu porteiro, não se entende muito. Eles normalmente escolhem os domingos que tenho hóspedes para dar escândalo. Ultimamente, se quietaram. Vai ver que, também pela chegada do frio, resolveram fazer as pazes.

Há uma cantora lírica e todos nós escutamos seus exercícios diários. Por sorte, é uma voz bonita e ela não costuma treinar em horários impróprios. Mesmo assim, às vezes, eu e Luiz a copiamos de casa imitando sua voz de ópera.

Dos outros, não escuto nada. Umas risadas, um cheiro de comida, um barulho de chaves, passos de salto... nada comprometedor. Parecem normais, sempre educados. De um modo geral, aqui é tranquilo. Vamos ver quando eu der a primeira festa!

Escuto isso tudo, porque os prédios normalmente tem uma área de ventilação interna, onde se estendem as roupas. O som sobe por ali e todo mundo sabe da sua vida. Ainda não me acostumei com esse negócio de estender as roupas do lado de fora. Sei lá, tem coisas meio íntimas, né? Fico constrangida em estender minhas calcinhas assim em público, puxa! Tudo bem que é um pátio interno, mas mesmo assim, da mesma maneira que vejo as coisas dos vizinhos, eles não são cegos! Apesar do que, acho que ninguém liga, só eu. De qualquer forma, comprei um tendedor de armar dentro de casa. Se não tenho visitas, uso o banheiro social como área de serviço e fico mais tranquila.

Só mais uma fofoquinha. Outro dia, na corda de estender roupa havia um sutiã incomensurável! Parecia um pára-quedas! Sério, era assustador! Preto com estamparia cafonérrima colorida! Se já era difícil acreditar que alguém podia comprar aquela peça, imagina alguém que a utilizava! Visualizar essa cena quase comprometeu minha vida sexual para sempre! Devia ser proibido como atentado violento ao pudor! Será que é da vizinha que frita peixe ou da que faz torrada queimada?

Tuesday, October 10, 2006

XXXV – O Mariuzin de Madri

No Rio de Janeiro havia uma casa noturna que foi uma das melhores que conheci, o Mariuzin. Ainda existe, mas mudou de lugar e de frequência. O novo não conheço. O antigo lugar devia ter, no máximo, uns 30 m2. Vermelho com espelhos, num estilo cabaret francês. Na porta, uma senhora de seus 70 anos, de vestido de veludo negro e maquiagem carregada recebia as pessoas. Tenho certeza que ela foi a musa inspiradora do Toulouse-Lautrec! O público do lugar era o mais variado e democrático possível: jornalistas, patricinhas, intelectuais, prostitutas, estudantes, executivos... e tudo mais que você possa imaginar. Mas por algum motivo, ao passarem pela porta, eram todos muito civilizados. Nunca vi uma briga, nunca faltou respeito e nunca ouvi uma música ruim!

Finalmente, achei algo parecido por aqui, chama-se Berlin Cabaret, fica em La Latina. Uma amiga de Barcelona me apresentou o lugar. Tem um jeitão de Mariuzin, só que maior. Também é vermelho com espelhos. Ao longo da noite, são feitas apresentações por travestis ou drag queens.

No meio da pista de dança tem um pequeno palco redondo móvel da onde surge uma figura cantando, dançando e fazendo piadinhas com as pessoas. A drag de hoje, vestia um vestidinho vermelho curto e meia arrastão. Uma peruca loira estranha e uns olhos incomensuráveis! Alguém lembra no filme Blade Runner, de uma loira com o cabelo espetado que era uma das robôs? Pois é, parecia com ela, em uma versão mais corpulenta e andrógena. Imagina essa figura surgindo no meio do gelo seco imitando a Lisa Minelli! É surreal, concorda?

As apresentações são curtas e divertidas, e depois volta o som eletrônico. As músicas excelentes! Isso sim é difícil! Até já relaxei e passei a curtir as músicas cafoninhas da cidade, mas não é nada mal ouvir música boa para dançar de vez em quando. Será que é o mesmo DJ do Mariuzin?

XXXIV – Sai pra lá uruca!

Tenho um limite máximo de três dias para ficar muito triste ou aborrecida. Depois disso, me cansa! Das duas uma, entubo ou tomo uma atitude. Nesse caso (raro), resolvi entubar!
Tá bom, posso não ter mais uma identidade muito clara, mas pensando bem, faz parte do brasileiro essa capacidade de se adaptar a novas influências e de mesclar culturas diferentes. Nesse sentido, posso dizer que mantenho alguma identidade, certo? Também se não for, que se dane! Tudo na vida tem um preço, fazer o que?
Acho que foi o faxinão que fiz hoje em casa. Aqui não temos empregada. Nada como uma boa faxina para colocar as coisas sob perspectiva, não é mesmo? Parece aquelas frases machistas do tipo “vai lavar um tanque de roupa suja!”. Mas juro que não é esse o espírito da coisa.
Falando em faxina, desde que mudei para Atlanta, sou eu que faço a limpeza da casa, com alguma ajuda do Luiz, se possível. A diária de uma faxineira nos EUA, para um apartamento, estava por volta de US$ 80; aqui em Madri, por volta de E$ 40. Obviamente, realizada por imigrantes sul americanas. Lembrando que essa diária é por três horinhas de trabalho e só inclui limpeza. Nem pensar em passar uma roupinha ou limpar um vidrinho!
Cheguei a conclusão que não me adiantaria tanto e resolvi cuidar disso eu mesma. Aliás, como a maioria das pessoas faz. Não é só uma questão de dinheiro, é que parece estranho alguém de fora cuidando da sua casa. Entendo isso melhor agora.
Por outro lado, as coisas são mais práticas. Além do apartamento ser menor, os produtos são bons e há todo tipo de paninhos de limpeza descartáveis. Aqui não existe ralo, não se pode lavar um banheiro ou uma cozinha porque não há por onde escorrer a água. Se eu jogar um balde de água no chão da cozinha, vaza lá embaixo na cabeça do vizinho! Também não tem tanque. Isso quer dizer que se eu precisar lavar um pano de chão, posso escolher entre a pia do banheiro ou a pia da cozinha! Eca! Nojenta do jeito que eu sou, uso tudo descartável.
Lembrei de uma história, uma vez, brincando com esse negócio que eu faço a faxina, escrevi em uma mensagem para amigos dizendo que a faxineira aqui em casa é universitária e dorme com o patrão. Um dos amigos não entendeu e nos achou muito modernos! A minha piada, em si, era até meio sem graça. Mas ter que explicá-la para ele foi hilário!
Outro hábito que adquirimos foi o de tirar os sapatos ao entrar em casa, normalmente, pedimos aos hóspedes que também os tire. As visitas, a gente deixa meio opcional, algumas pessoas ficam desconfortáveis e não é nosso objetivo, por isso não insistimos. Mas é que o Jack - e batatinha quando nasce - se esparrama pelo chão, e depois sobe na nossa cama e no sofá branco. A casa fica mais limpa também quando tiramos os sapatos, facilita minha vida.
Adoro a casa arrumada, com cheiro bom de incenso. Pronto! Casa limpa, sai pra lá uruca!

