Sunday, November 19, 2006

Queridos amigos e leitores,

Aos que tiverem curiosidade em saber como essa história continua, a segunda fase do blog está no endereço cronicasmadrilenas.blig.ig.com.br

Besitos, Bianca

126 - E agora, José? José, para onde?

Querido Drummond que me ajude:

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Há 34 anos saí do Rio de Janeiro; há quase 20 saí de Brasília - com intervalos em Nova York; há cerca de 12 saí do Rio outra vez; há pouco mais de 2 saí de São Paulo; há pouco mais de 1 saí de Atlanta e, desde então, estou em Madri. Com 36 anos, no meu trigésimo primeiro endereço, até sabe-se lá quando.

Nesse caminho, conheci muita gente assim ou que até mudou mais. Não sei se foi coincidência ou uma maneira de me sentir mais normal. Talvez hoje seja normal, a tal da globalização está criando uma nova nacionalidade virtual de expatriados. Se é bom ou mau, como vou saber? Acho que um pouco dos dois, mas sei que não há volta. Não é que não haja volta para o país de origem, ou para qualquer outro, simplesmente não há volta para o que fui.

Portanto, o jeito é tentar levar com bom humor e viver nossas aventuras. Recorro a cara 11, aquela com que cheguei em Madri, a de faço-isso-todo-dia-sei-o-que-estou-fazendo-e-não-me-pergunte. Nesse caso, é a 11-b, quando no fundo não tenho a menor idéia para onde estou indo.

Que se há de fazer? Vou eu novamente pensando nas músicas. Dessa vez, canto minha escolhida para São Paulo. Lá preferia na voz do Cazuza, mas agora quero mesmo é na do Lobão: Vida louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve...

Sim, estou enrolando, até para uma especialista em mudanças, às vezes é muito difícil romper. Mas hoje preciso fechar esse ciclo porque essa fase acabou. Preciso começar outra.

Aos que chegaram até aqui, muito obrigada pela companhia. Não vou parar de escrever, só vou recomeçar. Tenho meus motivos, mas essa é uma outra história...

125 – O mural de fotos

Há bastante tempo, nem me lembro quando, mas ainda no Brasil, tínhamos um mural de fotos com amigos. Tentei ter fotos onde, pelo menos uma vez, todos os nossos amigos pudessem aparecer. Reuni também vários momentos especiais junto com Luiz, com nossas famílias e nossos gatos.

Era divertido ver as pessoas chegando e se procurando no mural, e sempre se achavam. Na minha cabeça era uma forma de dizer que eram bem vindas, que faziam parte da nossa história. E funcionava para mim também, era um conforto lembrar que alguma coisa deveria ter feito certo para conhecer pessoas assim. Esse mural nos acompanhou pelo mundo e era de grande ajuda nos momentos de angústia, funcionou como um amuleto.

Em Atlanta, onde fizemos muitos amigos, tiramos várias fotos com a intenção de completar o mural. Aqui em Madri, ocorreu o mesmo, outras fotos de mais amigos queridos, com lugar reservado na minha grande placa de cortiça.

Entretanto, nenhuma foto foi adicionada. Sempre havia um motivo. Não havia baixado as fotos para o computador ainda, não tinha papel fotográfico, a impressora pifou... Até o dia em que não havia nenhuma desculpa e fui encarar meu painel que há algum tempo me incomodava e não entendia. Engraçado como, sem perceber, fui mudando ele de lugar até ficar praticamente escondido em um corredor.

Busquei explicações racionais. Devia ser porque havia amigos que se separaram, amigos que adoeceram, familiares que morreram, como era grande a minha cozinha, como estava magrinha, como gostava desse restaurante, dessa casa, dessa piscina e por aí vai. Mas a verdade mesmo é que meu mural de lembranças se transformou em um enorme mural de saudades. Demorava muito para que alguém se encontrasse nele, e quando se encontravam, também já não eram mais os mesmos, como não sou mais a mesma.

Tive uma sensação quase indígena e primitiva, em que as fotos aprisionavam nossos espíritos e agora precisamos todos voar em outros patamares. Continuam queridos e continuam bem vindos, mas estavam fora de contexto.

Pensei que esperto era meu gato, fotos e imagens de espelhos nada significam para ele porque não possuem cheiro.

No meu ritual particular, desfiz o mural e guardei as fotos com o carinho do passado. Estamos agora todos livres para sermos o que quisermos. Talvez um dia construa um outro, com velhos e recentes amigos, mas com um significado diferente e fotos novas.

124 – A melhor carne de Madri

Há cerca de uma semana, abriu em Madri um Baby Beef Rubaiyat, próximo ao estádio Santiago Bernabeu. Fomos conferir. Juro que não ganho um centavo em promoção, divulgo por pura felicidade em comer bem! Não é um restaurante baratinho, mas vale cada centavo!

Havia me esquecido como éramos bem tratados nos restaurantes em São Paulo. De certa forma, fui me acostumando com o serviço europeu, que pode até surpreender e ser educado e amável, mas não tem comparação ao bom serviço brasileiro, principalmente em São Paulo.

Pois tivemos o típico serviço brasileiro, simpático e atencioso, sem ser servil ou arrogante. Simplesmente perfeito! Tudo pensado nos mínimos detalhes, a decoração, as mesas, os talheres, a cozinha limpíssima. Pãozinho de queijo, lingüicinhas, batatinha souflê, tudo de bom. E o principal, uma carne fabulosa! Porque se tudo fosse correto, mas a carne não comparecesse à altura, já não compensaria. Mas compareceu.

Tudo começa pela chegada, eles oferecem serviço de manobrista. Gente, manobrista em Madri é artigo de luxo! Ainda tivemos sorte, pois como o restaurante acaba de abrir, estão divulgando e oferecendo algumas cortesias. Por exemplo, ganhamos couvert, poção do melhor jamón, sobremesas e um copo para fazer caipirinhas. Adorei!

Bom, pode ter parecido estranho eu falar do manobrista. Mas é que, por puro acaso, foi um fim de semana em que alugamos um carro. É que precisava comprar uma série de coisas para casa e ficava complicado trazer tudo de taxi. Quase todo o tempo foi Luiz quem dirigiu, o que me proporcionou uma mordomia que aproveitei bastante. Entretanto, logo na saída do restaurante, me deu uma vontade irresistível de dirigir. Caramba, sou um poço de contradições, todo esse tempo elogiando a delícia que foi abrir mão do carro e, de repente, não mais que de repente, essa vontade absurda.

Havia quase um ano que não conduzia um automóvel e achei que fosse estranhar. Pois me foi assustadoramente natural e a facilidade com que achei o caminho de casa fez parecer que era algo que fazia todos os dias.

Mas agora não quero pensar nisso, não importa. O que interessa é que, por algumas horas, jantei em São Paulo e voltei para casa no Brasil. E agora vou dormir feliz.

123 – Confissão super secreta

Hoje, pela segunda vez esse mês e um ano após nossa chegada em Madri, tive vontade de dirigir, ou melhor, ter um carro. Merda, maldita hora que peguei aquele taxi e lembrei como era rápido e confortável... O canalha do motorista ainda pôs ar condicionado, só podia estar me sacaneando! Ai, meu Deus, deixa eu ficar bem quietinha esperando a vontade passar!

Preciso me concentrar: garagem, estacionamentos impossíveis, mecânicos, postos de gasolina self service, fazer prova de direção outra vez, perder dinheiro na venda do carro, engarrafamentos, ver o mundo através de um para-brisas... Ufa! Passou!

122 – Solidariedade no cardume

Sempre vou de metrô para a faculdade. Normalmente, os horários que ando são movimentados, mas não é hora do rush. Isso quer dizer que costumo ir confortavelmente, quase sempre sentada.

Ontem, o curso acabou mais cedo e precisei tomar o metrô em uma das horas mais requisitadas. Para complicar, havia um tipo de greve em que o número de trens foram diminuídos. Ou seja, o metrô estava um inferno de cheio! Se soubesse, até teria tentado pegar um taxi, mas só descobri sobre a tal greve dentro da estação.

Quando entrei no vagão, estava cheio, mas possível. Umas três estações depois foi se tornando mais e mais impraticável. Por sorte, estava encostada na parede do fundo do vagão, o que é menos sofrível. E, claro, como a lei de Murphy sempre funciona, justo nesse dia resolvi tomar uma linha diferente, ou seja, não sabia exatamente quantas paradas ficava da minha casa. Com o vagão cada vez mais cheio, não conseguia ler o nome das estações do lado de fora.

Acho que o resto dá para imaginar, quando chegamos na parada que devia saltar, não percebi. Mas tive a impressão de ler nos lábios de alguém o nome Manuel Becerra, minha estação. Virei correndo para a moça do meu lado e perguntei se ela sabia onde estávamos, e lógico que era onde precisava descer.

E aí? Como fazer? Tinha poucos segundos e nenhum espaço para passar. Não sabia se o pior era perder a parada ou andar mais tempo naquela claustrofobia e ainda ter que voltar outra vez naquele aperto. Foi quando fui salva pela solidariedade entre meus recentes amigos-sardinha. Também não sei se eles me ajudaram pela necessidade do espaço, mas acho que foi porque se colocaram em meu lugar. Foi um tal de “deixa ela passar”, “vai por ali”, “rápido”, “acho que não vai dar”... Até que vi uma brecha mínima de ar e mergulhei como um vocalista de banda punk mergulha no público. Chega senti a porta fechando arrastar no meu pé. Acho que saí do vagão como uma rolha de champanhe, meu corpo até fez o barulhinho da pressão “ploc”!

Aterrizei meio desequilibrada e rindo comigo mesma. Nunca achei que fosse passar por isso novamente e ainda achar graça. Fiquei lembrando de Brasília, o único lugar onde usava transporte público com regularidade, porque afinal de contas, tinha menos de dezoito anos e não podia dirigir.

A primeira vez que andei de ônibus sozinha tinha por volta dos treze anos, em Brasília. Lembro exatamente como foi assustador e libertador, ao mesmo tempo. Vivia enchendo o saco da minha mãe porque queria aprender a andar de ônibus, o que significava para mim ter a liberdade de me locomover na cidade, sem depender de ninguém. Um dia, ela simplesmente me deu dinheiro e disse: volta hoje de ônibus.

Como assim? Volta hoje de ônibus? Mas em qual ônibus? Quanto custa o ônibus? Por onde entro no ônibus? Como aviso que quero saltar? Perguntas que hoje me soam absolutamente óbvias, mas que o fato de fazer pela primeira vez sozinha me deixou apavorada! Claro que minha mãe não tinha a menor idéia das respostas, afinal de contas, ela também não andava de ônibus, portanto ela fez a cara de que aquilo era óbvio e eu que me virasse. Até hoje não sei se ela queria que eu acertasse ou desistisse e ligasse para ela ir me buscar. Também não importa mais, quando saí, achei que ela queria que eu desistisse, quando chequei achei que ela queria que eu acertasse.

Foi depois do curso de inglês, lembro perfeitamente de não prestar atenção em nada, só pensava, cassilda e como é que vou pegar o tal do ônibus? Para quem vou perguntar isso sem parecer uma jeca ou uma fresca?

Para minha sorte, saí do curso conversando com uma amiga mais velha, que costumava vir andando comigo boa parte do caminho e depois pegava seu ônibus. Contei meio sem graça da minha missão do dia. E ela achando muito engraçado, mas no fundo solidária, porque também havia passado por isso, se propôs a ir comigo para eu ver que não era nada demais. Ufa! Pois ela me salvou a pele, nem a porta da entrada eu sabia qual era!

Chegando em casa, minha mãe estava me esperando para eu contar o que tinha acontecido. Também fiz a mesma cara que ela fez antes, como se nem estivesse entendendo o que ela queria saber. Simplesmente, tinha pego o ônibus ora, que bobagem! No meu quarto sozinha, comemorei aquela grande vitória, havia dado o primeiro passo para minha independência, ou nisso acreditava naquele momento.

Depois de alguns anos tomando o maldito “Grande Circular” lotado, mudei de idéia. Bom mesmo era andar de carro! Precisava fazer dezoito anos rápido! A piada dos alunos era que dentro do ônibus se contradizia a lei da física onde dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. A gente não precisava se segurar, porque não havia onde cair! Entrar e sair era sempre uma missão quase impossível, que a gente nem sabia como podia dar certo no final. Nós, meninas, desenvolvíamos a técnica do cotovelo, para nenhum engraçadinho vir se esfregando. É verdade que também havia uma certa solidariedade, sempre quem estava sentado se oferecia para levar os cadernos ou a mochila de quem estava em pé. De qualquer maneira, enchi o saco e jurei que quando começasse a dirigir nunca mais encararia essa situação.

Hoje já não me parece tão ruim, provavelmente porque não preciso encarar o problema todos os dias. Quem sabe foi a experiência passada que me ajudou a saltar do vagão lotado com tamanha desenvoltura depois de adulta e acostumada a uma boa mordomia.

Quer saber, que se dane a poesia social, amanhã vou de taxi!

121 – O casal baixaria

Minha relação de amor com o apartamento precisava ter algum defeito, não é mesmo? Pois descobrimos qual é, somos vizinhos de andar do “casal baixaria”. Aliás, diga-se de passagem, acho que todo edifício aqui tem um casal com esse perfil. No antigo apartamento também tinha, mas pelo menos não eram nossos vizinhos tão próximos e se acalmavam no inverno. Vai entender.

Quando digo baixaria, não estou me referindo a barulho de sexo. Acho que isso seria divertido, quem sabe até estimulante, mas infelizmente é pancadaria mesmo. E, claro, baixaria que se preze, não começa antes das três da matina!

Logo no segundo ou terceiro dia que mudamos, ouvimos algo que parecia com briga e choro de homem. Vá lá, podia ser uma coincidência, alguém chegou borracho (bêbado) ou algo assim. Entretanto, a coisa vem se repetindo.

E o pior é que aparentemente eles gostam de público, porque sempre brigam com as janelas bem abertas, quando não gritando da varanda. Um barraco! E isso porque moramos em um bairro ótimo, para calar a boca dos preconceituosos que acreditam que essas coisas só acontecem nas camadas mais pobres e menos esclarecidas da população.

É mais ou menos assim, daqui de casa a gente escuta os berros de “eres un cobarde”, “hijo puta” etc. E na janela do edifício em frente, vemos o reflexo de um jogando coisas no outro, uma beleza! Além de rolar uma bateção de porta que parece que eles saem e entram do apartamento algumas vezes. Realmente, não entendo. Aliás, não entendo nada. Julgar as pessoas é complicado, mas acredito que algumas situações deveriam ser de bom senso mundial. Por que continuam na mesma casa?

Em doze anos de casada, nunca xinguei Luiz e nunca fui xingada. Não somos santos nem exemplos para ninguém, e é evidente que já tivemos nossa discussões, umas bobas e outras mais sérias, mas sempre com o limite do respeito. Posso em alguns momentos ter vontade de pular no seu pescoço, mas só de imaginar chamá-lo por um palavrão me dói a garganta. Vai muito além da minha natureza agressiva que venho domando ao longo dos anos.

Enfim, tinha a intenção de chamar esses vizinhos para a inauguração do apartamento. Felizmente, percebi antes que não são exatamente os amigos que queremos ter. Espero que se resolvam, ou que se separem, ou que, pelo menos, tenham a dignidade de se matar em silêncio e deixar o resto do edifício dormir em paz.

120 – A feijuca

No domingo, acordamos bem cansados, mas felizmente sem um pingo de ressaca. Acho que era de tanto que queria comer feijoada. Também não exageramos muito na bebida, o cansaço era por termos dançado mesmo. Além do mais, havíamos jantado bem e tomado bastante água, isso ajuda e muito!

Uma amiga nos chamou para almoçar na casa dela, seria sua primeira feijoada e ela estava meio tensa de errar a mão. Bobagem, acho que entre amigos, quando a comida não funciona a gente pede uma pizza, certo? Bom, mas confesso que, nesse caso, ficaria um pouco aguada, pois estava com um desejo de comer uma feijuca!

Resumo da ópera, deu tudo certo. Além do feijão, rolou pão-de-queijo, carne seca desfiada, couve, laranja... enfim, completa! E claro, a caipirinha. Ainda bem que havia queimado muitas calorias na noite anterior, porque chutei o baldinho.

Só teve um pequeno problema, se a gente já estava com um pouco de sono quando chegou, imagina depois de uma super feijoada? Estava difícil conversar, na verdade, estava difícil até piscar sem ceder a tentação de ficar mais tempo com os olhos fechados.

Em casa, fiz uma coisa que é rara, dormi à tarde. Dormi nada, desmaiei! E como foi bom.

119 – Baladeira que se preze...

Muito bem, disse que andava caseira, não que era caseira, certo? Porque baladeira que se preze cai na tentação na primeira oportunidade.

No mesmo sábado do granizo e da preguiça, fomos jantar com um casal de amigos brasileiros, o que em princípio seria um programinha light. Jantar super gostoso, vinhozinho que adoro, bom papo, boa música e tal. Por volta da meia noite nos despedimos e seguimos em direção à casa.

No taxi, recados no celular de Luiz para passarmos na casa de outro casal de amigos que moram perto da gente. Por que não? Partimos nós para a segunda etapa da noite. Chegamos lá, onde nossos amigos brasileiros recebiam outros amigos portugueses e chilenos. Nesse momento, todo o vinho já tinha sido devidamente evaporado e uma garrafa de whisky, que iniciou a noite cheia, agonizava seus últimos goles.

O papo foi empolgando, a música aumentando... e, aparentemente, um vizinho se irritando. Umas duas e meia da madrugada, bate na porta a polícia. Achei um certo exagero, realmente estávamos fazendo barulho, mas com certeza se alguém houvesse se manifestado ou pedido, baixaríamos o tom na mesma hora, foi distração mesmo. Enfim, os policiais foram educados e francamente, nem cheguei a ficar nervosa, quem gosta de uma boa farra e nunca vivenciou essa cena da polícia batendo na porta? Estou ficando experiente, ou em outras palavras, muito cara-de-pau.

A cena não deixou de ser um pouco engraçada. Toca a campanhia, minha amiga “lararilarará” atende o interfone e ninguém responde. Ela vira para mim e diz algo como, é esse pessoal tocando embaixo para deixar propaganda no correio. E eu, mas às duas da manhã? Na dúvida, resolvi olhar pelo olho mágico na porta. Eram dois homens do tamanho de um armário, com uniforme preto de faixa amarela no peito: ops! Voltei para ela e disse baixo, é a polícia, abre que vou avisar o povo. Ela achou que eu estivesse brincando, mas mesmo assim tentou parecer o mais careta possível e foi abrir a porta. Enquanto ia avisar os meninos para eles já irem baixando o som, só escutava minha amiga falando para os guardas: adelante! Eles não queriam entrar, só pedir para baixar o som. De qualquer maneira, a festa acabou.

Ou melhor, acabou essa etapa, pois como contei diversas vezes, a noite em Madri vai crescendo, uma coisa emenda na outra e quando nos damos conta estamos franzindo a testa com o sol batendo no rosto.

Bom, não chegamos a tanto, mas também não nos demos por vencidos e partimos todos para o “El Junco”, como já de costume. Três da matina e fila na porta, amo essa cidade! Até que a fila andou rápido, demos sorte porque, alguns minutos depois, a fila se multiplicou atrás da gente. Estávamos em um grupo de umas nove pessoas.

Nessa noite, comandavam a música, um DJ parecido com o Lobão na fase cabelo comprido e outro com a maior pinta de CDF. Ambos inspiradíssimos, me acabei de dançar. Estava sentindo falta da minha aeróbica semanal.

Por mim, acho que seria um dos dias que só sairia de lá varrida e com as luzes acesas, mas no domingão tínhamos uma feijoada na casa de uma amiga e aí a briga é feia. A feijoada ganhou é claro, e fomos embora por volta das quatro e meia. Até chegar em casa, tomar banho, encinerar a roupa fedida a cigarro e deitar, eram quase cinco e meia. Fiz as contas de quanto tempo me restava de sono e torci para não acordar de ressaca no dia seguinte, afinal de contas, uma feijuca animal me aguardava! Dormi bem.

118 – Dia da preguiça, do granizo e da janela

Sabadão de preguiça, parecia até domingo. Se já é complicado levantar quando tenho o que fazer, imagina sem nenhum compromisso e com aquele céu super nublado.

Nem era resquício da balada, que adiamos. Um casal veio jantar conosco na noite anterior, com a promessa de sairmos logo em seguida para encontrar outros amigos na Posada de las ánimas. Duas garrafas de um delicioso grand cru depois e um jantar meio improvisado, que modéstia às favas estava bem gostoso, claro que baixou a lombeira geral. A balada podia esperar a próxima noite livre.

No dia seguinte, recebi a mordomia do café na cama, o luxo que mais adoro no planeta! Daí é que não dava vontade de sair mesmo.

Ando caseira. Acho que estou curtindo o apartamento novo, sei lá, talvez sejam os dias chuvosos. Mas está sendo bom para descansar um pouco. Tomar um vinhozinho com Luiz ou com alguns amigos em casa, ou na casa deles, tem me parecido um programão.

Enfim, quando tomei coragem de por o nariz na tela do computador, comecei a escutar um barulho diferente de chuva, barulho de umas pedrinhas. Luiz falou do andar de cima, está chovendo granizo!

Fomos para a janela da sala por curiosidade e a chuva de granizos engrossou. Por alguns segundos, a rua ficou branquinha como se fosse neve. Fotografei, mas não aparece bem as pedrinhas de gelo.

Quando levantei a vista, percebi que tinha gente por praticamente todas as janelas. Meu impulso foi de me afastar um pouco do vidro, pois estava de pijamas. Depois notei que todos estavam de pijamas, iguais a mim. Ou seja, éramos um bando de preguiçosos, morgando em casa, curiosos na janela.

No prédio da frente, alguns andares abaixo, havia um casal de crianças, daquelas com olhar de moleque, que não sabiam se olhavam a chuva ou as janelas. Acenei para elas, que se acabaram de rir acenando para mim de volta. Por que criança acha tão divertido dar tchau para estranhos?

Em poucos minutos, a chuva acabou e o céu abriu com sol. Parecia outro dia. Saímos das janelas e da farra coletiva, e cada um voltou para sua própria preguiça.

117 – Meus amigos de Brasília

No fim de 2004, ainda morando em Atlanta, comecei a encontrar, pela internet, alguns amigos do passado. Navegando pelo orkut, encontrei o colégio onde estudei mais tempo, a Escola Paroquial Santo Antônio, em Brasília. É difícil acreditar, mas eu, uma ateísta convicta, estudei boa parte da minha vida em colégios ou faculdades católicas.

Nesse colégio, estudei da primeira à oitava série, de 1976 a 1983. Acredito que boa parte dos meus valores foram aprendidos ou fortalecidos ali, mas só agora posso ter a consciência de como estou tão igual em muitos pontos e tão diferente em outros.

Mas voltando à história, tudo começou achando uns dois ou três ex-alunos pelo orkut. A conversa e o interesse foram crescendo e um desses ex-alunos teve a brilhante idéia de fazer um grupo de discussão só nosso no yahoo. O que acontece é que sempre tem alguém que manteve contato com alguém, que por sua vez manteve contato com outros e assim por diante. Resultado, em um ano e pouco que esse reencontro iniciou, já somos um grupo de quase cinqüenta ex-alunos.

A grande maioria permanece em Brasília, mas muitos, como eu, se espalharam pelo Brasil ou pelo mundo. Não importa, para mim, são meus amigos de Brasília. É a memória e a referência que tenho. E só há muito pouco tempo entendi como é importante para mim ter essa memória e esses amigos.

Acho que devido a tantas mudanças, não tinha amigos de infância. Tenho muitos amigos queridos, mas tinha um pouco de vontade, meio dissimulada, de apresentar alguém como: “esse é fulano, a gente se conhece desde nem me lembro quando...estudamos juntos...”

Na verdade, não sei se a culpa é das mudanças, muita gente vive na mesma cidade a vida toda e também perde os contatos de infância. Mas enfim, essa é a minha desculpa.

De qualquer forma, para mim tem sido muito importante esse resgate do passado. É como uma prova arqueológica que existi, pois deixei alguma impressão. Ou melhor, existimos, pois todos eles também haviam me deixado impressões que, pouco a pouco, vão me voltando à memória.

A velocidade com que nos unimos me impressionou. É difícil explicar a cumplicidade que surgiu muito rapidamente entre boa parte desses ex-alunos. Alguns de nós já éramos amigos no colégio, mas entre outros, existia muito pouco contato e até mesmo algumas desavenças eventuais, que hoje o passado transformou em coisa de criança. Isso é muito louco, pois com a maior parte só falo via internet, e mesmo assim, fico feliz quando eles estão felizes, sofro quando eles tem problemas e tenho orgulho do que eles realizam. E tenho muita saudade de quem não tive saudade nenhuma por tantos anos.

No último fim de semana, 15 de abril de 2006, foi o encontro de 23 anos de formados, em Brasília. Não fui, mas fiquei babando daqui. Eles se encontraram no nosso antigo colégio, tiveram o privilégio de entrar nas salas e procurar as carteiras (mesas de estudantes) onde sentavam. Tentei me lembrar onde me sentava, mas nem sempre era no mesmo lugar. Depois eles seguiram para a chácara de uma das ex-alunas e fizeram uma festa, com direito a assistir o filme da nossa formatura.