XXXIII - Cidadã do Mundo

Hoje no curso de espanhol, um dos temas a serem discutidos foi “esteriótipos de cada nacionalidade”. Além de treinar o idioma, também foi uma forma de conhecer um pouco de cada cultura. Sou a única brasileira da turma de aproximadamente vinte pessoas.
Discutimos em grupos de três, depois cada um falou para a turma um pouco de seu país. Ao final, foi a vez da professora falar da cultura espanhola. Independente do que foi dito, percebi em todos um certo orgulho em expôr seu país e uma facilidade em se encaixar no perfil exposto. Havia uma identidade muito clara em cada um deles. Menos em mim.

Fui a última a falar, mesmo assim, sem querer muito, é porque não tinha jeito. Fiz meu teatrinho e ressaltei as coisas boas. Na hora, achei que estava com um pouco de preguiça, o que justificaria a falta de boa vontade.

Mas não pude notar que, quando a tal professora expunha os pontos positivos na cultura espanhola - coisas que eu concordava absolutamente - me incomodava. Eu concordava com tudo, muitas vezes me ouvi contando os mesmos tópicos; então porque me incomodava tanto ouvir de outra boca? E as outras bocas de outros países também me incomodaram.

No caminho do metrô, não achei graça nas figuras caricatas dos passageiros. Hoje eles me pareciam pobres, meio sujos, antipáticos. Mas eram os mesmo. Eu que não era a mesma.

Hoje eu conheci a inveja e me envergonho disso.

Não posso dizer que nunca invejei ninguém, mas nunca assim. Tenho muitos defeitos, mas esse sentimento não pertence a minha natureza. Eu invejo uma amiga que fez alguma coisa que também queria fazer. Quando a gente diz: Ai, que inveja! A chamada inveja boa. No fundo, estou feliz por ela, mas gostaria de compartilhar a experiência. Eu invejo aquela modelo lindíssima que diz que só come besteira, e quando perguntam porque ela é tão magra, ela responde irritantemente simpática que é seu metabolismo. Ai, que inveja!

Mas hoje não foi essa que eu senti.

Fui chamada muitas vezes, de brincadeira ou não, de cidadã do mundo. Eu gostava disso. Essa sensação de internacionalidade me caía bem. Mas hoje me pareceu que um cidadão do mundo pode ser um cidadão de lugar nenhum. Minha nacionalidade eu sei bem, e ainda me orgulho dela, mas não sei mais qual a minha identidade. Não é de agora, mas só hoje me incomodou.

Eu tive inveja de quem morou a vida toda em uma cidade, de quem mora na mesma rua da família, de quem cresceu com um amigo de infância, de quem lembra da sua cama quando tinha dez anos, de quem tem um lugar dos sonhos para colocar a casa desejada, de quem já construiu essa casa, de quem teve filhos porque parecia natural, de quem não percebeu que a parede precisa de pintura, de quem não precisa explicar qual é a sua profissão, de quem fala uma só língua, de quem tem um sotaque que todos reconhecem e de quem tem um livro favorito. Amanhã não me importará mais, mas hoje, e só hoje, eu me incomodei muito com isso.

Hoje eu aprendi a inveja, estou gris e fiquei com vergonha.

XXXII – Falando em Burdeus

Temos um casal de amigos franceses que gostamos muito. A forma que nos conhecemos foi curiosa. Acompanhei Luiz a um treinamento na Inglaterra, em uma cidadezinha minúscula há mais de uma hora de Londres. Quando estava quase morrendo de tédio, resolvi gastar os últimos dias em Paris. Nesse curso do Luiz, ele fez um amigo francês e lhe contou que eu estava indo para lá. O amigo, por sua vez, também lhe disse que a esposa estava só em Paris. Eles haviam acabado de se mudar e ela ainda não tinha achado emprego. Daí o Luiz deu meu telefone celular ao seu amigo, que repassou para a esposa dele.

Eu nunca acreditei que ela iria me ligar, mas ela ligou logo em seguida. Ficamos super amigas e saímos a semana toda. O fato curioso é que Luiz ficou amigo do marido, sem eu nunca vê-lo; e eu fiquei amiga da esposa, sem Luiz conhecê-la. Mantivemos o contato e, quase um ano depois, ficamos hospedados na casa deles por um fim de semana, quando finalmente nos conhecemos os quatro juntos!

Bom, esse ano, essa minha amiga fez 30 anos e o marido lhe preparou uma festa surpresa. Eles agora moram em uma cidadezinha próxima a Bordeaux. Fomos convidados para festa e ficamos hospedados novamente com eles, em Marmande.

Foi quando descobrimos que os espanhóis chamavam Bordeaux de Burdeus!

Marmande é uma gracinha. Pequena e interessante, com algumas construções datadas do ano de 1300.

Os donos da casa onde foi a festa eram os pais do nosso amigo. Um casal muito gentil e simpático. Nem sempre nos entendíamos no idioma, mas íamos misturando as línguas e apelando para mímicas. Funcionou! Como a temperatura estava agradável, quase todas as refeições foram servidas no jardim. Fazia tempo que não relaxava tanto.

Aparentemente, na região é comum, quando um filho nasce, os pais comprarem uma caixa de determinado vinho e guardarem para as datas de aniversário importantes. No caso, no dia da festa, tomamos um Bordeaux 30 anos. Fantástico!

Finalmente, estava preparada para tomá-lo e entendê-lo. A primeira vez que tomei um vinho tão antigo e importante quanto esse, não estava pronta. Foi há alguns anos atrás e meu sogro que ofereceu. Na minha ignorância, acreditava que o vinho deveria ser mais gostoso. Acontece que mais gostoso é chocolate.

O que faz um vinho assim ser inesquecível é a falta de sabores e aromas comparáveis. Ele é único! Apesar da minha boca salivar em lembrá-lo, acho inútil descrevê-lo. Além do mais, é fundamental você se sentir especial a ponto de alguém achar que você mereça dividí-lo. Ter essa possibilidade junto com Luiz e entre amigos, não tem preço!

XXXI – As traduções

Por aqui, tudo se traduz! Inclusive nomes próprios. Acho que é resquício da ditadura do Franco, quando as traduções eram obrigatórias. Mas não tenho certeza disso, simplesmente ouvi em uma entrevista na TV.

O fato é que da primeira vez que fui a um cinema em Madri, quase tive um treco! Descobri que os filmes são sempre dublados e não legendados. Há a possibilidade de vê-los legendados também, mas só em alguns cinemas específicos. Sem brincadeira, a experiência de ver o John Travolta com sotaque cucaracho é algo inesquecível! Ainda bem que não era sotaque portenho, ou juro que subiria na cadeira e berraria: saia desse corpo!

Foi engraçado também quando fui ao Museu do Prado e havia uma exposição temporária chamada “Durero”. Não conhecia o significado da palavra e fiquei curiosa para saber do que se tratava. Só entendi quando entrei e vi a primeira gravura: Dürer! Aqui o pobre do Albrecht Dürer, se tornou o Alberto Durero. Assim como o príncipe Carlos de Inglaterra, pai do Guilhermo.

Agora, dose mesmo foi quando compramos nossa passagem para Bordeux e ficamos na dúvida se haviam nos vendido o bilhete correto. É que quando lemos o destino da viagem, constava “Burdeus”. Francamente, você prefere tomar um vinho de bordeux ou de burdeus? Eu acharia que era alguma falsificação paraguaia mal feita!

Estou pensando seriamente em adotar esse esquema. Já estou quase dizendo que me chamo “Blanca”, é menos mal do que ver meu nome escrito “Vianca”. Viu a anca de quem?

XXX - Eu e Jack

Depois de ficarem conosco por duas semanas, meus pais voltaram ao Brasil. De quebra, Luiz também viajou a trabalho para Boston. Que Boston! Caramba, como a casa fica vazia de repente!

Já é a segunda vez que tenho hóspedes que vão embora com Luiz viajando. Fico com aquela cara de bunda. Desculpe, mas não sei como descrever de forma mais educada essa expressão de nádegas! Essas coisas tem que ter regulamento! Não pode ser assim! Vamos combinar, quem vier a partir de agora está proibido de dizer que está indo embora. Diz que vai comprar cigarros e não volta, pode ser?

Vou saber que é mentira, quase ninguém que conheço fuma! Mas, pelo menos, consigo manter minha pose. Posso fazer a cara 43 e dar aquela olhadinha distraída por cima do ombro e dizer, ok! Dá para trazer pão também? Daí vocês respondem, claro, então vou levar a mala para ajudar a trazer tudo... E dessa forma nos despedimos civilizadamente!

Ainda bem que eu sou flamengo e tenho meu Jack, que além de gato é um cavalheiro. Faz questão de fingir que precisa da minha companhia o tempo todo. Quando a casa se esvazia ele fica elétrico, faz um monte de gaiatices e quase me derruba para correr na minha frente se embolando nos meus pés. Depois vem dormir comigo e interrompe meu sono leve com seu ronco. Ele ronca! Acordo com um rosto de gato, colado no meu, com o bigode me fazendo cosquinha e ronronando bem alto. É hora de levantar e voltar à quase-rotina.

XXIX – Ora, pois!

Passamos um fim de semana em Portugal. Pegamos um avião para Lisboa e lá alugamos um carro para passear pelos arredores. Fomos a Caiscais, Estoril, Sintra, Queluz e Mafra. Além de passear por Lisboa mesmo.

Fui a Lisboa quando tinha uns sete anos, no máximo. Lembrava-me de algumas coisas, mas muito pontuadas e nebulosas. Agora voltando adulta, aos poucos fui me lembrando de outras e o resto conheci como se fosse a primeira vez. A cidade me lembrou muito o Rio de Janeiro, na sua parte mais antiga, e São Paulo, na mais moderna. Natural, né? Meus destaques, daria para Castelo de São Jorge, Monastério dos Jerônimos, Torre de Belém e Docas.

No Castelo de São Jorge, quando criança, me lembrava de perseguir algumas galinhas-da-angola. Essas não estavam mais lá, devem ter virado canja faz tempo! Dessa vez haviam pavões.

O que achei engraçado foi a minha dificuldade com o sotaque português. É que agora estou fora do Brasil há uns dois anos e me acostumei a mudar a chave na cabeça para “idioma estrangeiro”. Quando escuto o português de Portugal, me soa como estrangeiro e, automaticamente, tenho o reflexo de falar outro idioma. É ridículo! Mas paguei o mico de ter dificuldade em falar minha própria língua! Fiz um passeio de bonde, com narração por onde passávamos. Preferi usar a opção “espanhol” e o Luiz “inglês”, ficava mais fácil!

Claro que teve a parte gastronômica! Comemos uns camarões enfurecidos no restaurante Ribadouro, próximo à praça dos restauradores, daqueles que devem dar surra em lagostas, juro! Cada dois camarõezinhos pesavam meio kilo - e isso não é linguagem figurativa! Também aproveitamos para ir a uma churrascaria brasileira, a Búfalo Grill, ai que delícia! Aqui em Madri, comemos muito bem, mas falta uma boa churrascaria.

Em Atlanta havia excelentes churrascarias, todas brasileiras. Eram caras e bem frequentadas. Acho que nem no Brasil comi tanta picanha na vida! Além do que, conhecemos um amigo americano que se apaixonou pelo churrasco brasileiro. Na sua casa, Luiz o ajudou a improvisar uma churrasqueira com tijolos refratários. As carnes, podíamos comprar no “Brazileirão Supermercados” ou no “Coisas do Brasil” (os nomes eram exatamente assim, e lá dentro só o gerente sabia falar inglês!). Esse amigo apaixonado por churrasco. Mudou-se depois para Vermont. Na sua bagagem, levou várias peças de picanha congelada. Passamos um Reveillon com ele e fizemos um churrasco, abaixo de zero, no meio da neve, daqueles que precisava se colocar papel alumínio em cima das carnes. As cervejas eram enterradas no chão, também na neve, para gelar.

Caramba, e não é que estou falando de comida outra vez! Mas já que o assunto é esse... voltando a Lisboa, quase ao lado do Jerônimos, você compra o melhor pastel de belém do mundo! Sai quentinho, uma delícia! Tem sempre fila na porta. Também, a casa foi fundada em 1837. Depois de quase 200 anos, eles tinham que aprender, né?

Gostei muito da parte moderna da cidade, onde fica o Parque das Nações. Foi fundado um shopping, Vasco da Gama, que apesar do nome é lindo! A sua volta tem um centro de exposições, prédios modernosos, teleférico, é bem interessante.
Domingo à noite, voltamos para Madri. Exaustos! Adorei a viagem!

XXVIII – Filho de Peixe

As pessoas quando viajam tem o costume de levar presentes ou lembranças para seus familiares. Os presentinhos de viagem variam dependendo do dinheiro, paciência ou tamanho da mala. Camisetas com o nome da cidade, bolsas de marca, miniaturas dos principais monumentos, aparelhos eletrônicos, coisas assim.

Minha família leva comida! E o pior é que costuma ser o presente que mais agrada.

Meus pais vieram nos visitar em outubro. Ainda no Brasil, me perguntaram o que queríamos que trouxessem. Do que sentíamos falta? Minha lista saiu rapidamente: carne seca, paio, costelinha defumada, pimenta malagueta, cachaça... Digamos, um kit-arataca.

Não sabíamos se isso tudo passaria pela alfândega, porque oficialmente é proibido entrar com carnes no país, mas não custava tentar. Ao passarem pela saída do desembarque, a primeira frase do meu pai não foi “oi” nem “que saudade”, mas feliz da vida me disse: a feijoada passou!. E eu mais feliz ainda, é claro!

É verdade que ainda tinha carne seca no congelador. Recebo carne seca pelo Sedex! Meu pai compra no mercado embalada à vácuo e minha mãe põe no correio em Copacabana. Chega aqui em Madri na minha porta. A carne seca mais cara do mundo! Mas como me deixariam passar essa vontade? Pensando bem, acho que sou meio mimada, né?

Bom, quando chegaram aqui, antes de mostrar o Museo do Prado e a Plaza Mayor, fui logo ensinando onde ficavam os mercados e restaurantes mais próximos. Vai que o armário e a geladeira, abarrotados de comida, não fossem o suficiente! Porque, lógico, havia comprado uma seleção de frios, queijos e comidinhas típicas.

Comida para gente é coisa séria! Não é um ato realizado unicamente para se matar a fome. Tem um ritual de carinho, amizade, expectativa e, porque não, também uma boa dose de gula. Todos sabem cozinhar, não é uma coisa de homens ou mulheres. E gosto muito que seja assim.