Não pude estar presente, mas pensei nisso o dia todo. Fiquei imaginando quem ia, o que iria falar etc. E quando as fotos chegaram, quase podia me imaginar nelas. O encontro dos 25 anos já foi cogitado e nesse vou nem que vaca tussa!

Somos uma tribo. Temos o poder de voltar no tempo, resolver o passado. Seguimos um pacto não negociado, mas totalmente subentendido: decidimos que somos amigos, para o que der e vier, e pronto!

116 – A vida pós feriado

A volta às aulas foi mais tranquila do que imaginei. Acredito que a semana de férias recarregou minhas baterias e revi as prioridades. Muita água ainda vai rolar, mas é muito bom quando a gente consegue ir passo a passo, tentando não se atropelar.

O mundo ainda me parece difícil, mas não impossível. Acho que isso quer dizer que meu otimisto está tentando se recuperar. De qualquer maneira, quem é o louco que está sempre triste ou sempre feliz? Todos temos lados bons e maus e experimentamos altos e baixos, por tanto, no mínimo, posso me identificar com a raça humana e isso já é um começo.

Ainda é cedo para dizer, mas os novos professores me agradaram e comecei a sentir um interesse maior pelas aulas. Era a sensação que esperava ter no início do curso e não tive. Dessa vez, não precisei fazer tanta força para gostar. Começo a acreditar que continuo artista, mas me falta a resposta do porquê. É que esse porquê muda sempre e, às vezes, custo a entender que preciso perguntar outra vez. Ontem entendi, preciso de novas respostas: por que? Para que?

115 – Mantendo a tradição

Exatamente como no endereço anterior, uma semana após a nossa mudança, recebemos os primeiros hóspedes, um casal de amigos que mora na Inglaterra. Dessa vez, até que foi mais tranquilo, pois o apartamento já estava razoavelmente arrumado. Quer dizer, para mim, tanto faz, não me incomodo em receber as pessoas com a casa cheia de caixas de papelão, mas acredito que para os nossos hóspedes deva ser mais confortável chegar em uma casa arrumada.

O único problema, é que estávamos usando os colchões do sofá-cama como nossa cama de casal. Logo, tivemos que pedir emprestado dois colchonetes para eles dormirem. Se no apartamento passado, tivemos que carregar um sofá-cama na cabeça para ter onde dormir, dessa vez, apenas foi necessário que Luiz carregasse dois colchonetes pela rua para nossas visitas. No fim, acho que deu certo. Também foi bom que a gente fez logo o test drive dos hóspedes para ver o que precisávamos acertar. No início de maio chega o próximo casal visitante, do Brasil. Se eles tiverem sorte, terá chegado nossa cama, comprada na semana passada, e eles terão up grade na hospedagem.

Compramos uma cama de estilo japonês, ou seja, aquele tatami baixinho com o futon em cima. Nos deram um prazo de aproximadamente quinze dias para entregá-la, espero que se cumpra, pois estou doida para deixar o quarto arrumado também. Combina muito com o espaço, pois dormimos no mezanino que possui uma parte do teto rebaixada. Desse modo, a cama se encaixa quase como um ninho e fica muito aconchegante. Ainda por cima, tem uma janela no teto e adoro acordar olhando o céu.

Consegui instalar uma tela protetora bem discreta na varandinha, assim meu felino gordo pode tomar seu solzinho e fico tranquila. O gato mais mimado do mundo está adorando o apartamento novo, encontrou vários esconderijos e fica para cima e para baixo na escada.

Também consegui decorar o número novo de telefone e quase não me lembro mais do antigo. Eu mesma me surpreendo com a velocidade em que troco de canal.

Enfim, as coisas vão seguindo seu curso. Agora falta algumas festinhas para assegurar a boa energia e o alto astral do recinto. Estou doida para fazer a inauguração!

114 – As compras

Durante o feriado da semana santa estava em plena crise alérgica. É que minha resistência baixou e não sei se peguei gripe junto ou foi só alergia, sei lá, sei que passei mal para burro!

Mesmo assim, a idéia de arrumar a casa nova foi me animando e bem ou mal, levantava e fazia as coisas do mesmo jeito. Ao longo da semana fui melhorando.

Num desses dias, difíceis de levantar, me ligou uma amiga me chamando para dar uma volta e fazer umas compritas. Como estava meio enjoada, chamei ela para comer lá em casa mesmo e aproveitar para conhecer o apartamento novo. E ela veio.

Fomos conversando e fui melhorando. Cheguei a conclusão que um arzinho fresco me faria bem. A verdade é que achei que ela queria companhia para sair um pouco e tentei me animar. E acabou que foi bom para mim, acho que me faltava um pouco de consumismo na veia.

Não sou uma pessoa naturalmente consumista. Por isso, quando resolvo comprar alguma coisa também não me sinto culpada nem preciso ficar me controlando. Mas quando cheguei em Madri e quis sair para comprar algumas roupas senti uma coisa engraçada, me faltava aquela “amiga de compras”. Sabe aquela amiga que sai com você para bater perna, daí você vê alguma coisa que gostou e diz: puxa, queria experimentar essa blusa, mas estou com uma preguiça... E ela te responde: ah, mas você precisa experimentar, olha que linda... e o preço está ótimo!

Pois se me faltava a amiga de compras, não faltou mais. Meia dúzia de blusinhas lindas e de ótimo preço depois, estava com o humor e a saúde bem melhores. E os homens ainda dizem que é difícil fazer uma mulher feliz! Que bobagem, é tão fácil!

113 – Picnic no Retiro

No sábado, dois dias depois da mudança, ainda tínhamos algumas coisas pessoais no antigo apartamento para buscar. Para fazer tudo em uma única viagem, pedimos ajuda de um casal de amigos que mora perto e estamos sempre juntos.

Como já havia conseguido arrumar a cozinha, fizemos a inauguração extra-oficial com eles, abrindo uma garrafa de cava para comemorar. Claro, no meio de um monte de caixas de papelão!

Eles sugeriram que, no dia seguinte, domingão, a gente fizesse um picnic no parque do Retiro. Adorei, queria fazer isso antes, só estava esperando o tempo melhorar. E o tempo colaborou.

O bom de morar em um país estrangeiro é que a gente tem coragem de fazer algumas coisas que morreria de vergonha no nosso próprio país. Uma boa “farofa”, por exemplo. Se bem que, cá entre nós, foi uma farofa razoavelmente chic. Bem, quer dizer, meio chic, porque começou por chegarmos ao parque com um carrinho de feira para levar as coisas. Idéia do meu prático e desencanado marido. Imagina se a gente toparia pagar o mico de chegar no Brasil para um picnic, trazendo a comida e a bebida em um carrinho de feira? Nunca!

Escolhemos ficar perto do laguinho, segundo minha amiga, para termos uma vista do “mar”. Ela levou uma toalha enorme e umas cangas, onde nos sentamos e colocamos toda a comida. Sabe que ficou bonito? Levei vinho branco, mas por precaução coloquei em uma garrafa térmica para disfarçar. Depois de burra velha fico me preocupando com essas besteiras!

O dia estava simplesmente maravilhoso e agradável! Fazia muito tempo que não relaxava tanto e tenho certeza que foi o sentimento geral. Adorei ver as árvores verdes novamente e ouvir os tambores no ar. Sentia saudade desse som tribal.

Um pouco depois que estávamos lá, chegou um outro casal de amigos dos nossos amigos. E, logo em seguida, esses amigos dos amigos chamaram outro casal. No fim da história, estávamos em quatro casais largados na grama curtindo a primavera.

Muito bem, os dois últimos casais acabaram trazendo mais vinho, apesar da gente não ter certeza se era permitido álcool ou garrafas no parque. Em volta da gente foram se juntando outros grupos, alguns só para tomar sol, outros bebendo alguma coisa, jogando malabares, jogando capoeira, brincando com o cachorro ou simplesmente morgando na grama.

Um dos amigos viu um grupo de policiais chegando e, na dúvida, achou que era melhor escondermos as garrafas. Não deu outra, os policiais foram direto no grupo da frente porque tinham garrafas de cerveja. Foram educados com eles, mas pediram documentação e tudo. Era um grupo de brasileiros, vimos seus passaportes verdes. Tiveram que se desfazer da cerveja e das garrafas e ficou um clima um pouco tenso, mas não deu maiores problemas.

Daí ficamos nós, oito adultos caretas que não tinham feito absolutamente nada demais, tentando se comportar naturalmente para os policiais não virem checar nossa farofa. Para ser sincera, não fiquei preocupada, até achei meio divertido. A verdade é que havia três advogados entre nossos amigos com a consciência pesada porque podiam estar cometendo algo fora da lei. No fim das contas, os policiais nem nos deram bola. Claro, todo mundo com a maior cara de CDF, imagina!

Quando os policiais se foram, nos vangloriamos da nossa façanha meio ilegal. E como marginais perigosíssimos que somos, recolhemos todo lixo antes de ir embora, deixando o lugar impecável.

Repetiremos com certeza, dessa vez com o vinho em garrafas térmicas! Mas definitivamente, sem esquecer o carrinho de feira e quem sabe até leve meu tambor.

112 – A mudança para o apartamento da Calle Montesa

Com a cabeça e a casa viradas pelo avesso, um dia antes da mudança achei que ia surtar! Para complicar um pouco mais, ainda foi o dia de apresentar meu trabalho na pós-graduação, o que em outras palavras é o mesmo que me apresentar. Mais uma vez tendo que provar quem sou e esperar a aceitação, quando na verdade estava com vontade de mandar tudo às favas. Mais uma vez tendo que me reinventar e me reconstruir. Enfim, sobrevivi.

Em casa, Luiz me puxou para conversar e finalmente consegui desabafar um pouco e ver as coisas com mais clareza. Acho que meus problemas são reais, mas estavam mal dimensionados, precisei da ajuda dele para colocá-los no seu devido tamanho antes de começar a resolvê-los. Além do mais, é sempre muito bom saber que tenho um super parceiro ao meu lado.

No dia seguinte, tudo começou a mudar. Literalmente.

Contratamos uma empresa de mudanças que chegou pontual às 8:30 da matina. Eles sempre entram como furacões e encaixotam sua vida em minutos. Estou acostumada, isso não me incomoda, já sei tudo que preciso preparar com antecedência para me facilitar depois na arrumação. Aqui, normalmente são imigrantes que fazem o serviço, polacos, romenos, equatorianos... Um deles tinha cara de mafioso russo, dava medo, mas os outros todos eram simpáticos. O polaco estava doido para conversar sobre o Brasil, havia visto um programa na TV e tinha muita curiosidade sobre a cachaça. Aliás, horas mais tarde, quando a mudança terminou, demos a ele uma garrafa que foi retribuída com um sorriso nos indicando que valeu muito mais que a gorjeta. A propósito, gorjeta aqui chama propina.

Dessa vez, nossa mudança não foi tirada pela janela. Os móveis foram pelas escadas e as caixas pelos mínimos elevadores, ridiculamente pequenos. Mas o pior, ou melhor, é que eles fazem tudo rápido e sem reclamar, também estão acostumados.

Deixamos nossa cama de casal no apartamento antigo, era uma cama americana muito grande para os padrões europeus e aproveitamos a mudança como pretexto para comprar uma nova.

Com esse povo todo em casa, Luiz recebeu uma ligação com ótimas notícias do seu trabalho. A empresa onde trabalha foi comprada há alguns meses atrás e essa é sempre uma situação preocupante, pois a gente se sente meio vulnerável. Dessa vez, tanto ele quanto eu, tivemos a intuição que ele deveria ficar e ver o que aconteceria. Nesse dia da mudança ele soube que não só teria emprego, como estará responsável por outras regiões. Ele merece, trabalha para burro e é super competente. Claro que isso deu uma tremenda levantada no astral e ajudou a entrar com o pé direito na nova fase.

Aqui, as empresas de mudança reservam na prefeitura as vagas na frente do prédio para poderem realizar seu trabalho. Acontece que tem sempre um engraçadinho que resolve se fazer de desentendido e estacionar assim mesmo. Na outra mudança aconteceu isso e nessa não foi diferente. De manhã cedo, no primeiro apartamento, não houve nenhum problema, mas no meio do dia, trazendo os móveis para cá, algum esperto tirou a faixa de proteção das vagas e estavam todas ocupadas. Perdeu-se quase duas horas para chamar a polícia, rebocar os carros e estacionar o caminhão para começar a descarregar.

Nesse período, ligamos para meu irmão para desejar feliz aniversário. Dia 06 de abril, exatamente o dia em que chegamos na Espanha há um ano atrás. Mudamos no mesmíssimo dia.