Como qualquer família, tivemos bons e maus momentos, nossos problemas também. Mas ao redor da mesa, não me lembro de nada de ruim, sempre era bom! A mesa era a Suíça da casa, território neutro. Talvez seja o motivo de até hoje eu gostar de alimentar as pessoas. É quase impossível para mim receber alguém e não oferecer comida.

E, certamente, na volta ao Brasil, as malas também foram cheias de guloseimas: uma peça inteira de jamón (ibérico de bellota, é óbvio! O alucinante pata negra!), lomo ibérico, fuet, azeitonas com e sem anchovas, mariscos enlatados... afinal de contas, do lado de lá também havia seus amigos e meu irmão.

XXVII – O bar da Plaza Paja

No caminho para Plaza Paja, em la latina, tem um bar que gosto muito. Ele oferece umas mesas do lado de fora, encostadas no muro de pedra da Igreja de San Izidro. Na frente das mesas há uma calçada larga por onde passa muita gente.

Além de ir com Luiz, também levei uns dois ou três hóspedes ali. Depois de caminhar pelo centro, é um bom ponto para sentar, descansar um pouco e aproveitar o intervalo para um pipizinho básico em um banheiro limpo. Enquanto isso, fazer o que? Tomar uma cava para refrescar e, se a cozinha estiver aberta, comer umas tapas.

Todas as vezes que vou lá, tem sempre um homem que vai de boné, óculos escuros, umas revistas e sua cachorrinha. Ele mesmo a gente não nota tanto, mas a cachorrinha faz o maior sucesso. É uma puggy muito sociável que senta na cadeira igual gente. Muitas pessoas que passam gostam de cumprimentá-la.

Nos dias mais movimentados, há músicos que param e fazem suas apresentações. Sempre demos sorte e foi um instrumento clássico, tocando jazz ou bossa nova. Podia ser bem pior, na frente do Palácio Real, costuma ser acordeon tocando Macarena. Da última vez, tinha uma mocinha muito simpática que tocava flauta e nos apresentou uma música do maestro “xopim”. Só entendi de quem era quando iniciou “Garota de Ipanema”.

Mas o mais interessante é olhar o pessoal passar na calçada. Também é daqueles lugares onde a gente senta um do lado do outro, olhando para rua. Ninguém quer ficar de costas. Ao Admirar as pessoas, francamente, não soube como categorizar seus estilos de se vestir. O estilo mais preciso que encontrei é o “estilo esquisito”. Como tem esquisito! Passa um mocinho com sapato azul turquesa de bico fino, mocinha com chapéu cor-de-rosa e aplique de flor, cintos metálicos localizados embaixo da bunda (tá segurando o que?), cortes de cabelos estapafúrdios... o difícil é achar alguém normal.

Em uma das vezes, estava com Luiz e desceu um grupo de uns quinze esquisitos juntos. Assim, de uma vez só, em bando. Não tive dúvidas: Luiz, acho que aí embaixo tem uma reunião daqueles grupos de auto ajuda! Ficamos rindo e inventando nomes para a reunião do dia – “Sou esquisito, é daí?”, “Estranho, porém feliz”... Não demorou muito, desceu outro bando. Acho que era a outra sessão que iniciava em 20 minutos!
Na hora de ir embora, depois de reparar e rir de um monte de gente, me olhei bem e cheguei a conclusão que a esquisitinha deveria ser eu. Quem sabe se eu correresse conseguisse pegar também a próxima sessão!

Wednesday, October 04, 2006

XXVI – Aulas de Espanhol

Cansei de falar igual turista! Finalmente, resolvi e tive tempo de entrar em um curso de espanhol. Não há mais problema algum para falar na rua, mas queria fazer uma pós graduação ano que vem, e já me imaginou escrevendo textos com “nóis vai, nóis foi”! Não dá, né?

Pesquisei e acabei optando pelo curso da Universidade Complutense, que é a maior aqui de Madri. É super bem recomendado. São todos os dias da semana, três horas por dia, de outubro a dezembro. No primeiro dia de aula, é realizado um teste para saber em que nível você está e se dividir as turmas. O limite mínimo de idade é de dezesseis anos (ui!).

No primeiro dia, havia cerca de 150 alunos em um auditório para a abertura do curso e a divisão dos grupos a serem testados. Apavorada com o limite mínimo de idade, dei aquela olhada geral para ter uma idéia da faixa etária. Não estava tão mal. Definitivamente, a maior parte tinha mais de vinte anos. Infelizmente, não muito mais.

Por outro lado, eu não era a mais velha. Acho que era, pelo menos, a 5a mais velha... dos 150! Tudo bem, enquanto não me chamarem de Mrs. Robinson, tá bom!

Atrás de mim, aquela conversinha pós-adolescente: meu namorado atual... ah, nós não estamos mais juntos, mas nos tornamos grandes amigos... Putz! Ninguém merece! Como elas falavam em inglês, fiquei na esperança que fossem muito básicas e não caíssem na minha turma. Passei para o curso avançado, aparentemente, alguém acha que falo melhor do que acredito.

No caminho de volta fui me sentindo assim, um pouco antiga. Peguei o metrô. A faculdade é longe da minha casa e não dá para ir a pé. Quando terminei de me sentar, tinha o casaco amarrado na cintura e ficou um pouco incômodo. Levantei para tirá-lo bem no momento que o metrô andou, claro! O maquinista devia estar de sacanagem só esperando para me derrubar.

Saí catando cavaco uns três metros, até conseguir me segurar. Um senhor tentou me ajudar, quando falou mujer!. Olha, e eu achando que eles só diziam hombre!.

Bom, me sentei outra vez e dei aquela verificada se havia me machucado, mas estava tudo ok. Foi quando percebi que ali havia uma mensagem divina! Olha que bom que eu tinha mais de trinta anos! Se eu tivesse vinte, naquele momento estaria morta de vergonha! Se houvesse um menino bonitinho no vagão, então? No dia seguinte eu mudaria meu horário ou me disfarçaria com enormes óculos escuros!
Com trinta e cinco, eu não estava nem aí! Minha única preocupação eram meus joelhos! Pode?

XXV – Os velhos amigos que andam de braços dados

Há muitas pessoas que caminham pela rua. Jovens, velhos, mulheres, homens, grupos, pessoas sozinhas... todo mundo! Tirando a hora da siesta, quando as calçadas se esvaziam, o resto do dia ou da noite, elas estão sempre movimentadas.

Voltei a usar o verbo “passear”. As pessoas passeiam! Parece não ser muito importante onde estão indo, nem haver uma hora definida para chegar. Recuperou-se a sabedoria canina de aproveitar a delícia de sair de casa.

Moro em um bairro onde as pessoas são mais velhas, aqui são chamados de “mayores”. Acho muito inteligente isso de quanto mais velho, mayor. E eles também saem para passear.

Vejo muitos desses casais mayores passeando de braços dados. Vão com um ritmo e sincronia de quem anda junto há muito tempo. São como antigos parceiros de dança. É comum também se ver mulheres mayores andando com seus braços dados. Talvez viúvas, irmãs ou amigas. Mas o que me impressionou mesmo foi ver homens mayores com seus braços dados, normalmente com alguma dificuldade de locomoção.

Dois homens de braços dados não é algo comum de se ver em uma cultura latina. Há um direcionamento imediato e preconceituoso ao homossexualismo. É algo difícil de se ver com naturalidade, pois por algum motivo louco isso choca. A homossexualidade não me choca e mesmo assim, não tinha em minha memória uma imagem de dois homens de braços dados com tanta naturalidade. Das vezes que vi, sempre me pareceu um pouco constrangido, provocador ou com intenção de humor. Não quero nesse momento levantar bandeiras, talvez o faça outro dia, mas hoje não. Só estou colocando a carga de pudor que existe em um gesto que é razoavelmente simples, ou que deveria ser.

E não é só isso, acredito que também há um peso da masculinidade, onde esse gesto poderia significar assumir uma fraqueza publicamente. Ao homem foi dada a função de protetor e nunca de protegido. É difícil para meu marido me ver com frio sem me dar seu casaco, é difícil para meu pai me deixar carregar a mala mais pesada. Vai muito além de um machismo bobo, simplesmente é difícil para eles.

Portanto, quando vejo dois homens mayores passeando de braços dados na rua, isso me emociona. É definitivo e não requer explicações! Eles colocam os pudores e preconceitos no seu devido lugar, pois há muitos anos estão acima dessas bobagens. Um homem mayor que tem um amigo para apoiar o braço e lhe ajudar a caminhar, só pode ter feito alguma coisa certa na vida. E o amigo que lhe dá esse braço sem a menor vergonha, só pode ser um homem bom.
A vontade que me dá é de parar na calçada e fazer uma reverência, dessas que a gente faz para reis. Dois velhos amigos caminhando de braços dados é lindo!

XXIV – O dilema, não muito difícil, de não ter carro

Quando cheguei aqui, tomei uma decisão que nunca me passou pela cabeça antes. Não quero mais dirigir! Cansei.

Há muitos anos o carro era quase uma parte do meu corpo, um prolongamento das minhas pernas e braços. Dirigir já não me dava tanta satisfação como no início, mas minha vida simplesmente foi se tornando inviável sem quatro rodas.

Tirei carteira aos dezoito anos e uma semana. Nem fiz auto escola porque as aulas demorariam mais de um mês. Um mês quando a gente tem dezoito anos é uma eternidade para se esperar. Tive um tutor e, no próprio dia do aniversário dei entrada no processo no Detran para fazer as provas. Uma semana depois, a carteira estava na minha mão. Nessa época, morava em Brasília e o transporte público era caro e ruim. Ainda por cima, os ônibus paravam à meia-noite. Um carro era minha independência!

Ainda aos dezoito anos, voltamos a morar no Rio, onde realmente aprendi a dirigir. Eu gostava! Foi também quando comecei a viajar de carro, e era um prazer indescritível pegar a estrada. Era a minha liberdade. Cheguei até a entender um pouco de mecânica, muito importante quando seu carro é usado!

Em São Paulo, os carros não eram tão usados e até bem confortáveis. Tinham que ser, quando você precisa passar mais de duas horas do seu dia no trânsito... Além de se adicionar a essa equação o fator “status”. A marca do seu carro era algo fundamental até a violência crescer tanto, que as pessoas passaram a buscar os modelos mais simples para não chamar atenção. Aos poucos, fui perdendo o gosto por dirigir, mas não via outra alternativa.

Em Atlanta então, nem se fala! É uma cidade construída para se andar de carro, muitas vezes as ruas nem tem calçada. E ainda por cima, para ter a carteira de motorista americana, tive que fazer prova de direção, teórica e prática, outra vez. O lado bom é que o trânsito não era tão ruim como o de São Paulo e o melhor ainda, não tinha motoboy!

Enfim, quando cheguei aqui, já de saco muito cheio de dirigir, percebi que o transporte público era ótimo e as ruas razoavelmente seguras, não tive a menor dúvida: me aposentei do volante! O trânsito não é muito melhor que São Paulo e estacionar é bem mais difícil. É irritante!

O melhor de tudo foi voltar a caminhar na rua. Engraçado que foi um prazer muito parecido ao de quando tirei minha carteira. De uma maneira antagônica, também significou independência e liberdade. Parece exagero, mas tive que reaprender a andar. Utilizar músculos que não me lembrava, proteger meus joelhos, selecionar os sapatos de forma diferente, calcular o tempo para cobrir determinada distância. Caminhando pela rua é quando vejo e penso mais.
Por que demorei tanto a fazer algo tão fácil?

XXIII – El Museo del Jamón

...se a loja do El Corte Inglés se reproduz à noite, quem será seu parceiro? Na minha opinião, só pode ser o Museo del Jamón! De vez em quando, ele dá uma escapadinha e também se relaciona com a Zara, outra espécie muito fértil!

Numa cidade onde se cultua a boa (e calórica) comida, faz todo sentido do mundo haver um museu do presunto! O Museo del Jamón é uma cadeia de bares/restaurantes muito popular que, como o próprio nome denuncia, é especializada em jamón. Seu preço é bem razoável e sua decoração inconfundível! São vários presuntos crus espanhóis pendurados ao teto. Quando digo vários, quero dizer centenas!

O jamón é outra instituição por aqui! O espanhol adora e come mesmo com frequência. Entretanto, não é tão barato, como muita gente imagina. É preciso entender também sua classificação e não pagar gato por lebre ao comprar. Essa classificação é extensa, mas vou falar só do básico.

Há o jamón serrano, que é mais comum e muito bom; o jamón ibérico é de qualidade superior e, portanto, mais caro que o serrano. O ibérico é proveniente de uma raça específica de porcos, de capa negra, que possuem como característica a capacidade de acumular gordura embaixo da pele e infiltrá-la em seus músculos. Outro fator importante que os diferencia é serem criados livres no campo, e não confinados nem com alimentação forçada. Digamos assim, são porquinhos felizes.

Ainda falando dos ibéricos, eles são subdivididos em “de recebo” ou “de bellota”. A diferença está em quanta alimentação provém exclusivamente dos pastos ou é complementada com ração. Os ibéricos de bellota possuem a alimentação mais natural e são os melhores.

Essa questão da alimentação natural e de serem criados livres não é simplesmente ecológica. Interfere diretamente no sabor do jamón e, consequentemente, no seu preço.

Conclusão: nesse momento, os judeus ortodoxos devem me odiar e me deu fome outra vez. Vou comer jamón!

XXII – El Corte Inglés

Para quem nunca veio a Madri, El Corte Inglés é um tipo de loja de departamentos que tem absolutamente tudo: supermercados, perfumaria, roupas, CDs, eletrônicos... tudo! E para quem já veio, é impossível que não tenha notado algum pela cidade. Eles são tantos que parecem saltar na sua frente quando você passeia. Acredito que eles se reproduzam à noite. Não tem como fugir!

Então, se não pode com eles... porque não dar uma entradinha, né?

Claro que perto da minha casa também tem El Corte Inglés! Na verdade, acho que perto da casa de todo mundo. Mas enfim, é onde faço a maior parte das minhas compras de supermercado.