Por volta de 19:00 horas, estávamos no nosso novo lar... com 98 caixas de papelão e outra vez sem cama! Voltamos ao antigo apartamento para buscar o Jack e, logo na entrada, ao ver tudo vazio, senti que não era mais minha casa. Mesmo tendo sido feliz ali, não mantenho nenhum laço às coisas, era só um lugar por um ano. Que venham os próximos e que sejam felizes!

Aqui, nosso felino gordo ficou perdidinho da Silva! Mudanças são difíceis para os animais. Mas como também temos prática nesse assunto, arrumamos rapidamente seus objetos de conforto e, aos poucos, ele foi cheirando tudo e se pondo mais à vontade. Ele gostou. No dia seguinte já passeava curioso pela casa.

Mudamos estratégicamente um pouco antes da semana santa. Tive uma semana inteirinha de feriado da faculdade e, consequentemente, mais tempo para arrumar a casa. Consegui arrumar quase tudo. Durante o dia abria e arrumava as caixas e, à noite, Luiz levava aquele monte de lixo e papelão para baixo.

Improvisei uma cama de casal no chão, usando os dois colchões do sofá cama de hóspedes. Ficou super aconchegante, com jeito japonês, o que acabou confirmando como seria nossa futura cama.

Adorei o apartamento novo! É um duplex pequeno, mas muito charmoso e com muita luz. Sol em casa aqui é um luxo que eu e Jack estamos desfrutando com muito prazer. No andar de baixo ficam a sala, a cozinha, o quarto de hóspedes/escritório e um banheiro. No andar de cima, um mezanino, fica nosso quarto com outro banheiro. Tem uma varandinha onde já coloquei umas plantas, mas preciso arrumar melhor. As coisas do atelier ficaram bem apertadas embaixo da escada e talvez tenha que usar a mesa de jantar para trabalhar, nem tudo é perfeito, mas também não dá para reclamar.

O chato é que a Internet está super improvisada, além de termos ficado sem ela alguns dias. E eu, uma super viciada na rede, tenho que escrever e checar minhas mensagens toda torta em um laptop na sala, o que ainda é melhor que buscar um lugar público. Os serviços aqui são uma bela bosta, tudo demora.

Foi uma semana trabalhosa, entretanto tranquila. Arrumar a casa me ajuda a organizar as idéias. Acho que sou mesmo pião de obra, viu?

111 – A crônica que deveria ter censurado

Nesse momento, se não escrevo, explodo. E nem me resta mais a feliz alternativa de fingir que nada posso fazer. É difícil sobreviver ao encontro com o real, e por isso já passei algumas vezes.

Há algum tempo atrás vi o filme “Matrix” e me pareceu bom, mas ao mesmo tempo comercial demais. Depois, pouco a pouco, você vai se abstraindo dos efeitos especiais e do romance que nada tem a ver com o conceito da obra, é uma mera distração. Quem sabe um disfarce para possibilitar o acesso à toda aquela informação. E digo isso porque cada vez mais tenho a sensação que me desconectaram ou desconectei a tomada da cabeça. E o que me pareceu um momento de lucidez e uma grande vantagem, tem se transformado em meu inferno! A realidade às vezes parece insuportável.

Meu refúgio quase seguro, a arte, tem se mostrado mais importante no discurso que na prática. Na realidade, se parece mais e mais ao mesmo mundo de negócios que conheço bem e que precisei renegar para prosseguir. E que ingenuidade a minha em crer que haveria um lugar diferente no mesmo espaço. O único espaço que posso idealizar é minha cabeça, mas aparentemente nem isso posso mais.

Como o poder vai se concentrando na mão de quem controla conceitos corretos, os conecta com um discurso coerente e nos impõe goela a baixo. Na maior parte das vezes, isso nem é percebido, pois o que analisamos são os fragmentos de verdade e não o resultado dessa conexão. Simplesmente acreditamos que várias pequenas verdades juntas se transformam naturalmente em uma verdade maior. Estamos perdendo a capacidade de ver a vida real de maneira ampla. O discurso é muito mais razoável e digerível.

É muito mais fácil viver entre o imaginário e o simbólico, na verdade, é necessário. Mas onde fazer o corte do que realmente sou e do que quero ser?

Cassilda! É essa crise de identidade que vira e mexe vem tirando meu chão. Lá vem minha próxima crise existencial. Estava demorando.

110 – Música boa outra vez, nem acredito!

Encontramos outro lugar para bater cartão na noite madrileña. Foi indicado por um casal de amigos brasileiros que gostamos muito.

É verdade que o nome nos foi dado como “el jungo”, “el jungle” ou algo assim, em frente à estação Alonso Martinez. Foi divertido ouvir o Luiz pronunciar esses nomes com vários sotaques diferentes para o motorista de taxi que o escutava como quem escutava grego. No fim chegamos e o nome é “El Junco”, pronunciado el runco.

É um bar com música ao vivo, normalmente jazz ou algo do gênero. Após o show, entra o DJ com repertório variado, que inclui músicas brasileiras, algumas que nunca ouvi antes, mas me soam familiares. O lugar tem um jeitão underground com o público meio alternativo, apesar de se encontrar quase todas as tribos. Como todos os bons lugares de madri é esfumaçadérrimo, mas isso não tem como fugir. O jeito é tomar um whiskão, soltar a franga e relaxar.

E o principal: a música é realmente ótima! Sei que parece exagero, mas encontrar boa música na noite aqui não é tarefa simples. Eu já abstraí, como já contei antes, danço e canto as tais músicas basura amarradona, porém não resta dúvida que o ouvido continua agradecendo algo de qualidade.

O DJ nem sempre é o mesmo, mas todos são bons, apesar de serem meio estranhos. Da última vez, juro que o cidadão tinha a maior cara de açougueiro! Passei a chamá-lo de “the butcher”. Nunca iria acreditar se o conhecesse durante o dia e ele me dissesse que era DJ, no máximo seria um padeiro portuga, com aquelas costeletas à moda antiga.

O importante é que quando vamos ao El Junco estamos acompanhados de amigos legais e acho que isso também influencia muito. Tem vezes que chego super cansada, achando que não vou dar conta, daí bebo um pouquinho, converso um pouquinho e quando percebo estou alucinada dançando até de manhã. Foi de lá que saímos uma vez famintos e desesperados por um hamburguer. Isso é uma realidade em Madri, os lugares para dançar nunca servem absolutamente nada para comer, só bebida.

Outra vantagem do lugar é que é razoavelmente perto de casa. Dá para caminhar na volta quando não achamos taxi ou o metrô ainda não voltou a funcionar. Acho até bom vir pelo caminho tomando um ar fresco. Quer dizer, eu e o casal de amigos que costuma voltar conosco, porque Luiz costuma reclamar que é longe.

No dia seguinte, sempre tenho um pouco de ressaca de cigarro alheio e tenho que por a roupa para lavar correndo. Mas quer saber, também sempre acho que valeu à pena.

109 – A burocracia espanhola

Aos que pensam que só no Brasil há essa “burrocracia” absurda, vou logo avisando, eles tiveram professores! Entre eles, seguramente os espanhóis!

A última que nos aprontaram é impagável! Em função da renovação da nossa documentação e por meu visto ser atrelado ao do Luiz, precisamos comprovar que somos casados. Até aí, tudo normal. Na primeira vez que entramos com o processo, entre os milhões de documentos exigidos, apresentamos a certidão de casamento, devidamente homologada pelo ministério das relações exteriores e o consulado espanhol no Brasil. Muito bem, agora além desse documento, precisamos apresentar uma declaração juramentada que afirme algo como “sim, sim, continuamos casados!”. A certidão de casamento não basta!

E claro que isso não chega assim tão explicado, não é mesmo? Primeiro nos pediram para solicitar esse documento no consulado brasileiro aqui em Madri. Depois de perder uma manhã na fila do consulado, eles me informaram que não dão esse certificado. Daí consultamos a advogada e perguntamos se não poderíamos fazer uma declaração no notario (cartório) e anexá-la à certidão de casamento. Ela confirmou e lá fomos nós catar o tal do notario que fez a declaração, mas levou três dias! Um dia fomos até lá solicitá-la, no outro dia voltamos para assinar os papéis e obviamente havia um erro de ortografia, e portanto nada nos foi entregue por causa de uma porcaria de um “n” a menos. Finalmente pudemos retirar o documento no terceiro dia.

E isso é só um dos documentos a serem apresentados. Acho que já deu para cansar só de ouvir e nem vou contar dos outros!

Mas essa da gente ter que apresentar uma certidão anexada a um certificado que confirme a mesma informação da certidão é o cúmulo, vai? Arrego!

108 – A super poderosa primavera

Dia 21 de março, oficialmente, iniciou a primavera. É verdade que o inverno está fazendo a maior força para permanecer um pouco mais, para a alegria do Luiz que adora o frio.

Na semana retrasada até deu para sair uns dois dias de camiseta e foi uma delícia sentir o vento fresco na pele e um calorzinho gostoso, que nem fazia suar. Mas logo depois entrou uma frente fria novamente que ainda se prolonga e que torço para acabar logo.

Tem também uma chuvinha fina meio chata, mas fundamental, pois ano passado foi muito seco e aprendi a valorizar mais a água. Infelizmente, meu cabelo não concorda com esse ponto de vista e sou obrigada a andar de casaco de capuz, já que não tenho paciência para carregar guarda-chuva. Bem feito para mim, que sempre digo que se uma pessoa tem mais de doze anos fica ridícula com casaco de capuz, mas convenhamos, na chuva é realmente muito prático.

O que importa é que a primavera está aí, é inegável! Pode até esfriar um pouco, mas a luz é outra, o astral é outro. O dias estão, pouco a pouco, se esticando e já anoitece mais tarde. Adoro esses dias compridos que espantam fantasmas!

Encontramos nosso novo apartamento e, se tudo der certo, mudaremos no dia 06 de abril. Olha as coincidências outra vez! Além de ser o dia do aniversário do meu irmão, o que me facilita para lembrar da data, foi exatamente o dia que chegamos em Madri. Mudaremos no dia que completaremos um ano de vida aqui. A propósito, será meu trigésimo primeiro endereço.

E o que o novo apartamento tem com a primavera? Ele tem uma varanda bem pequenininha, mas que posso encher de flores e plantas. E mal posso esperar para fazê-lo. Além de duas janelas com floreiras, sendo uma na cozinha, na qual quero plantar ervas para usar na comida. Isso sem falar no Jack que deve estar louco por uma brisa fresca e um solzinho ao ar livre.

Acho que vou gostar de lá, depois eu conto.

107 – Renovar a porcaria da identidade

Pelo título da crônica, acho que dá para perceber a irritação que isso me provoca!

Parece que foi ontem, mas já faz um ano que estamos aqui e isso quer dizer que é hora de renovar meu NIE, a carteira de identidade espanhola. Funciona da seguinte maneira, a primeira permissão de residência é válida por um ano, a segunda por mais dois anos, a terceira por mais dois anos também e, completando esses cinco anos, você já pode ter a carteira definitiva. Quer dizer, pelo menos em teoria, porque sempre descobrimos alguma novidade no caminho, mas em princípio é assim. Em cada uma dessas etapas, você passa por todo um processo super burocrático para ter seu visto de residência novamente aprovado e renovar seu NIE.

Passamos por um processo similar duas vezes nos EUA e agora estamos na segunda vez aqui na Espanha. Isso quer dizer que, em um prazo de dois anos, tive que provar que eu sou eu mesma quatro vezes! Pois que desculpem meu francês, mas é foda! E nessas horas só mesmo um bom palavrão para desabafar.

E como nada chega sozinho, veio junto com nossa próxima mudança de casa e com o início da pós-graduação em arte contemporânea. Muito bem, com a mudança, por mais que esteja acostumada e tenha atalhos muito convenientes, a verdade é que sempre me tira um pouco o chão e me força a uma certa reconstrução. O curso, além de estar me consumindo tempo e esforço, tem me feito questionar todos os dias se sou mesmo uma artista, se estou no caminho certo. Tudo isso aliado à troca de “identidade” e a necessidade de me provar o tempo todo é um prato cheio para loucura!

Não enlouqueci ainda, ou pelo menos não totalmente, mas ando com os nervos a flor da pele. E já caí umas duas vezes no choro por pura exaustão, nem consigo me lembrar exatamente o motivo. Daqueles choros que é por nada e por tudo ao mesmo tempo. Mas a verdade é que achei bom, porque a calma e a segurança que tenho levado os problemas ultimamente não é normal, mais parecia calmaria antes da tempestade. Melhor que saia em pequenos desabafos antes que pule no pescoço de alguém!