Sabe aqueles carrinhos de fazer compra na feira? Aqueles que normalmente são usados pelas velhinhas? Pois é, tenho um. É um pouco mais chic, porque é revestido de um material térmico. Até porque há uma variação de temperatura maior aqui que no Brasil. Continua parecendo um andador de velhinha, inclusive muitas o utilizam também com essa função. Mas não quero nem saber, carregar compras no braço não é tarefa simples e o tal do carrinho quebra o maior galho!

Além do que, faz parte da minha “malhação” gratuita. Preciso arrumar alguma forma de gastar os milhões de calorias que a gente tem consumido. Portanto, enquanto ando, malho perna; nas escadas do metrô e me equilibrando em seus vagões, malho bumbum; com o carrinho de compras, malho braço; e por aí vai.

Você pode optar por te entregarem as compras em casa. Se as fizer até às 14:00 horas, eles te entregam no mesmo dia. Se passar desse horário, só no dia seguinte. As compras mais pesadas, peço que me entreguem porque não tenho automóvel.

Os entregadores fazem seu trabalho a pé, porque estacionar é um inferno! Normalmente, usam um tipo de carrinho de mão onde se empilham pequenos containers de plástico rígido. Param na calçada, em frente ao edifício do cliente, sobem com suas compras, e deixam as outras ali na calçada mesmo esperando. Assim, sozinhas! Ninguém mexe! Nunca chegou faltando nada para mim.
O restante das compras, faço nas lojas menores e mais específicas. Nunca entre 14:00 e 17:00 horas! Não insista que isso é considerado pecado mortal! Nesse horário, quase todo o comércio está fechado para a siesta. É impressionante! Os únicos mercados que não fecham nessas horas são os administrados por orientais e, lógico, o El Corte Inglés.

XXI – La Tortilla Española

A tortilla española é uma instituição, uma espécie de orgulho nacional! Acho que é o “arroz-com-feijão” daqui.

Da primeira vez que experimentamos, tanto eu quanto Luiz não achamos lá essas coisas. Muito cá entre nós, hein? Porque se algum espanhol me escutar dizer isso, é capaz de eu ser extraditada! Me pareceu um omeletão de batata meio sem graça. Com o tempo, fui pegando gosto e vendo que também depende muito se é bem feita. Atualmente, adoro!

Receita:

Cortar a batata em rodelas finas ou pedaços pequenos, secar e fritá-las em azeite. O azeite tem que cobrir as batatas e elas não precisam ficar morenas, mas cozidas. Adicionar cebola picada na fritura e deixar o cheiro subir (aquele cheirinho delicioso da cebola fritando no azeite...hummm).

Em paralelo, bater os ovos, como em um omelete. Quando as batatas e a cebola estiverem no ponto, misturar rapidamente aos ovos batidos, adicionar um pouco de sal e fritar tudo, também como um omelete. Tem que fritar dos dois lados. Pessoalmente, prefiro quando o interior fica um pouco molhadinho.

Pues... hombre! É muito bom!

Essa combinação de ovos com batatas aqui é comum. Putz! É mortal! Mas como resistir? Falando nisso, tem também os huevos rotos, que são os ovos mexidos. Entretanto, costumam vir com batata frita no azeite e cubinhos de jamón curado. Um chute no balde!

E os pinchos e as tostas? São torradões, o pincho do tamanho de uma bruschetta e as tostas maiores. Varia a cobertura: camarões, gulas, jamón, queijos... combinações criativas. Também perto de casa, tem um bar de copas que serve uma dessas torradas com camarõezinhos ao alho e óleo, que estou segura que um certo amigo meu, também hóspede aqui, vai mexer na cadeira só de ouvir!

Tem as croquetas, mas essas merecem um capítulo especial.

Para terminar de meter o pé na jaca mesmo, só pedindo o vinho da casa para acompanhar. Ultimamente, nem me preocupo em saber a marca, pois é sempre bom. Me conformo em pedir pela região e estamos conversados.

Bom, agora preciso ir, porque me deu uma fome...

XX – La Daniela e o bom humor de seus garçons mal humorados

Perto da minha casa tem um restaurante chamado “La Daniela”. Creio que é um dos tradicionais por aqui, bastante conhecido por seu cocido madrileño. Uma boa parte dos restaurantes, incluindo o Daniela, tem um balcão onde as pessoas comem as tapas e bebem de pé.

Uma dica, não sei por que raios, mas todo mundo tem a mania pouco higiênica de comer e jogar (ou deixar cair) os guardanapos usados, palitos, guimbas de cigarro etc no chão mesmo. Ou seja, se quer avaliar o quanto um bar é popular, averigue o quanto o chão está sujo em volta do balcão! Se estiver muito limpinho... xiiiii... caído!

Voltando ao caso do Daniela, na primeira vez que tentamos jantar por lá estava muito cheio e não tive o menor saco com o atendimento meio confuso e mal humorado. Fomos embora. Mas tinha ouvido falar bem da comida e Luiz estava curioso para voltar. Muito bem, para provar que não sou uma pessoa de todo rancorosa, um belo dia, tomei uma dose de paciência e me propus a encarar o desafio.

Quando chegamos estava cheio, como sempre, e perguntamos ao gordinho do balcão se havia mesa. Ele mal olhou para nossa cara, apontou para trás e disse algo como, tem que falar ali com a minha “companheira”. A companheira chamava Lola e, por sua vez, nos disse que não tardaria muito a vagar uma mesa. Sentamos pelo balcão, enquanto esperávamos, e ficamos observando o local e as pessoas. Sei que ela chama Lola, graças a outra garçonete – uma baixinha que devia bater no meu umbigo, mas de uma voz poderosa – que berrava: Looooooolaaa... sluoxvmeo%^&ajfnvoa*f#ijoaiganfaoifñugoer! E a Lola respondia bem alto também: Pues... hombre! Laljfo#aiugal*gj%odgogoaivones! E quando eu achava que elas iam se pegar pelo cabelo e rolar no chão brigando, as duas morriam de rir! Foi quando começamos a entender como funcionava o esquema!

Não era uma questão de mal humor, era o jeito deles se comunicarem. No fundo, eram uns debochados! Além do que, era uma zorra! Uma reclamava da outra que não escutava direito, que demorava a entregar os pedidos, o barman fumava enquanto servia as bebidas, quando algum pedido ficava pronto e o garçon não sabia para quem era, berrava o nome do prato até um cliente berrar também “é meu!”. Um caos!

No meio daquela bagunça o que mais eu poderia pensar: caramba, mas esse lugar é ótimo!

Finalmente, nossa mesa vagou e nos sentamos. Fomos atendidos pela baixinha invocada. Quando ela dava as costas, eu ficava de onda com Luiz, dizendo: olha, o que ela recomendar você aceita, hein! O que ela disser a gente obedece, entendido? Pois, no fim da noite ela já fazia algumas piadinhas e buscava nosso olhar de cumplicidade.
Resumindo, com um pouco de boa vontade e respeito pela cultura local, tivemos um jantar divertidíssimo! Além da melhor tortilla espanhola de Madri!

XIX – O dançarino do metrô

Sou fã do Almodóvar! Gosto de tudo que ele faz. Sempre achei seus personagens de uma criatividade fantástica. Pois bem, continuo gostando dele, entretanto, já não sei mais se ele é assim tão criativo ou simplesmente sai na rua com um bloco de anotações. Sério! Sabe aquelas pessoas esquisitas dos filmes? Elas existem! Estão todas nas ruas de Madri!