Por outro lado, também há algumas possibilidades positivas. Nessa minha primeira permissão de residência, não podia trabalhar no país, meu visto era atrelado totalmente ao do Luiz. Nos EUA era a mesma coisa, até pior porque não havia a chance de mudar essa situação. Aparentemente, porque certeza já não tenho de nada, essa nova permissão de residência para os próximos dois anos me dará o direito a trabalhar. E isso faz toda diferença do mundo. É uma linhazinha escrita no meu NIE permitindo uma atividade remunerada, nem sei se terei emprego, mas isso ajudaria muito a me sentir uma cidadã e não um apêndice.

Enfim, dias melhores virão! Não estou pessimista, só cansada mesmo. De qualquer forma, pelo menos chegou a primavera e já vejo os brotinhos verdes nas árvores que ainda parecem meio mortas. Pensando melhor, agora parecem meio vivas, e isso também faz muita diferença.

106 – Afinal, e como foi a festa?

Ótima festa de aniversário de casamento! Tudo bem que minha opinião é suspeita, mas me diverti muitíssimo e espero que nossos convidados também. Estávamos em dezoito pessoas e, como sempre, nossos animados amigos levantam o astral de qualquer reunião.

Dessa vez, não tivemos convidados espanhóis, pois aqui foi um fim de semana que imenda em feriado, e quase todos viajaram para as fallas, em Valência. Por isso, até ficamos na dúvida em fazer a tal festa com o medo que não houvesse ninguém na cidade. Mas no fim tudo deu certo.

Para os gulosos e curiosos em relação à comida, servimos uma série de canapés que Luiz e eu inventamos. Fizemos de camembert cremoso, ovo de codorna e caviar; emmental cremoso com geléia de frutas vermelhas e nozes; anchovas com cenoura; e queijo, ovo de codorna e anchovas. Além disso, fiz uns enroladinhos de salmão defumado com queijo camembert, amarradinhos com cebolinha; damascos recheados de creme de yogurt e amendoin; tâmaras recheadas com camembert cremoso e nozes; blinis de peixes defumados; salpicão de frango; e salada de cogumelos ao armagnac. Um casal de amigos trouxe umas empanadas de carne e de milho. Tudo iluminado com velas e regado a muita cava e vinho branco.

Eu já gosto de uma produção! Gasto um certo tempo planejando tudo e pensando nos detalhes. Assim, meu trabalho é todo antes, durante a festa me divirto como uma visita. E a verdade é que nem o trabalho que tenho antes me incomoda. Curto ficar imaginando quem gosta do que, como deixar a casa mais bonita e funcional, do que as pessoas vão precisar, que música combina com o clima etc. Dessa maneira, posso aproveitar a presença das pessoas e não ficar como uma louca de um lado para o outro apagando incêndios. E aproveitei!

Acho que incomodamos um pouco os vizinhos com o som, mas considerando que vamos mudar daqui mesmo, paciência! Além do mais era sábado e até agora ninguém reclamou. Deu até para dançarmos um pouco, ao som da Madonna e da Fernanda Abreu.

Enfim, acho que entramos com o pé direito na nossa adolescência matrimonial. E como tudo passou tão rápido! Mas, segundo a sabedoria popular, passa rápido quando a gente se diverte...

105 – O primeiro aniversário de casamento em Madri

Hoje é 18 de março de 2006, e fazemos aniversário de doze anos de casados. E sim, claro que tem festinha! Sempre comemoramos essa data, mas nos dois últimos anos foi meio complicado. Em um deles estávamos de mudança para Atlanta, dentro do avião acima do oceano, e no outro, em países diferentes, providenciando a mudança seguinte aqui para Madri.

Acredido que as pessoas devam se casar pelos motivos certos. Nós casamos porque eu ia trocar de carro. Juro! Muito simples, juntei dinheiro para vender meu carro e comprar um melhor. Daí, sabia que Luiz também tinha uma reserva, mas nenhum plano para ela. Pensei, quer saber, por que ao invés de comprar outro carro, não juntamos esse dinheiro e compramos um apartamento pequeno para a gente? Luiz adorou a idéia e passamos a buscar imóveis.

A verdade é que, mesmo juntando nossas economias, só dava para comprar uma kitinete porcaria, que atualmente se chama de maneira mais elegante: studio. Chegamos a conclusão que não nos adaptaríamos a nada tão pequeno e Luiz me perguntou se achava que meus pais poderiam nos ajudar. E eu, você acha que meu pai, conservador, iria ajudar a comprar um apartamento para a gente morar junto? Se ainda fosse para casar... E ele, muito prático, então por que a gente não casa?

... e assim, já se vão doze anos! Posso contar essa história agora, pois o tempo nos deu credibilidade e tornou tudo muito divertido. Mas, honestamente, nunca fui capaz de entender quem pediu a mão de quem em casamento.

O fato é que, desde muito cedo em nosso namoro, tínhamos essa sensação que ficaríamos juntos. Não era uma coisa conversada em palavras, era simplesmente uma consequência natural. Assim que, quando decidimos casar, achamos que era só ir até um cartório e formalizar.

Foi a vez da minha mãe saltar dois metros de altura: como assim casar no cartório? E a festa?

Sou a única filha mulher, tenho apenas um irmão mais novo. Casar sem uma comemoração era para eles a morte lenta e dolorosa, mas não entendia isso naquele momento.

Lembro quando o Luiz perguntou a minha mãe por que ela não usava o dinheiro da festa para colocar armários no apartamento novo. E ela respondeu: você acha que vou colocar o dinheiro da MINHA festa em armários? Ele veio me contar rindo, sua mãe disse que a festa é dela, eu é que não falo mais nada!

Bom, para apaziguar os ânimos, topamos fazer uma festinha íntima, só para a família, chamando a juíza para nos casar na casa dos pais do Luiz, em Teresópolis. Muito bem, quando se começou a fazer as contas de quem era “só a família”, chegaram a um número próximo aos cinqüenta. Minha mãe achou que era um número meio grande para fazer em Teresópolis e pensou em alugar um local. E aí, já que iria alugar um local, quem aluga para cinqüenta, aluga para cem...

Foi quando comecei a entender e perceber a agonia que era para meus pais, principalmente para minha mãe, o fato de nós não ligarmos para uma festa de casamento. Então, nesse momento, perguntei a ela se era tão importante assim que a gente fizesse uma festa maior. E ela me respondeu que sim. Daí eu disse que tudo bem, só tinha um problema, nessa época eu morava na ponte aérea, trabalhando em São Paulo e voltando para o Rio nos fins de semana. Não tinha a menor condição de organizar ou me preocupar com uma festa de casamento. Prometi a ela que eu e Luiz apareceríamos no dia, mas que ela precisaria decidir e contratar tudo! Pois acho que era exatamente o que ela queria ouvir.

No fim das contas, foram convidadas trezentas pessoas. Nos informaram que era normal uma falta de aproximadamente 20% dos convidados, o que não aconteceu. Foram a festa trezentos e trinta convidados, ou seja, não só não faltaram os 20%, como vieram 10% a mais!

Mas quer saber de uma coisa? A-do-rei! Se não tivesse feito a festa, não teria me arrependido, pois não conheceria a delícia que foi. A verdade é que se tornou um dos dias mais felizes da minha vida e essa memória me emociona até hoje. Aprendi a importância dos rituais de passagem e como uma felicidade se potencializa quando dividida com pessoas queridas.

A partir daí, sempre que possível, comemoramos o dia com uma festa.

Esse ano, por não gostar do número 12, resolvi contratacar a urucubaca com muita energia e pensamento positivo. O tema da festa é branco, inspirado no Ano Novo. Serviremos bebidas brancas, com destaque para a Cava, espumante espanhol. A maior parte das comidinhas incluem a cor branca e um toque afrodisíaco. O legal é que dessa vez Luiz me ajudou a fazer a comida da festa, o que acabou dando mais significado ainda.

E assim celebramos doze anos, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. O futuro, quem pode saber? Sei do que passou e já foi com dinheiro e sem dinheiro, com emprego e sem emprego, com casa e sem casa, sabe-se lá em que país, com amigos reais e virtuais, com um felino a tiracolo, discutindo nos caminhos, mas sempre chegando juntos aos lugares. Em todos esses dias, felizes ou não, dividimos a mesma cama. E o frio ou o calor da noite se encarregou em colocar a vida sob a real perspectiva e os problemas do seu devido tamanho.

Não tenho paciência para ver novelas e reclamo dos previsíveis filmes americanos, mas a verdade é que gosto de seus finais piegas e onde tudo dá certo. Gosto das novelas que terminam mostrando um casamento que será feliz para sempre, e ainda me arrepio no fácil final clássico de filme americano, quando o mocinho estende a mão e convida a protagonista para dançar. E que assim seja!

The End.

104 – Como é duro ser intelectual!

Quando era pequena e boa parte dos meus amiguinhos tinham medo de escuro, de lagartixas, de monstros e de fantasmas, eu tinha medo de ser burra.

Uma vez, quando me recusava a cortar o cabelo, minha mãe e minha avó vieram com uma história de que o cabelo grande pesava na cabeça e deixava a gente mais burra. Convenhamos, que sacanagem, né? Lembro de escutar aquela conversa com muita desconfiança que estavam me enganando, mas o pânico de ficar burra era maior e acabei fazendo papel de besta, pois cortei a porcaria do cabelo. Essa é minha primeira memória concreta de medo.

Fui criada em Brasília, uma perfeita fábrica de intelectuais. Não estou falando mal da cidade, que gosto muito, mas como qualquer lugar, tem seus pontos positivos e negativos. Acho até que de maneira geral as pessoas são muito injustas com Brasília, mas hoje precisarei ser crítica também. É um lugar frequentemente chamado de “Ilha da Fantasia”, que me soava um pouco absurdo quando morava lá, mas ficou muito claro quando vi de fora, com uma certa distância. A verdade é que Brasília, talvez por sua distância física e a forma como foi concebida, recebe o mundo através de filtros. É um “Castelo de Versailles” contemporâneo, situado uma montanha antes do “Castelo de Kafka”. Você até chega nele, mas não sem se macular e se emaranhar num sistema burocrático.

Além do mais, todo aquele planejamento, realmente facilita sua vida, é corfortável e você tem mais tempo. Com mais tempo você pode, por exemplo, pensar mais, ler mais, estudar outros idiomas... Posso afirmar que boa parte das pessoas mais cultas que conheci foi em Brasília. Adicionalmente, a possibilidade de viver em um mundo razoavelmente idealizado, dá um prato cheio para ser um teórico, um intelectual de verdade.

Passei minha adolescência buscando os livros e os filmes corretos, e me sentindo muito inteligente com isso. Nos meus sonhos mais secretos, queria ser uma intelectual.

Quando fui morar no Rio de Janeiro, com quase dezoito anos, tomei um banho frio de realidade. Meu mundo teórico foi para o saco! E achei que ser intelectual era um porre! Eu era, e sou, a burguesa que reneguei tanto. Como também não falava alemão, resolvi que essa história de filosofar não era para mim. Parti para vida, para o trabalho e para os prazeres.

Sem demagogia, tinha e tenho consciência da minha responsabilidade social e, na medida do possível, tento fazer ao menos o meu papel. Mas também tive que confrontar minha hipocrisia em achar muito cômodo ser a favor de um movimento de pessoas sem terra quando se tratava de uma fazenda no cu do judas, mas era assustadora a imagem dele batendo na minha porta. E uma hora bateu. Acusar policiais de massacres injustos me faz sentir redimida, mas a verdade é que se a arma estivesse na minha mão, será que não atiraria também? Conheci pobres indolentes e ricos trabalhadores, não digo que seja a regra, mas não houve como não redimensionar meus valores. Era fácil julgar um mundo do qual eu não fazia parte. Mas ao mesmo tempo, como poderíamos simplesmente nos conformar com o que existe?

Há muitos anos deixei uma parte dessas questões de lado e resolvi viver e pronto. Agora, por coincidência ou porque não há alternativa, isso me bate na cara novamente. A volta à vida acadêmica me fez confrontar velhos demônios.

Tenho uma professora que, a primeira vista, me parece uma mulher fabulosa, uma intelectual no melhor sentido da palavra. Daquelas que você escuta falando e pensa, queria ser assim quando crescesse. Para isso, só me falta ler uns 25 mil livros, 3 milhões de artigos, entendê-los, compará-los e buscar suas relações com fatos reais ao longo da história. Puta merda, como é difícil ser intelectual! Acho que não tenho competência nem paciência para todo esse trabalho! Mas como tapar os ouvidos e resistir a chance de tentar? E por que resisto tanto?

A verdade é que agora sinto muita falta do meu mundo filtrado, teórico e inteligente. Estar nele não fazia o mundo melhor, mas o fazia melhor para mim. Sinto uma saudade enorme do meu otimismo, de acreditar que faria diferença e que havia algo muito importante e um lugar muito especial me esperando. É egoísmo e não me importa, até porque é impossível, não será realizado. Invertendo meu passado, agora tenho muito medo de virar intelectual, talvez o bom mesmo seja ser burra.