Então, aí vai a viagem de metrô mais engraçada que fiz – até agora. Infelizmente, estava sozinha e não tinha uma câmera, pois duvido que consiga reproduzir a cena em todos os seus detalhes. Almodóvar conseguiria!

Aqui tem sempre músicos pelo metrô, boa parte fica nas estações, mas alguns entram nos vagões e, entre uma estação e outra , fazem suas apresentações-relâmpago. Nesse dia, o vagão estava razoavelmente cheio, mas não lotado. Entrou uma mocinha com uma guitarra e um aparelho de som, começou a tocar e cantar aquela música do gordinho da internet que fica dançando na frente da webcam. Bom, se não conhece qual é a música, só imagine que era uma animadinha. Sabe que até dava vontade de dançar? Mas claro que era só na imaginação.

Imaginação para quem cara-pálida? Do outro lado do vagão, um homem dos seus 45 anos, de chapéu preto, começou a pular e dançar freneticamente com a música! Ele tinha uma voz rouca e ia cantando alto bem debochado: ai, que bom! Agora se pode dançar no metrô! E pulava... balançava o chapéu... dançava para as pessoas...

Ninguém sabia o que fazer. A verdade é que dava vontade de ficar olhando e rindo, era contagiante, mas e o medo dele ver e resolver vir dançar com você? Começou um olhar para o outro e fazer piadinhas do tipo “E agora? A gorjeta a gente dá para quem?”.

Na próxima parada, a menina da guitarra saiu sem nem tentar recolher seu dinheiro, acho que ela percebeu que a concorrência ali estava alta para ela!

Friday, September 29, 2006

XVIII – Pues... yo creo que estoy estupenda!

Há um comercial de TV que gosto muito. É de uma maionese light. Começa com uma moça se olhando no espelho, conversando com a amiga e dizendo algo como: Pablo disse que tenho o peito pequeno... Pablo disse que tenho um pouco de barriga... Pablo disse... de repente, ela enche o saco e diz: Pues...yo creo que estoy estupenda! E eu creio que a frase dispensa tradução.

É um comercial normal, nada demais, mas acho que tem muito a ver com o universo feminino. Essa coisa da gente estar preocupada com a comparação, com o que o parceiro acha... e finalmente, a própria aceitação. O alívio e o prazer de acreditar: quer saber, estou ótima! Não é mais uma questão de ser ou não perfeita, mas de se sentir bem assim.

Outro dia conversava com amigas que reclamavam que aqui na Espanha é muito difícil você levar uma cantada na rua. É uma coisa cultural, o espanhol não é um azarador! Elas diziam, talvez com outras palavras, que uma boa cantada podia recuperar seu estado de espírito. Sentiam falta disso aqui. Achei engraçado e me diverti com os comentários, mas lá no fundo fiquei pensando se não seria um pouco de carência ou insegurança da parte delas.

A verdade é que, pessoalmente, sempre achei esse negócio de ganhar cantada na rua um saco! Fico muito sem graça e, em relação a isso, me sinto mais confortável aqui. Não sei, também acontece que sou mais preparada para uma crítica do que para um elogio. Acho uma distorção, mas é a verdade. Quando recebo um elogio, tenho vontade de me enterrar embaixo da primeira mesa; já uma crítica, posso ouvir e não dar a menor bola ou, se estiver de bom humor, até tentar entender para melhorar.

Muito bem, sabe toda essa segurança? Foi à PQP por causa de um simples botãozinho! A porcaria do botão da calça jeans que custou a fechar! Merda... engordei! Me arrumando para levar o Jack na veterinária, tive essa infeliz constatação: minha calça estava mais apertada!

Acho que o processo cerebral que ocorre na mulher quando ela percebe que engordou é muito parecido ao do homem quando ele quer transar. Há uma completa falta de bom senso, a gente perde a noção das coisas e não consegue ver nada em uma perspectiva razoável! Fome na África, guerra no Iraque, corrupção no Brasil... nada disso importava: eu en-gor-dei!

Saí do edifício com os ombros arrastando no chão, arrasada! E ia pensando comigo mesma: Merda, tô gorda! Não... sou uma gorrrrrrda! E que idéia de jirico vir com esse saltinho... gorda e de saltinho... putz! Mas eu devo tá muito ridícula mesmo! Ainda bem que é perto...

Nisso, acho que o anjo da guarda das mulheres desesperadas cutucou um transeunte, que deu aquela parada na calçada para eu passar e me soltou algo em espanhol que poderia ser traduzido como “gostosa!”. Sério, a maneira de falar do cidadão era de uma falta de respeito comovente!

Meus próximos passos foram absolutamente desconcertados e tive que prestar muita atenção para não dar de cara em um poste ou tropeçar. Assim que recuperei o rebolado, só uma coisa podia vir à minha mente: Pues... Yo creo que estoy estupenda!

Fui rindo sozinha o resto do caminho. Na veterinária tem uma parede espelhada e, me olhando nela, nem me achei tão mal. Pensando bem, até que não tinha engordado tanto assim...e o saltinho, tinha lá seu charme.

Enfim, recuperada minha dignidade - graças a um desconhecido que não me atrevi a olhar, muito menos a expressar o mínimo movimento de cabeça – lembrei das minhas amigas. Sabe de uma coisa, elas não são carentes nem inseguras, são sábias!
E mais uma coisinha, que eu mesma deveria escutar. Atenção meninas! Já dizia Buda, quem gosta de osso é cachorro!

XVII – Hamman

Hamman, é o conhecido banho árabe ou banho turco. Aqui em Madri tem um que adoro. É misto, você frequenta usando traje de banho e, antes que comecem as piadinhas, é super família!

O local é formado por cisternas centenárias, reformadas com os materiais da época. São três piscinas com temperaturas diferentes e uma sauna a vapor. Além disso, se quiser pode receber uma massagem. Não são só os banhos, o ambiente é mágico, você se transporta para outra região em outra época! Como já deve ter dado para perceber, o local é um culto ao relaxamento.

A primeira vez que fui, estava com uma hóspede em casa e marcamos com amigos no local. Claro que perdemos a hora, acordamos afobadíssimas e fomos correndo como duas loucas! Em situações de pressão, na vida ou no trabalho, sou muito eficiente, porém, uma “generala”. E ainda por cima com sono! Pode imaginar como devia estar simpática. Chegando lá, uma das amigas já estava, e seu marido com a irmã chegaram correndo esbaforidos como a gente, alguns minutos depois. Caramba! Nunca vi um relaxamento tão estressante, viu!

Bom, mas apesar dos pesares, conseguimos chegar bem em cima da hora e entrar. Uma das regras do local é manter o silêncio. Puxa vida! Depois daquela correria, dentro de um local maravilhoso e exótico, alguém acha que é possível manter quatro mulheres mudas? Que tortura! A gente ficava catando uns cantinhos mais vazios para dar uma fofocada básica. Depois de um tempo, baixada a adrenalina, conseguimos finalmente relaxar. Infelizmente, já era hora de irmos embora.

Pequeno detalhe, naquela pressa toda, ninguém conseguiu comer antes de ir. E assim que saímos de lá, o estômago colava nas costas. Acho que já contei aqui o que ocorre com meu humor quando estou faminta, né? Entretanto, eram quatro da tarde e essa hora os restaurantes já fecharam. Foi um custo para achar um caro e ruinzinho aberto, mas fazer o que, pelo menos matou a fome.

Comemos setas, que são nossos cogumelos. Se pronunciam “sêtas”. Dá para imaginar o potencial de piada que isso proporciona. E aí? Comeu as sêtas? Gosta de sêtas? Posso pegar sua sêta? Enfim... aquela baixaria! Mas até que foi engraçado! É verdade que o garçon não devia entender o que de tão divertido havia em dividir um prato de setas, talvez ele tenha pensado que errou na qualidade dos cogumelos...

Voltei ao hamman algumas vezes, sem a mesma pressa nem gaiatice. Mais relaxante, admito, mas não tão divertido!

XVII – Hamman

Hamman, é o conhecido banho árabe ou banho turco. Aqui em Madri tem um que adoro. É misto, você frequenta usando traje de banho e, antes que comecem as piadinhas, é super família!

O local é formado por cisternas centenárias, reformadas com os materiais da época. São três piscinas com temperaturas diferentes e uma sauna a vapor. Além disso, se quiser pode receber uma massagem. Não são só os banhos, o ambiente é mágico, você se transporta para outra região em outra época! Como já deve ter dado para perceber, o local é um culto ao relaxamento.

A primeira vez que fui, estava com uma hóspede em casa e marcamos com amigos no local. Claro que perdemos a hora, acordamos afobadíssimas e fomos correndo como duas loucas! Em situações de pressão, na vida ou no trabalho, sou muito eficiente, porém, uma “generala”. E ainda por cima com sono! Pode imaginar como devia estar simpática. Chegando lá, uma das amigas já estava, e seu marido com a irmã chegaram correndo esbaforidos como a gente, alguns minutos depois. Caramba! Nunca vi um relaxamento tão estressante, viu!

Bom, mas apesar dos pesares, conseguimos chegar bem em cima da hora e entrar. Uma das regras do local é manter o silêncio. Puxa vida! Depois daquela correria, dentro de um local maravilhoso e exótico, alguém acha que é possível manter quatro mulheres mudas? Que tortura! A gente ficava catando uns cantinhos mais vazios para dar uma fofocada básica. Depois de um tempo, baixada a adrenalina, conseguimos finalmente relaxar. Infelizmente, já era hora de irmos embora.

Pequeno detalhe, naquela pressa toda, ninguém conseguiu comer antes de ir. E assim que saímos de lá, o estômago colava nas costas. Acho que já contei aqui o que ocorre com meu humor quando estou faminta, né? Entretanto, eram quatro da tarde e essa hora os restaurantes já fecharam. Foi um custo para achar um caro e ruinzinho aberto, mas fazer o que, pelo menos matou a fome.

Comemos setas, que são nossos cogumelos. Se pronunciam “sêtas”. Dá para imaginar o potencial de piada que isso proporciona. E aí? Comeu as sêtas? Gosta de sêtas? Posso pegar sua sêta? Enfim... aquela baixaria! Mas até que foi engraçado! É verdade que o garçon não devia entender o que de tão divertido havia em dividir um prato de setas, talvez ele tenha pensado que errou na qualidade dos cogumelos...
Voltei ao hamman algumas vezes, sem a mesma pressa nem gaiatice. Mais relaxante, admito, mas não tão divertido!

XVI – Minhas primeiras hóspedes

Essa mudança me deu trabalho para arrumar! Demorei mais do que o usual. Tenho muita prática e arrumo tudo em, no máximo, uma semana. Também, né? Depois de mudar tanto! Mas aqui foi um verdadeiro quebra-cabeças. Sabe cobertor curto? Que você puxa de um lado e falta do outro?

Arrumei logo a cozinhae os quartos. O resto, empilhei no canto da sala para ir arrumando com mais calma. Além de definir a necessidade de novos armários, desde que fossem portáteis!

Antes das caixas esfriarem, recebemos a notícia: uma amiga de São Paulo e outra de Brasília chegando na cidade! Uma coincidência, pois nem se conheciam! Beleza! Que venga el toro! A casa nova já começou animada. Avisamos que as caixas de papelão ainda estavam espalhadas, mas o quarto de hóspedes estava pronto (ou quase!). Se elas não se incomodassem... eu é que não fico mais constragida por tão pouco! Umas caixinhas de papelão aqui, uma baguncinha ali... bobagem!

Foi ótimo! Aqui nós faremos amigos, é uma questão de tempo. Mas é que o espanhol é desconfiado, demora mais para se aproximar. Foi muito bom tê-las logo que chegamos, me ajudou a lembrar que ainda não tinha amigos aqui, mas iria acontecer.

Acho que houve até uma certa simbologia na visita das duas. Gosto de prestar atenção nesses detalhes. Uma foi praticamente amiga de infância, coisa de mais de 20 anos atrás! A outra de São Paulo, último lugar que morei no Brasil. Esse trançado no tempo e o fato de nos encontrarmos em outro país, com vidas tão diferentes e tão próximas em alguns aspectos, parecia poesia.

Em Atlanta não tivemos hóspedes. Na verdade, só meus pais, depois da chantagem sentimental do Luiz! Minto, pensando melhor, também houve um amigo que foi fazer uma entrevista de emprego, mas acho que ele só dormiu uma noite. Coisa rara, pois tem sempre alguém passando pela nossa casa. Mas também, convenhamos, qual o apelo turístico de Atlanta, né? Oi, gente... vamos visitar o museu da Coca-cola?! Ninguém sai do Brasil, ou de outro país, para isso! Sinto muito Coca-cola!

Por outro lado, fizemos amigos incríveis em Atlanta! Definitivamente foi a melhor parte da nossa temporada por lá! Uma amiga em especial, que era minha companheira de cozinha, de compras e de desabafos. Com o cuidado de não desmerecer os outros, cada um com seu jeito de ser e sua própria história que tive o prazer de conhecer e aos poucos espero poder ir contando. Cantora de rap, imitador do Lombardi, admiradores do Balão Mágico, coreógrafas da Ivete Sangalo, churrasqueiros... Amigos brasileiros, americanos, mexicanos, alemães, sul-africanos... Acho que fizemos umas 35 festas de despedida! Juro! A primeira eu achei que era sério, depois, cada vez aparecia um novo passo a ser cumprido antes da nossa próxima mudança para Madri. Daí virou piada e todas as festas a gente dizia que eram de despedida. Bom, a última foi mesmo, com direito a rifa do que não conseguiríamos levar na mudança e o sacrifício de tomar quase tudo alcoólico que não caberia nas malas.

Em São Paulo também tenho amigos muito, mas muito queridos mesmo! Animados e alto astral! Aqui conto os milagres, mas não conto os santos. Até porque, acredito que isso deixaria as pessoas com medo de vir na nossa casa e virar assunto! Podem ficar tranquilos que jamais revelarei os nomes, ok? Cada um que vista sua carapuça. Tem festeiros, caseiros, família, dorminhocos, lulus, furões, pontuais, casados, solteiros, separados, cachaceiros, afilhados, gulosos, artistas, executivos...

Mas voltando a São Paulo e fala