103 – Um show quase bom e a língua sem palavras que queria dominar

Fomos ao show de um conhecidíssimo bailarino flamenco, que queria ver há algum tempo. Não quero dizer o nome dele, pois apesar de sua apresentação ter sido impecável, o som estava péssimo e houve uma série de problemas que prejudicaram o espetáculo como um todo. Uma pena! Fora o fato que seu ego subiu um pouco a cabeça e, como se diz aqui, estava um tanto creído.

Mas vamos lá, de tudo se tira algo de interessante e tirei duas coisas. A primeira foi seu domínio do corpo, a total consciência de cada músculo e de cada movimento, como se fosse uma máquina azeitada, uma engrenagem complexa onde tudo funciona. Impressionante! A segunda, foi em relação a qualidade dos músicos, a capacidade de um instrumento retorcer meu estômago. No fundo, essas duas coisas me falam de uma só, da possibilidade de expressão sem palavras.

Tinha muita vontade de dominar uma linguagem que não necessitasse palavras. De certa forma, faço isso com a arte, mas queria mais, ainda acho meu alcance muito pequeno. Acredito que com o corpo, como no caso da dança, e com a música, essa comunicação é mais direta e universal.

Quando vejo alguém que possui esse talento da expressão corporal, tenho vontade de chorar de tão forte que me bate. E não é incomum que eu veja cores ao escutar um instrumento que me emocione.

Queria muito ter esse poder.

Não é à toa que nosso amigo dançarino flamenco estava tão creído, ele conhece o poder que tem. Tudo bem que a arrogância canibaliza esse dom, mas que se dane, quando ele dança é poderoso e se acabou! Não há discussão.
102 – Começar de novo...

Eu e minha boca grande! A gente precisa ter muito cuidado com o que deseja! Porque acontece!

Não estava falando tanto sobre começar um ciclo novo, de novos olhares e tal? Pois é, então não seja por isso, lá vamos nós começar outra vez!

Alugamos esse nosso apartamento por um ano, acho que contei isso lá atrás. A verdade é que naquele momento um ano nos parecia uma vida, mas passou num piscar de olhos.

Havia a possibilidade da dona do apartamento precisar morar fora de Madri e, automaticamente, renovaríamos o contrato, bom para ela e para nós. Claro que isso não aconteceu, o quer dizer que lá vamos nós, os caracóis alucinados, com a casa nas costas de novo!

Enfim, recebemos a notícia com um certo desânimo. Dá cansaço só de imaginar a trabalheira. Olho para meu gato com aquela cara de Garfield e o imagino dizer “joder!”.
Mas como diz o ditado, o que não tem remédio...

Uma coisa está mais fácil, minha noção de espaço mudou e consegui me acostumar a lugares menores. Os apartamentos mais centrais na Europa são sempre muito pequenos e no início dava cabeçadas pela casa. Agora acho até grande. Engraçado que temos poucos armários e minhas coisas que pareciam poucas quando saímos do Brasil, ou melhor, o mínimo que poderia trazer, aqui me parecem um exagero. Chego ao absurdo de gostar quando quebra um copo porque rapidamente associo a mais espaço no armário ou menos coisa para carregar!

Iniciamos a busca, que não é nada fácil, mas temos um certo know-how e estamos tentando nos animar. Quem sabe ainda vamos para um lugar melhor, não? Um ano depois, estamos nós novamente caminhando pelas ruas e procurando placas de “alquiller” pelas portarias dos edifícios.

Hoje, voltando para casa, percebi o quanto a rua onde moramos se tornou familiar. Sei a ordem das lojas e os cheiros quando passo na frente delas; conheço boa parte dos cachorros que passeiam pelas calçadas; reconheço os dois pedintes cativos da rua, uma senhora que se veste sempre de preto e um senhor com uma deficiência em um dos pés que desaparece no inverno; sei em que parte o asfalto está quebrado e preciso me cuidar para não torcer o pé; passo sempre rindo na frente da loja onde compramos o sofá-cama, aquele que viemos carregando na cabeça até o apartamento; sei como a rua fica arborizada e também quando as folhas caem; sei qual o caixa eletrônico onde não pago taxa de administração; sei onde é melhor pegar taxi e para que lado devo ir; sei onde comprar flores e onde encontro o “champú en seco” mais barato; sei um monte de coisas. Talvez seja a hora de saber outro lugar.

101 – Espabila Favila que te come el oso!

Há uma expressão em espanhol que acho sensacional: espabila Favila que te come el oso! Explicando por partes, “espabilar” é algo como prestar atenção, ficar atento; “Favila” é um nome próprio; e “que te come el oso” é que te come o urso. Ou seja, fica esperto Favila senão o urso te come! Na versão tupiniquim, “dá mole que jacaré abraça”!

O mais engraçado dessa expressão é sua origem. Por volta do ano 600, houve um rei godo, o tal do Favila, assassinado em seu próprio castelo. A versão oficial é que um urso havia comido o rei (dentro do castelo!). Percebe-se que a cara-de-pau política não é nada atual.

Como às vezes a expressão fica um pouco grande, também se escuta a versão resumida “espabila Favila...”; ou com uma voz mais grave e um olhar de canto o “espabilate”, que soa como “espabilatêêê”. E com sotaque do sul, sai algo como “rpabilatê”.

Fico doida para falar isso para alguém, mas ainda não consegui encaixar em nenhuma frase com segurança. O jeito é quando encontro uma pessoa-rolha imaginar que estou falando para ela “espabilatêêê” e sonhar que ela vai dizer “perdón” e sair da minha frente. Bom, nunca acontece, mas pelo menos não fico de mau humor atrás das rolhas.

A primeira vez que escutei isso foi com um casal de amigos espanhóis muito legais. É que fizemos uma festinha aqui em casa e eles não puderam vir. Daí se ofereceram para, no fim de semana seguinte, nos levar a qualquer lugar que quiséssemos conhecer em um raio de 200km de Madri. Fomos até Almagro, parando um pouco pelo caminho. Lá em Almagro, alguém ficou de bobeira na frente dele com o carro e ele soltou o tal do “espabila Favila que te come el oso”. E eu, o que? Estava acostumada ao “me cago en la leche”, mas essa era novidade para mim!

Ele me explicou a historinha que achei genial e, desde então, tento falar também, mas nunca tenho uma chance. Então, só para matar a vontade, vai escrevendo mesmo:

¡Espabila Fabila que te come el oso!

100 – A número 100!

Caramba, e chegou a crônica número 100!

Se ainda não falei, deu para perceber que adoro símbolos e rituais. Minha vida é dividida em ciclos, mais longos ou mais curtos, que preciso terminar e começar outro novo.

Para alguns amigos já contei como iniciou essa história de escrever crônicas, mas agora com essa vida “pública”, conto para todos. Comecei escrevendo para mim mesma como um registro do que acontecia em Madri, que na realidade era pano de fundo para uma maneira de olhar as coisas. Era quase como um diário. Daí Luiz ficou curioso e pediu para ler. Deixei meio sem graça, apesar de não haver nenhum segredo. Ele gostou tanto que me incentivou a publicar um blog. Quase morri de vergonha, pois sempre foi muito difícil me expor, mas topei até porque era difícil. Na minha cabeça, como preciso de um limite, pensava, vou tentar chegar na número 100. E aqui estamos, nem acredito!

Achava que quando chegasse esse momento teria cumprido minha missão, mas a verdade é que estou totalmente viciada e não sei mais não escrever. O grau de constrangimento que sentia no início é proporcional à delícia de possuir um canal de expressão. Poder compartilhar experiências é tudo de bom.

Porém, preciso fechar um ciclo e iniciar outro, é a minha natureza. E por um acaso feliz, hoje inicio outro ciclo na minha vida.

Hoje foi o primeiro dia do meu master em arte contemporânea, equivale a uma pós-graduação no Brasil. Cerca de quinze anos após a Academia, volto para faculdade. Outra área, outro país e a mesma ansiedade. É como entrar na montanha-russa, naquela sensação de segundos antes de iniciar o trajeto. Estou lá porque quero, mas sempre nesse momento me pergunto se deveria estar ali.

Pois sim, deveria.

Estamos onde deveríamos e nos cabe a responsabilidade de fazer isso valer a pena.

Hoje muitas idéias contraditórias passaram pela minha cabeça. Por um lado, estava aliviada de finalmente me sentir começando algo, tendo um plano de gente normal. Por outro, me sentia presa, é difícil para mim pensar no prazo de um ano. Aprendi a sobreviver no caos e é nesse caos que me diferencio. Tive a alegria de perceber a oportunidade de concretizar projetos e ao mesmo tempo o medo de precisar confrontar minha própria incompetência. Por que ainda é tão difícil crescer?

Termino com meu mantra de cabeceira, que me resgata dos momentos de angústia não necessariamente maus. É meu grito de guerra, meu amuleto para recomeçar: “Se eu me demorar demais olhando Paysage aux oiseaux jaunes, de Klee, nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho. A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos. Então reconheço que a liberdade é só para muito poucos. De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Pois sei que minha coragem é possível. Começo então a pensar que entre os loucos há os que não são loucos. É que a possibilidade, que é verdadeiramente realizada, não é para ser entendida. E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo; Paysage aux oiseaux jaunes não pede. Pelo menos calculo o que seria a liberdade. E é isso que torna intolerável a segurança das grades; o conforto dessa prisão me bate na cara. Tudo que eu tenho aguentado – só para não ser livre…” (livro “Para não esquecer” de Clarice Lispector)

99 – O dia da forra

Após um carnaval aburrido e um bico de dois palmos e meio por uns três dias, no fim de semana seguinte veio a forra. A verdade é que nem foi tão mal assim, acho que é mais a questão psicológica de saber que era carnaval. Em qualquer outro fim de semana teria ficado super feliz, pois chegaram amigos do Brasil, tivemos gente em casa, encontramos amigos aqui... Enfim, mas quando imaginava que do outro lado do mundo pipocavam trios elétricos, só gastando toda minha energia para me satisfazer. E adianto, isso não é tarefa fácil!

Acabou que tive uma semana super cheia, encontrei com duas amigas do tempo de colégio, uma veio com o marido de férias e a outra fica por um ano e estudaremos juntas. Foi divertido e chegou na sexta-feira eu já estava de bom humor outra vez.

O curioso é que como agora minha vida é literalmente um livro aberto, todo mundo sabia que tinha ficado emburrada no fim de semana passado. Isso é engraçado porque as pessoas se procuram nas coisas que escrevo e ainda não sei lidar com isso. Para mim são dois mundos diferentes, mas um dia me acostumo.

E como ia dizendo, na sexta-feira, no pique madrileño, nos liga uma amiga chamando para sair, o irmão dela estava visitando. Fomos nós quatro para o Lateral, um bar modernoso, com tapas super criativas e um bom preço. Para variar, também fica perto de casa. Ali encontramos mais dois amigos e batemos papo até dar a hora de poder ir para uma boite. É que antes de uma da manhã estão todas vazias.

Fomos para a Posada de las Ánimas, onde já praticamente batemos cartãozinho na porta. Mas para falar a verdade, nesse dia impliquei com o DJ. Sei lá, para mim ele não estava acertando a mão. Os dois amigos que nos encontraram no Lateral foram para outra boite e nós quatro insistimos um pouco mais para ver se melhorava.

Por volta das duas da manhã, resolvemos tentar a próxima parada. Fomos para uma boite chamada El Junco, indicada por um casal de amigos brasileiros que nos encontraria lá mais tarde, com outros amigos. Entrei meio desconfiada, mas em pouco tempo já estava amarradona! Muito bom lugar, super despojado, informal e boa música.

Adoro essa coisa de Madri da noite ir acontecendo. Você não vai para um bar e ponto, esse é só o começo. Ali você encontra uns amigos, depois vai para outro lugar e encontra outros, às vezes os lugares são modernos, às vezes super tradicionais... e quando nos demos conta eram quase seis da manhã. Casa cheia e todo mundo dançando!

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas realmente bateu uma fome desesperadora! Daí nos deparamos com o seguinte problema, não há em Madri uma lanchonete que venda hamburguer às 6 da matina. O máximo que você consegue são churros com chocolate quente. Acontece que não queria churros, queria um super hamburguer gigante, com muito queijo e bacon! Aquele do Bloomings de São Paulo que a gente sempre comia depois de qualquer festa. Fazia parte do ritual.

Cheios de esperança e uma fome do cão, partimos nós e um casal de amigos em busca do hamburguer perdido! Por sorte, como já passavam das seis, o metrô havia aberto e tivemos condução para voltar para casa. No caminho, Luiz lembrou de uma possível padaria 24 horas que me soou muito estranho, mas o desejo carnívoro não me deixava pensar direito. Saltamos perto de casa e caminhamos nos arrastando mais umas cinco quadras atrás da tal padaria, que obviamente estava fechada.

E para achar um taxi para voltar? Porque andar ninguém aguentava mais. Sentamos em um ponto de ônibus para ver o que passava primeiro com rodas para nos levar, quando avistamos um mercadinho com as luzes acesas.

Nos dirigimos ao mercado salivando por haver algo quente para comer. Claro que não havia. Porém, a nossa salvação estava na geladeira. Eles vendiam sanduíches plastificados e havia cheeseburguer! Não tinha grandes expectativas quanto ao sabor do dito cujo, mas pelo menos tinha cara de hamburguer e já era alguma coisa.

Em casa, após tomar um banho rápido e incinerar a roupa que fedia a cigarro, fui para cozinha esquentar nossos hamburgueres. Nunca comi um hamburguer tão ruim com tanta vontade. O jeito foi encher de mostarda para ter gosto de alguma coisa. Mas a verdade é que quebrou o maior galho!

No dia seguinte, ou melhor, no mesmo dia, assim que acordamos fomos direto tomar nosso café da manhã... no Burguer King, é claro! Comi um cheesebacon duplo e Luiz comeu dois!
No comecinho da noite, fomos com o mesmo casal de amigos do hamburguer no La Daniela fazer um programinha light. Todos morrendo de sono. Voltamos para casa cedo e dessa vez sem a menor reclamação da minha parte. Estava acabada, mas feliz da vida.

98 – As tribos madrileñas

Desde que o mundo é mundo o homem se classifica. Essas classes sociais mudam de nomes, entretanto os conceitos se perpetuam e se alternam de lados, demonstrando uma necessidade de categorização que me perturba, mas parece inevitável.

Madri não poderia ser diferente, aqui também temos as divisões. Sei que é quase uma heresia uma brasileira falar das diferenças sociais na Europa, o Brasil é um rei em discrepâncias nesse sentido, sei olhar para meu umbigo, mas não uso uma bitola e, infelizmente, noto que isso também existe aqui. Talvez em um nível mais horizontal, não só em função de dinheiro, e não tão vertiginosamente vertical como o nosso, mas está presente.

Existe a burguesia, a população mais abastada, chamada coloquialmente de pijos. Os pijos usam roupas de marca e falam com muita freqüência o termo “o sea” (ou seja). Pelo menos, esse é o estereótipo do burguês, sua caricatura, que muitas vezes me parece uma bela dor-de-cotovelo de quem não chegou lá. Sabe essa deformação católica da impossibilidade do rico entrar no reino dos céus? Algo assim. Óbvio que também há os superficiais, mas de modo geral, não conheço ninguém que tenha dinheiro que não trabalhe muito por ele. Sei que existe, mas não convivo nem aqui nem no Brasil.

Tem os alternativos, que aqui não possuem uma nomenclatura específica, mas se dizem majos (descolados, gente legal). Também usam marcas da mesma forma, mas outros tipos de marca, lógico, as marcas majas. Passam horas se produzindo para parecerem informais e gastam uma enorme energia em desenvolver um estilo próprio para parecerem que não se preocupam com estilos. Existe uma obrigação de serem, ou ao menos parecerem, mais inteligentes, como se um tipo de óculos aumentasse o número de neurônios. É verdade que na noite, onde todos os gatos são pardos, eles são ou se parecem realmente majos.

Há os imigrantes, com subdivisões de categorias: os com dinheiro e os ferrados. Os com dinheiro, podem ser de qualquer cor e falar com sotaque, pois normalmente são bem tratados. Na pior das hipóteses, são confundidos com turistas. Podem inclusive ser majos ou pijos. Não digo que seja uma vida fácil, porque nunca é, mas definitivamente é muito melhor que o segundo grupo. Os ferrados costumam ser ilegais no país, ou foram em algum momento. Esses últimos possuem outra divisão: os negros, os do leste europeu, os sul americanos (os sudakas, essa terminação em “aka” é pejorativa aqui), os orientais (os chinos, não importa se são chineses, japoneses, vietnamitas... tem olho puxado é chino) e os que se misturam à população por seu tipo físico. A última categoria tem um pouco de sorte, o resto, como denominei duramente, se ferram, comem muita grama até possuírem uma qualidade de vida razoável, quando conseguem.

Ainda na categoria imigrante, há os marroquinos e os ciganos. Acho que são os que mais tem problemas, seguidos pelos negros africanos. Os ciganos, não sei se podemos considerar exatamente como imigrantes, mas assim são vistos. A verdade é que a cultura é muito diferente e há um choque horroroso para se acomodarem. Adicionando-se a isso o estado de pobreza, é muito comum se dedicarem a atividades ilegais, o que aumenta o preconceito, pois de uma maneira maluca acaba justificando a má fama. É um círculo vicioso.

Os sudakas, mesmo não sendo tão bem tratados, de certa forma, não são mal vistos. É considerada uma imigração positiva, pois exerce as funções que o espanhol não quer fazer. Os brasileiros, apesar de serem sul americanos, são vistos meio que em separado das outras nacionalidades, talvez pelo idioma. As mulheres brasileiras, assim como as do leste europeu, levam fama de prostitutas, mas no resto não vejo ainda um preconceito grande. As músicas são muito bem recebidas, as pessoas são consideradas animadas e amáveis e amam os jogadores de futebol.

Bom, também há os pobres espanhóis, que acabam se ferrando tanto quanto os imigrantes. Não é incomum observar depois de certa hora da noite, pessoas com boa aparência revirando as latas de lixo que ficam nas calçadas. Normalmente, são provenientes de algum pueblo (cidades pequenas do interior, povoados, vilarejos) e estão na capital tentando melhorar a vida.

Há os turistas, que aqui, por seu volume, acredito possuírem também um status de classe social. São espanhóis ou estrangeiros e normalmente se concentram pelo centro da cidade. Quase nenhum turista gosta de assumir que é turista, pois isso costuma ser sinônimo de trouxa em qualquer lugar do mundo. O centro da cidade também é freqüentado por madrileños, mas que detestam admitir, pois afinal de contas, não são turistas e, mesmo que os lugares sejam bons, isso não soaria muito majo.

Ainda há os mayores (pessoas mais velhas). As mulheres sempre vestem saias, normalmente negras e na canela e os homens vestem terno. São muito conservadores e tem o costume de passear de braços dados pela rua, sempre nos mesmos lugares.

Que tenha percebido até agora, esses são os principais grupos de gente que observo nas ruas madrileñas. Não tenho nenhuma base científica, é pura observação pessoal. Além do mais, dentro de cada tribo, sempre há gente boa ou não. Dou sorte em conhecer pessoas e costumo conhecer as legais.

Assim como no Brasil, gosto de navegar por diferentes tribos, apesar de não me sentir parte de nenhuma delas e não é que não queira, é que não sei mesmo. Não gosto da idéia de rótulos, até a palavra já se desgastou. Mas entendo e acho importante observar as diferenças. Diferenças sempre vão existir e o poder costuma estar exatamente nelas. Acho importante reconhecê-las, mas mais importante ainda respeitá-las.

Ainda dentro dessa temática de diferenças entre tribos, tive uma experiência bizarra quando mudei de vida profissional. Mantive meus amigos executivos e ganhei novos amigos artistas, boêmios, enfim, alternativos. Na minha opção pela mudança, me preparei para não ser compreendida por meus amigos “homens e mulheres de negócio”, mas a verdade é que isso nunca aconteceu. Todos estavam abertos e foram grandes incentivadores, talvez por serem meus amigos. Alguns podiam nem entender bem, mas aceitaram com curiosidade e boa vontade. Chamo isso de respeito. Por outro lado, sinto uma certa dificuldade em que meus amigos “alternativos” naveguem com facilidade em outros mundos. Claro que não estou falando de todos nem que sejam assim todo tempo, felizmente, mas sinto muitas vezes um preconceito maior e uma atitude defensiva em entenderem e desfrutarem outras formas de vida. Sinto constantemente um ar de deboche que não entendo bem se é sinal de visão ou de despeito, talvez um pouco dos dois. Acho triste imaginar cabeças que teoricamente tem por missão estar a frente dos tempos, tantas vezes estejam tão fechadas em seu próprio microcosmo. Minha esperança é o fato de ser comum precisarmos negar algo para entendê-lo com profundidade. Espero um dia chegar a certeza de que não somos tão diferentes e originais quanto pensávamos e conseguir aprender a simplificar a vida.

Sinceramente, não sei o que sou. Acho que sou um pouco pija porque posso e aproveito os prazeres da vida, gosto de ser feliz, de ver gente bonita, de comer bem, de degustar vinhos e de vestir as roupas que me valorizam. Sou um pouco alternativa, porque de todos esses prazeres sei diferenciar os que gosto dos que preciso. Depois de mudar tanto, serei sempre imigrante, dentro ou fora do meu país e hoje posso também dizer que sou um pouco madrileña, porque aprendi a respeitar as diferenças dessa cidade e, assim mesmo, continuar apaixonada por ela. E cada dia fico mayor, não quero usar as saias negras longas, mas quero passear pela rua de braços dados. Claro que também possuo os defeitos, mas isso eu é que não vou apontar, muito menos classificar.
...Oh, sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que não acredito mais em você... eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus, e não me importa, e não me importa não, oh, minha honey baby...

97 – O Reino Encantado de Andorra

Tiramos férias e fomos passar uma semana em Andorra, um micro país, de 468 Km2, encravado entre Espanha e França. A principal atividade é o turismo e possui excelentes estações de esqui, motivo pelo qual viajamos para lá.

Para dizer a verdade, assumindo minha ignorância, não me lembrava de haver ouvido nada sobre Andorra antes, mas o nome me soou como um mundo de contos de fadas, algo do tipo: o reino encantado de Andorra, onde a bruxa malvada mantinha a princesa encarcerada em uma torre de pedras.

Pois fui eu, a princesa guerreira sin ganas de esquiar, Luiz, meu príncipe encantado caçador de dragões de gelo, e Jack, nosso fiel e feroz leão escudeiro. Seguimos em nossa carruagem alugada, puxada por 120 cavalos, em 6 horas de viagem desde Madri.

É claro que logo no primeiro dia minha elegância magistral foi para o saco e, com aquela quantidade de roupa isolante em camadas, me transformei rapidamente em uma plebéia desengonçada.

Isso sem falar das botas de esqui. Francamente, aquilo é um instrumento de torturas criado pelo pior dos demônios da neve! E a gente usa de propósito, nenhum Highlander me pôs uma espada no pescoço me obrigando! Eu devo ser masoquista... Aquela porcaria faz a gente andar de um jeito esquisito. A primeira vista, todas aquelas pessoas, caminhando rígidas e em cadência, me parecem soldados de armaduras gordas e impermeáveis, marchando para a guerra do frio.

Mas as coisas mudam quando nos encaixamos nos esquis. A postura melhora, nos distraímos da dor e a adrenalina esquenta o corpo. Aí fica todo mundo com a maior pinta de marrento! Todos se achando e eu inclusive.

Engraçado como sou uma pessoa quando vou e outra quando volto da pista. Esquiar para mim é difícil começando na preparação para sair de casa. Detesto aquele monte de roupa! Sinto-me totalmente claustrofóbica e os sapatos de neve me machucam. Vou andando no maior mau humor até a estação para a subida do bondinho. Saio carregando o equipamento com aquele jeito de mulher fresca que não sabe carregar nem uma sacola, que dirá um par de esquis, botas etc. Na boa, pareço uma auxiliar de astronauta e das incompetentes!

Daí vou subindo naquele maldito bondinho que balança e é alto para cacete! Cassilda, tenho vertigem! Quando chego no alto da montanha estou completamente mareada. Mas é só o começo, porque logo em seguida preciso colocar as malfadadas botas, que só estão no ponto quando você as aperta tanto que para piscar os olhos precisa alternar com o movimento da respiração. Decide, ou pisca ou respira! Ninguém merece! E quando estou no topo da montanha, totalmente equipada, minha cabeça diz “desce” e minhas pernas dizem “nem fodendo marquinho”.

Ainda por cima, Luiz esquia muito melhor que eu, acho uma sacanagem! Ele podia pelo menos fingir que é um pouco difícil por uma questão de cavalherismo! Pior, só mesmo aquelas criancinhas de bochechas vermelhas que nem sabem caminhar direito, mas passam por você zunindo de tão rápido! É muita humilhação! Isso acorda meu lado escuro da força e tenho vontade de por meu pé na frente para elas tropeçarem. Talvez por isso que elas sejam tão velozes.

Mas uma hora minha vertigem começa a se acalmar, vou me aclimatando. Em um ato de fé, decido encarar a bruxa malvada de Andorra. Descubro que não é tão poderosa, apesar de ser prudente lhe ter respeito. E a verdade é que quando consigo relaxar, aproveitar as curvas e tomar um pouco de velocidade, finalmente, me liberto da torre de pedras e também sou capaz de encarar os dragões de gelo.

Na volta para o hotel, a mudança é óbvia. Não sinto mais a vertigem no bondinho e desfruto a paisagem. Ando com mais confiança e com pinta de atleta radical, quem vê até pensa! Os esquis já vão apoiados nos ombros e depois de produzir litros de endorfina nem sinto o peso da mochila. Dessa vez me atrevi a usar aqueles óculos espelhados de mosca espacial, afinal de contas, atitude é importante!

Chegando ao quarto, tudo que quero é um banho de banheira, o maior luxo do mundo. Aliás, se um dia alguém fizer um ranking dos maiores luxos do mundo, empatarão no primeiro lugar café da manhã na cama e banho de banheira. O resto é só exibição! Com isso, volto a me sentir princesa.

Bom, pelo menos até levantar da banheira e descobrir que todos meus músculos continuam doendo e tenho ematomas nos pés e canelas. Mas afinal de contas, uma princesa guerreira deve assumir que suas cicatrizes são troféus, certo?

96 – Menos um carnaval

Sempre fui louca por carnaval! Adoro as festas, a animação, as fantasias... tudo! Sei que muitas vezes também saem brigas e confusões, mas a verdade é que essa parte pior nunca chegou em mim.
Gosto da sua preparação, dos ensaios de blocos, da ilusão do pecado permitido, do clima que traz aos lugares que o celebram, das escolas de samba e da Portela que infelizmente não é mais a mesma.
Achava que celebraria todos os anos até ficar velhinha. Claro que sem o mesmo preparo físico teria que sambar como turista americana, levantando os dois indicadores para cima.
Luiz não gosta de carnaval, o que gera uma total insatisfação uma vez ao ano. No início, tínhamos um trato de comemorar um e descansar outro, mas isso nunca foi cumprido. De doze anos de casada, só tive um carnaval decente, mesmo assim, porque comprei as passagens “no susto” e fomos para Salvador.
Nos outros carnavais, sempre sofri acompanhando pela televisão a animação das pessoas nas festas por todo Brasil. Até que, desde o ano passado, desisti de saber o que acontece pelo mundo, não leio as reportagens na internet e foi um alívio não ter um canal de TV brasileiro.
Mesmo assim, descobri que na Espanha também se comemorava o carnaval, coisa que me animou um pouco e me fez pensar que, quem sabe, esse ano quebraria meu jejum.
Viajamos na semana anterior e fiz um esforço para chegar em Madri antes do sábado de carnaval, tudo bem que fosse um dia só, mas já valeria alguma coisa.
Começamos bem. Fizemos uma festa de aquecimento em casa para nos prepararmos para a noite que começou cedo. Até aí, por mim ia tudo as maravilhas, com amigos legais e tomando minha cachacinha envelhecida em barril de carvalho. De casa fomos para uma festa de carnaval brasileira, que não estava muito cheia nem tão animada, mas que por mim estava ótima! Infelizmente, nem todos pensavam assim. Meu carnaval que já havia se reduzido a um dia, se resumiu a uma hora, porque dali fomos para outro lugar.
Por mim, também sem problemas, não me importava onde estivesse e sim que era sábado de carnaval. Podia dançar música brasileira, espanhola, grega, do cafundó do judas... dane-se, queria meu dia de direito.
Pois com mais uma hora na outra boite, nada de ninguém se animar a ir para pista e Luiz com sua boa vontade peculiar de carnaval começou a dançar comigo bocejando. Francamente, isso me irritou!
Decidi voltar para casa e amargar mais um ano. Vai passar. Voltamos a pé na chuva e nos graus negativos. Me recusei a pegar taxi, não queria ser educada com ninguém. Nem me incomodou a água, não vi a neve, nem senti o frio, só lembrava que mais um carnaval decia pelo ralo.

Assim como minha Portela, também não sou mais a mesma.

95 – A Tal da Higiene

Sou completamente neurótica por limpeza! Não quero dizer que só sou limpinha, estou falando de neurose mesmo. Fico no limite dos obsessivos compulsivos, apesar de estar bem melhor agora do que quando era mais jovem. Em função dessa obsessão, preciso lavar minhas mãos mais vezes que uma pessoa normal, lavar toda a comida que entra na geladeira, desinfetar o chão com água sanitária, contar as coisas na rua até darem múltiplos de dez, apertar meus dedos ou beliscar a palma da minha mão... coisas assim, rotinas que trazem segurança. Mas não é tão ruim, porque como também tenho deficiência de atenção, podemos dizer que tenho loucuras complementares. Bom, não chego a um grau que me provoque problemas ou me dificulte a vida, na verdade, a consciência dessas tendências me ajudou a tirar proveito delas. E convenhamos, nem fui eu quem disse, mas concordo que “de perto ninguém é normal”. Porém vamos falar de uma loucura por vez e hoje vou contar da minha obsessão por limpeza e como Madri me tem feito melhorar.

Voltando um pouco no tempo, minha mãe conta uma história que meu irmão quando era pequeno vivia adoecendo e, por conta disso, cada vez mais ela o protegia, o que não adiantava. Até que um dia o pediatra informou que faltava a ele a famosa vitamina “S”, de sujeira! Faltava a ele anticorpos. A partir disso, ela passou a expô-lo mais. Claro que no início ele adoecia, mas foi recuperando sua resistência aos poucos.

Hoje em dia, cada vez que preciso me expor a uma situação, digamos menos higiênica, fico concentrada dizendo a mim mesma, é vitamina S, é vitamina S...

Minha primeira melhora significativa devo aos meus gatos e a arte. Nos dois casos, me fazia impossível lavar as mãos a todo momento, além de associar essa “sujeira” a coisas que gostava.

Agora, mudar para a Europa, desconfio que me curou!

Vamos começar pelo pão. Que raios de relação de amor e ódio é essa que o europeu tem com o pão? Acho que as mães batem nos seus filhos pequenos com pedaços de pão e depois os oferecem como refeição! Sei lá, algo como Pavlov. Foi a única explicação razoável que encontrei! O europeu precisa fazer o pão sofrer antes de comer, ele precisa arrastá-lo no chão, caminhar com ele embaixo do sovaco, deixar pegar poeira, manusear bastante, e só aí, o pão merece o direito de ser comido! Aqui ele ainda é vendido em sacolinhas, que deixam a metade do pão do lado de fora, mas pior mesmo é na França, onde vem com um pedacinho papel em volta que só cabem três dedos para segurá-lo.

Logo que mudei para cá, não conseguia comer pão. Era impossível não imaginar a tragetória do pobre antes de chegar a minha boca. Hoje, quando estou em restaurantes e não resisto ao cheiro do pão quente invadindo meu nariz, penso: bom, se está quente, os micróbios morreram queimados! Vitamina S... vitamina S...

Além disso, pensando bem, se depois eu tomar vinho, o álcool desinfeta o estômago, certo?

E andar de metrô? Aquele negócio de pegar nas barras de apoio que todo mundo põe a mão? Putz, no começo sofria! Luiz me deu a idéia de andar com lencinhos higiênicos na bolsa. Não posso dizer que não fiquei absolutamente tentada, mas já era paranóica o suficiente e resolvi lidar com a questão de maneira madura. Ou seja, maduramente aprendi a me equilibrar sem tocar em nada!

Mas só percebi mesmo que estava praticamente curada da última vez que fui comprar frios para lanchar. Primeiro porque o jamón que comprei estava pendurado sem nenhuma proteção de embalagem, segundo porque aquela historinha de cortar os frios com luvinhas aqui não existe! É na munheca mesmo. Era o indivíduo pegando com seus dedinhos cada uma das fatias do meu presunto e eu respirando fundo e pensando, vitamina S... vitamina S... conta os presuntos pendurados até darem múltiplos de dez...

Bom, não disse que estava assim totalmente curada, mas quer saber, em outros tempos, teria jogado tudo fora quando chegasse em casa. E acredite se quiser, comi e achei foi bom! A propósito, comi com pão. Vai ver os anticorpos também nos ajudem a diminuir o senso crítico e essa tal da higiene!

94 – Agridoce, ao meu avô

Meu avô está com 88 anos. A idade vem demonstrando sinais evidentes, mas ainda é um homem muito lúcido. Depois que minha avó faleceu, trocou seu apartamento por uma caderneta de poupança e seu carro por uma mala zero quilômetros. Passou a se revezar entre a casa do meu pai e da minha tia. Fica mais tempo na casa da minha tia. Hoje minha mãe me contou que estava um pouco anêmico e desanimado. Depois disso, foi impossível não pensar nele o dia todo.

Meu avô é um dos homens mais inteligentes que conheci, inteligência que herdou meu pai. A diferença é que meu avô teve pouca instrução formal e, mesmo assim, era capaz de discutir profundamente da troca de um pneu ao funcionamento de um submarino nuclear. Nunca encontrei um assunto do qual ele não soubesse conversar.

Entretanto, às vezes me parecia que era duas pessoas. Uma com a família, que incluía minha avó, seus filhos e nós, os netos; outra com todos os demais. Um homem acre e bravo com as pessoas em geral, mas um avô fabuloso! Nunca teve muitos nem grandes amigos. Sempre foi de um temperamento muito difícil para se relacionar e nunca se esforçou para modificar isso. Não conheço a fundo seu passado, mas posso imaginar que sua vida jovem foi dura e amarga e, talvez sua inteligência, o fez perder a fé nas pessoas. A sensação que tinha é que ele não confiava em quase ninguém e fazia questão de demonstrar que também não gostava de quase ninguém.

Acontece que sou neta e sempre fiz parte do seleto grupo a quem ele confiou e mostrou seu melhor lado. O homem que para os demais era emburrado e sério, era o mesmo homem que me buscava no aeroporto me fazendo cócegas e dizendo “pode morder, pode beijar, pode apertar”...

Nas férias na sua casa não achava tão ruim acordar de manhã, pois sabia que na mesa do cáfe encontraria me esperando cabaninhas de índio esculpidas na ponta do pão francês e brincadeiras que faziam minha imaginação navegar solta. Depois me levava na pracinha para andar de pônei, brincar no parque e tomar “chicabon”. E mais tarde, quando queria dar sua cochilada, me enfiava junto na cama e pedia que me contasse a história da cegonha mentirosa por tantas vezes que só um avô poderia contar. É claro que quem dormia ao fim da história era ele.

Também era ele quem nos levava ao Tivoli Parque da Lagoa e para andar no trenzinho de Cabo Frio, centenas de vezes! No parque, era quem tinha coragem e paciência de ir conosco na montanha-russa e no twist, brinquedos que adorava, mas não tinha idade para ir só.

Meu avô construía brinquedos e jogos muito melhores do que os vendidos nas lojas. Acho que eram melhores porque víamos como eram feitos e participávamos da execução. Tinha ferramentas para tudo e sabia consertar tudo. Também nos levava para pescar com ele na única idade em que pescar me parecia uma aventura. Ele tinha uma forma diferente de se comunicar conosco e a gente se entendia sem muitas palavras. E para quem conhece meu trabalho e é um pouco observador, hoje também conhece um dos meus mistérios.

O tempo passou e quase casei aos 19 anos, desisti na última hora. Foi a decisão mais difícil que tive que tomar até aquele dia e sofri muito. Minha família me apoiou e sei que foi quando resgatamos nosso passado, mas hoje estou falando do meu avô. E meu avô foi a única pessoa que nunca me perguntou o porquê, não me perguntou absolutamente nada, não me disse o que achava antes nem depois. Quando me recebeu, pegou minha mala e foi até o carro com a mão no meu ombro, me abrançando. Tive cinco anos outra vez, deixei para trás quilos de culpa e poucas vezes me lembro de ter sido tratada com tanto respeito. No silêncio da nossa língua de avô e neta talvez ele, que havia me contado tantas vezes a história da cegonha mentirosa, entendesse melhor que naquele momento eu não podia mentir. Acho que a única coisa que me disse foi que minha avó havia caprichado no almoço, preparado bife acebolado com uma mandioca frita crocante. Havia três dias que eu não conseguia comer, nada sólido passava pela minha garganta, mas naquele dia almocei.

Agora gostaria de animá-lo e estou longe para sentar muda do seu lado e colocar a mão no seu ombro. Ligar e falar coisas melosas não é nossa língua nem nosso estilo. Não sei se conseguirei receber sua visita novamente, é um pouco complicado agora mais velho. Quem deve fazer o caminho sou eu.

Fico um pouco curiosa para saber se com a idade ele recuperou sua fé nas pessoas ou se a perdeu de vez e, também por uma questão de respeito, nunca vou perguntar. Mas posso dizer que por seu exemplo quem ganhou fé nas pessoas fui eu. Aprender a reconhecer o lado bom e sincero do outro é muita coisa.